|
Prosa Algo tão diferente da melancolia, daquela vida indefinida, simples e sem glória, simples, grandes escadas, um enorme portão que me recordo azul, a mesma cor das janelas de madeira, daquelas encontradas em antigas cidades do interior; paredes brancas, copa com ladrilhos coloridos, chão e forro de madeira, um quintal que se iniciava em uma jabuticabeira e se abria enorme em várias árvores. A carroça que deixava o leite e o pão, quão distante de toda a tristeza e agitação; a dócil alegria e obediência para um mundo que se abria em horizontes nunca imaginados, um mundo pequeno e amplo, criado por homens que atravessaram mares e edificaram um reino. E o que tinha isto com a amplidão de meu quintal? Talvez a melancolia futura, o sentimento sempre do que poderia ter sido, aquele mundo sagrado e futuro que se desfez em toda a sua trajetória. Pois pessoas pujantes do passado envelheceram, enfraqueceram e morreram e com elas toda a memória de um mundo e um tempo, a inocência e o pioneirismo que pouco a pouco se desfez e o surgimento de um mundo francamente cínico, mas real, áspero, ou a aspereza do real, a falta de alegria com poucos momentos e movimentos que criassem ou recriassem aquele admirável mundo novo. Aquele quintal era esse mundo mágico, com histórias fantásticas, sem paradigmas entristecedores ou reducionistas, sem a consciência da unicidade de cada um, sem a descoberta do espelho, sem precisar olhar as próprias mãos, os pés, sem olhar o próprio corpo, pois o corpo era o quintal, outro ser o nosso ser, um mundo que se confundia com tudo que era e desejava. Era eterno como o mundo e a matéria, as transformações eram conceitos não percebidos e logo não pensados. Era cada palmo de terra, cada laranjal, cada jabuticaba, cada janela daquela casa e de todas as casas em volta, era um deus como um deus que cria o mundo a sua imagem e semelhança, cada irmão uma função de meu corpo, cada estrela meus olhos que não reconhecia, cada rua um labirinto de mim. Por que isso acaba? Fromm cita a Emilia de Hughes, e observa a descoberta maravilhosa que faz de sua própria individualidade, uma descoberta de uma entidade diversa de tudo ao exterior; enquanto brinca nota suas mãos e seu corpo pulando, descobre que é uma consciência , uma pequena parte do universo que se apartou e nasceu. Pois descobrir a unicidade é descobrir a morte, descobrir a vida é descobrir o fim, ao se libertar de todas as determinações, e devemos, pois conhece-las é se libertar, convidamos a nossa vida a mais terrível delas, e nos tornamos sua prisioneira. Ao enxergar os céus, as ondas infinitas dos mares, ao pisar em campos diversos de si, descobrir átomos e moléculas, andar olhando as casas e todos os quintais, descobrimos o conceito do fim. Do fim das mãos, dos pés, dos corpos, das árvores, das mais distantes estrelas. E entro apressadamente nos cálculos diferencias e integrais, nas teorias que nascem e morrem como todos os paradigmas que as formam, um mundo cruel, uma história que necessita de deuses para um sentido eterno que corrói em pesadelos nossa mente, até que um Zardoz nos tire todo o sofrimento. De um quintal em Guaxupé corto ao interior de Curitiba. Uma casa, uma fossa, uma horta que se estende em um terreno em declive, da mistura de olhos para a discussão entre adultos, da incompreensão da unicidade para a incompreensão dos adultos, a percepção de que não somos um só, mas vários, opiniões discordantes, hostilidades observadas sem a completa percepção do porquê. Mas aqui já se vislumbra uma sombra do futuro. Ao brincar, brinco com outro, rio de outro, sei que existe outro. Ainda que a neblina cubra em parte os olhos, já há quintais alheios, galinhas que não podem ser mortas nem comidas, há um vizinho em cada lado e terrenos proibidos de serem explorados, ou antes, a consciência dessa proibição. Outro corte. Seus olhos, a distância , os pensamentos que tornam em cada lembrança do doce abraço. Imaginaria de meu quintal? Nas minhas lembranças estreava Kubrick, a sonda que partia aos planetas procurando a origem de nós, um pensamento vago do espaço e do escuro, que não tenho mais que dois segundos de olhar e reflexão. Tinha o futebol, os passeios, o céu real e não o imaginado. Tinha o concreto, uma rudimentar representação, o real que ocupava todos os segundos. A tristeza não era alma. Era pão. A gigantesca árvore de palavras resumida em um tronco e poucos galhos nascentes. A curiosidade na igreja matriz, com seus porões; os dias em uma piscina e em campos de futebol. O real em cada time que idolatrava, sem razão, sem porque, na volta no quarteirão e na praça, jamais em olhos e estrelas. E procuro discernir os pontos de inflexão que levaram a essa viagem fantástica e melancólica. Sei, antes percebo, que mudanças quantitativas levam às qualitativas, dialéticas ou não, e procuro esse autodescobrimento, numa necessidade febril, para entender, entender todas as determinações que fazem ser o que sou. Ser radical, dizia Marx, é ir a raiz das coisas, e procuro essa raiz, essas raízes, esses pontos, esses processos, que talvez nunca esclarecerei, mas tento por motivos que talvez desconheço. Fugir de seus olhos? Cartasear a dor? Viver mais algumas linhas e horas? Sinceramente não sei. Entre a alegria de um doce e a leitura de um livro há um universo infinito, e talvez nunca alcance sua abstração. Ou talvez escreva e esvazie, esqueça todos os olhos e a saciedade me torne pronto para a maior das determinações. E há Deus. Que não surge da idéia perfeita de Descartes, nem de um ser contemplativo de Aristóteles, pois tanto um como outro, são o reflexo de suas próprias existências. Surge com os pequenos pensamentos do dia a dia, naqueles mandamentos e autoridade dos adultos, que não aprenderam nem com Descartes, nem com Aristóteles, nem em doutrinas quaisquer. Antes isso me parece uma regressão quase infinita, uma indução a ser provada. Mas Deus é o coração de um mundo sem coração, um ideal a ser alcançado, aquela velha idéia de perfeição, ou ainda de contemplação, a matéria sem forma, ou a potência da matéria. Mas aí já estamos no mundo dos CDIs, nas refutações marxistas e no perigoso jogo dos argumentos. Faze-lo é adiantar uma história, perder em reflexões a linearidade almejada. Pois a infância não se envolve nesses intricados jogos, antes sim em analogias e mandamentos, em estímulos e reflexos, em observar e copiar, copiar a autoridade, a observar o medo e temer também, jogos lúdicos que agora observo tão bem. A procura do carinho, a necessidade de se enquadrar em grupos, os olhos sempre pedindo os pais, as brincadeiras que de certa forma aspiram um mundo adulto e tornam um simulacro quase perfeito desse mundo. Os soldadinhos de chumbo, as conversas entre eles, os soldados e índios, um órfão, um pedido em forma de brinquedo. Como desprezar os pedidos infantis, ainda que envolto naquela névoa de incoerência, ou antes disso, naqueles pensamentos e elucubrações iniciais que aprendemos tão bem a desprezar depois de crescer? Ia à praia quieto e nem sabia o porquê. Olhava em volta e nem percebia que meus atos me delatavam, uma delação não percebida nem sentida, um choque de dois mundos que sempre foram e serão incompreendidos. A mecânica estava em construir castelos na areia molhada e pedir o olhar materno, sem nunca ambicionar, ou pensar que ambicionava o que não podia. Aquela imensa coleção de gibis, um mundo diferente do mundo, as transformações que sonhava inconscientemente ter, a procura de números perdidos que completassem aquele mundo, quão diferente do sentimento de impotência que todos apresentam depois. Pois na infância não se conhecem limites, estes estão confinados em um universo disperso e um pouco irreal. Misturam-se sonhos com o cotidiano, embaralha-se o ser com o que poderia ser, não se sabe ainda que a humanidade só se propõe a resolver problemas que podem ser resolvidos, ou ainda que são captados no processo de seu devir. E há o jogo de forças entre a autoridade adulta e a sedução do grupo. Tateiam-se os limites de um procurando outro, o ponto de equilíbrio dessas duas forças, até o rompimento na adolescência. Que mundo estranho e simples. O irreal misturando-se ao dia a dia. A autoridade e os grupos. O lar e os passeios. O carinho, o amor, o medo, a autoridade. Os estímulos e os reflexos, um Deus a nos proteger e nos vigiar. O universo que nos envolve e nos aparta. As idéias que se clareiam pouco a pouco, e nos arrancam daquele mundo, na velha lei dialética, e surgem todos os paradigmas que hoje nos guiam, todas as convenções que são toleradas, todos os sentimentos infinitos que tentamos explicar.
Capítulo 2
Quase não lembro das aulas de metodologia. Um pouco do conjunto de falseadores de Popper, os paradigmas de Kuhn, as diferenças de ciências naturais e sociais de Mill, o poder e as leis da retórica. O pouco que me ficou são frase soltas, pequenos cacos como aqueles colados no chão. De que adianta uma hipótese ser falsificada, ou o prazer de reduzir o mundo e torna-lo um jogo de xadrez infinito? Ou ainda negar os experimentos, o tempo, englobando uma esfera em outra, argumentos tão diferentes e tão difíceis de refutar. Lembro-me, e por que me impressionou bastante, da viagem do concreto caótico para as determinações cada vez mais simples, através da representação e intuição, e daí a viagem ao concreto novamente, mas aí como um concreto pensado, o resultado de múltiplas determinações, a unidade do diverso. E vejo todos os peixes, todos os animais, todos os insetos, as classificações como as feições de nosso universo, e todo o dia a dia, todas as guerras, todos os acontecimentos como os fatos desse mesmo universo. E noto a abstração máxima, os fatos e feições, o verbo na sua máxima síntese, e fico espantado com todos os que nem pensam ser a religião o consolo da existência, o objeto em que o jovem hegeliano se apega antes de se afogar, o esquecimento da primeira parte da viagem e a sensação de que o início foi o verbo, após o qual surge o mundo. A primeira etapa da viagem, ié, do concreto ao abstrato me leva a abrir a janela e descobrir um mundo pronto, mas não pronto para o pensamento, ou antes, pensado, e sim um mundo a ser decifrado, catalogado, classificado, um autodescobrimento (pois não deixamos de fazer parte dele), através de processos que se explicam sempre a posteriori, qualquer que seja o ramo do conhecimento destinado a isto. Quer seja a representação, a intuição, a analogia, pouco importa. Nascemos sob o signo das determinações (a posteriori) e nos envolvemos desde de o primeiro dia no instinto febril de organizar e explicar, criar abstrações para a segunda etapa da viagem. Ignorar isto é criar os conceitos acima da nossa existência material, os pensamentos sem cérebro, o Belo, o Bom, o Verdadeiro. E isto de fato é algo difícil de escapar, porque os conceitos sempre se adiantam ao real, ié, são necessários e imprescindíveis à explicação do mundo. O mundo de fato só existe em nossas mentes. O tempo, o espaço, os peixes, as estrelas, não são nada sem nós, os segundos jamais seriam contados sem os olhos em um relógio, o espaço nunca seria percorrido sem corpos, imaginários ou não. E uma religião só surge num mundo material, e dada à especificidade desse mundo, temos suas leis e pecados. Deus é a segunda etapa daquela viagem, o ser Belo, Bonito e Verdadeiro, que surge em nossas mentes somente após a exaustiva primeira etapa. E indago a mim mesmo, o quanto isto nos custou e o quanto foi necessário. O desenvolvimento de uma civilização talvez nem ocorresse sem o divino, às leis em ultima instância são as conseqüências dos pecados; pecados surgidos nas condições materiais de nossa existência, que serviram de molde, ou antes, de sentido para o nosso desenvolvimento. E esquecemos os primeiros pensamentos, aquele mundo terrível e desconhecido que nossos ancestrais se depararam, a procura febril da explicação para todos os fenômenos que os cercavam, a gravidade do desconhecimento do funcionamento de nossos pensamentos e corpos, os poderes da natureza sempre acima de seus poderes e talvez a analogia de um poder maior, um Criador que apaziguasse aquele mundo conturbado tornando-o um mundo certo e sem surpresas, talvez uma rudimentar procura de equilíbrio, o demiurgo da lei natural das coisas até a procura do equilíbrio dinâmico. E assim se fez a história, a criança teve seu Deus, um ser caridoso, um bom velhinho que ampara, mas vigia. Um ser que criou todas as coisas que conhecia, as boas e as más, ou antes, as más surgiram de nossa ganância, que o mesmo bom Deus criou, que criou a propriedade e o roubo, a herança e o casamento, criou coisas maravilhosas para serem vistas, mas não tocadas. Criou todos os olhos do mundo e negou a todos que lhe desobedecessem ou não lhe cultuassem as delícias da vida eterna. Até que Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, foi acorrentado e teve seu fígado comido, numa época que as abstrações só chegavam ao fígado. E penso nas milhões de explicações que estão espalhadas nos milhões de seres que povoam meu mundo. E consigo ver somente algumas delas, e escrever uma parte menor ainda. Em parte por causa de minha existência única, específica. Em parte aos paradigmas que nos cercam e são mais que necessários para não se perder em uma viagem pelo infinito. E tento olhar, mesmo não querendo, o conjunto que falsificara cada afirmação de cada pessoa. Como nosso mundo é pequeno, e quão grande é o mundo. Ao iniciar nossa viagem, ao abrir os olhos para o mundo, sinto que o determinismo e o fatalismo nos espera e nos arrasta, tentamos nos separar desse mundo e ficamos cada vez mais presos, pensamos descobrir todas as leis e determinações como conhecer um labirinto, para que possamos nos mexer e nos mover com liberdade, e noto que o labirinto cresce até o infinito, aprisionando-nos em uma noite que não tem mais fim.
Cap 3
E cada ser apartado do mundo, vivendo na futilidade do riso e na melancolia do ócio, distraindo os segundos, pulando os pensamentos, eixos que se viram e se transformam, sem nunca serem constantes e coerentes. Piso nesse mundo nem com tristeza nem alegria, piso com os olhos no relógio, com a noção de que nem toda a lealdade pode ser paga, nem toda crueldade apagada. E nem tento mais viver além de do remédio que entorpece a mente, seguir as doces convenções estampadas no rosto de cada um, e fumo sem parar, e escrevo sem parar, e mudo os canais sem ter paz, uma pedra para descansar e se alegrar. O rio que corre leva todas as minhas lembranças e parece que assisto algo que nem aconteceu. Que coisa estranha conversar, prefiro antes o abraço, o toque que une dois mundos, uma sensação quase sobrenatural que me puxa e me diz –Cala-te e seja o momento seu soberano. E nem tenho forças para me levantar, e dizer as palavras que sonha. Porque só sonho na noite que me leva, no abraço que me redime, não em uma mesa ou em diálogos, e nisso sei que nunca me adaptaria ao mundo. De certa maneira tenho algo de vebleniano em mim, o distanciamento, o sono constante que me retira desse mundo e que nunca posso diagnosticar ou analisar. Vivo em um deserto e em uma montanha de emoções e sentimentos. Eles vêm quando não quero e se vão quando algo se aproxima. Existiria um deus que me salvasse? Esse deus teria sido cruel comigo, teria feito um mundo maldito, em que o a miséria é preferível à riqueza, a fome, à gula, a castidade à luxúria, teria feito tudo para que se observasse, mas não se tocasse, um mundo para ver e não se ter, um sentimento de ter um mundo e não se saciar. Quanto desvario em escala cósmica, quantas luas que nunca chegarei a tocar, quanta escuridão cerca meu mundo e todos os mundos, quantos centros perdidos, roubando um pouco de matéria para tentar se perpetuar mais um dia, a praia que nunca satisfez os desejos, uma lembrança infantil e amarga. As ondas que cobrem o corpo e parecem levar a um retorno. Talvez Bentinho fosse diferente se nadasse com Escobar. O futebol na praia começa com duas pessoas e uma bola, e logo , como mágica, formam-se times de cinco, seis, vinte, quantos se dispuserem a jogar. Pode-se passar uma tarde inteira, entrar pela noite, bolas chegando e saindo, pessoas entrando e saindo, aquela dinâmica que lembra a vida, e depois o doce mergulho antes da retirada. O sol, a areia molhada que pouco a pouco se torna áspera, todos atacando, belas jogadas, lembranças que se apagam na primeira semana, como o café que se tomou na semana passada ou o amor eterno de alguns meses. Na disputa não há resultados, estes não entraram ainda no mundo. A prazeres momentâneos ou daqueles esperados que Jevons tanta gosta de citar. O prazer é puro, a dor é evitada. A natureza é Bentham, é o império da dor e do prazer. Todos evitamos a dor, e isso é uma coisa vulgar, óbvia, e procuramos o prazer, idéia igualmente óbvia. Mas dessas observações tão vulgares surgiram complexas teorias e conseqüências, desde da “mão invisível” de Smith até todo o pensamento marginalista. Cálculos de dor e prazer. Maximizar e minimizar dadas as restrições do mundo. A natureza humana possui variações infinitas, mas certos aspectos são constantes, e um deles é guardar para si o que há de melhor, ié, para quem mais amamos. E penso nos pequenos seres. Existirão em seus pensamentos, terão apenas instintos, existirá algum tipo de escrúpulo, uma forma rudimentar de emoções, alegria e sofrimento, existira a idéia de eternidade, a noção de outros olhos, a tristeza da perda? Certa vez perdemos a Copa do Mundo e todos, como unidos por um sentimento comum, fomos à praia jogar, uma cartase , uma forma de esquecer ou reviver um jogo imaginário, um passado transformado cada vez que tocávamos na bola. A tristeza pouco a pouco desapareceu e uma nova tarde surgiu no horizonte, uma tarde jovem e cheia de esperança, um mundo que se descortinava em caminhos infinitos. O Universo era nosso, o jogo era nosso, o passado transformado era nosso, e fomos para casa felizes, pensando em namoros e novos dias na praia. E o que pensariam os pequenos seres? Que paradigmas seguem, teriam algum? Uma flor se volta para o sol, e podemos dizer que assim o faz por complexas reações químicas, desenvolvidas ao longo de milhões de anos, ou simplesmente afirmar que maximiza a luz e isto é uma lei universal. Como refutar uma ou outra? Aquele jogo na praia seria um jogo de forças envolvendo complexos mecanismos de nossas mentes, ou apenas esquecer a dor e possuir pequenos momentos de prazer?
Cap4
A certeza do passeio, a alegria em seus pequenos olhos, a mamadeira no bolso. O colorido da feira, aquela variedade enorme, a curiosidade inata de olhar e aprender, o verbo que não chegou a se concretizar. Nunca ouvi de seus lábios o pai que tanto desejava, somente a gratidão, ou o amor, ou ainda a sensação de dependência, algo que nunca vou saber e que me volta em cada noite. Até hoje sou incapaz de abrir seu álbum de fotos, mirar seu pequeno rosto, os seus braços estendidos à espera do colo, lembrar o peito pequeno e frágil, os cabelos loiros e suaves e aqueles olhos imensos e meigos. A noite triste atravessando a Av. Paulista, a noite interminável numa maca, o desespero ao ver sua face, os lábios azuis, um rostinho virando e se entregando, a viagem atrás de respostas que sabia que não existirem. Como somos, fazemos por uma vida inteira coisas que não acreditamos; rezo todos os dias, mecanicamente, antes de sair e ao dormir, rezo no que não creio, e me consolo de saber que talvez esteja errado, que todos esses momentos não sejam em vão, que um dia ressurgira sua face com a palavra presa e sonhada. Tentei continuar na faculdade, mas os pensamentos voltavam e arrastavam à minha casa, fiz grandes cartazes para ensina-lo a ler, a dizer o que tanto sonhava, e olho todos estes livros na estante, livros que nunca lerei, tão coloridos e fascinantes, vejo todos os canais que posso e não quero, ouço algumas músicas, jogo paciência e tento distrair os segundos, escapar de seus olhos. E se foi naquela noite triste e interminável, naquele corredor que tento fugir, para os braços que tento acreditar. Como isso muda uma vida. Nunca mais tive a alegria de ter alguém, o medo sempre de perder esfria ou tortura os pensamentos, e tive a noção massacrante do que é o fim. O fim dos olhos, das mãos, do corpo, do tempo. Terminei a faculdade como quem está em um sono imperfeito, um dormir e despertar do corpo, como na noite em que sentamos na cama na tentativa de acordar para depois dormir.
Cap5
Por que andar? Percorrer , olhar, observar, andar... Satisfazer olhares, egos, pedir as areias um pouco do contato suave e áspero. Dedicar ao olhar o céu negro e ondas brandas. Satisfazer o nosso olhar com reflexos de areias. Luzes, luzes difusas para recordar e escrever. Areias, a certeza quase instintiva que se vá chegar a algum lugar, alguma conclusão, um lugar mágico onde o desconhecido satisfaz a mente, onde leis pouco importam. Areias. É caminhar ao infinito, pois se sabe que lugares mágicos não existem. E se caminha. E esperei-lhe com olhares. Que fazia em um lugar? (Há palavras feias, sem sonoridade, textos feios, vulgares ou mal escritos. Sou monótono, desculpe). Mas há delicadeza em seu olhar e em suas palavras. Há a suavidade de suas feições e seus belos olhos. Há algo em você quando visto por olhos melancólicos. Há o contraste de situações violentas e desagradáveis, e seu rosto, bonito e sereno. E há sempre um final. Há decepções e o que era agradável torna-se incômodo, as vezes um mal-estar. Aproveitar os dias, hedonistas e ínfimos. Certeza de gostar, com uma rebeldia incrivelmente serena. Repetir, repetir. Repetir para satisfazer situações levemente diferentes. Gosto como o conhecimento ou ainda frases soltas, aparentemente sem elos e nexos. Confusões sutis, metáforas para fugir de uma dura realidade. Deixo a perspectiva e os dias correndo. Amanhã será um novo dia, e depois outro, outro...
Cap6
O inferno são os outros. Os olhos nunca satisfeitos, as pequenas nuances que nem sequer percebem, o jogo quase diário, que impregna e domina, numa sensação quase de eternidade. E mesmo participando deste jogo, somado a todos os olhos do mundo, tento escapar, como todos os olhos do mundo, mas na conveniência de minha inerência, como todos os olhos do mundo. Que fazer? Os instintos dominam a razão, ou a razão objetiva os instintos. Os intermundos de Epicuro tornam-se o nosso próprio mundo, uma sensação de que a razão evolui e domina todos os instintos; mas se isso é falso como provar se nada se prova? Como escapar do apologético, do espírito de uma época, de um herói que escape do monótono fluxo circular da renda, criando um novo mundo, mesmo que se saiba que esse admirável mundo novo se vulgarizará como todos os outros? Talvez tente em vão pq meu tormento seja pura incompetência, uma inaptabilidade a esse maravilhoso jogo em que a natureza nos jogou, necessário, implacável, inerente a evolução. Mas e o teleológico? Existiria? Nesse momento, olhos se misturam, naquilo que mais odeio, aquele momento em que olhos se misturam a todos os olhos. Que fazer? Procurar outros, entregando-se ao repetitivo jogo da natureza, cansado, entregue a um universo que talvez pense, ou que surgiu e numa incrível história, se reconheceu, numa descontinuidade matematicamente discreta, evoluindo a passos, falhando e crescendo. Mas sinceramente nada disso me comove e convence. Há em cada dia a certeza do fim da individualidade, da fuga do cotidiano para um pensamento mais amplo, como observar uma partida, um esporte em que todos fazem do instinto uma pretensa razão, sem enxergarem o fim, os meios, numa ignorância que assombra. A razão não existe por si só, são paradigmas que nascem e morrem assentados naquela base material que os jogadores mal tomam consciência. O egoísmo está naquela mão invisível, produto de nossas mentes para justificar nosso próprio prazer, pois quando se procura o prazer as apologias crescem ao infinito, as justificativas tornam-se sem lógicas, os silogismos paradoxos que mal se dão ao trabalho de se negarem. Por isso amo o inacabado e o pretenso eterno. Por isso queria seus olhos longe da multidão de todos os olhos do mundo, o seu abraço, diferente de todos os abraços do mundo. Por isso o cigarro que trago traz o tormento da existência, uma pequena pausa no prazer de existir, ou o esquecimento de todo o jogo, de toda a vulgaridade de objetivos que todos nem procuram pensar, sem esvaziar todo o sentido da existência. Trago esse cigarro tentando pensar, ou melhor, fugir de tudo isso, tentando pensar no que todos pensam, uma carreira vulgar, um sonho que após atingido, torna-se monótono e vão. Trago para que se distraiam os dias, para trazer um pouco de hedonismo, e tomo para um dia, um lugar mágico, sem deuses, sem sentidos, só os pequenos momentos de felicidade, daqueles que se encontram no sono.
Cap7
Os seus olhos, grandes, meigos, eternos durante um pensamento, um corredor que leva a uma explosão árida. O que teria acontecido? Os pensamentos traíram, os fatos não são esses? Como é pesada a eterna falta de remissão...Mas existiria? Como repetir num infinito, se dois pontos, por mais perto que estejam, são de uma distância incomensurável? O eterno retorno, panacéia de toda desilusão, o dia a dia confuso, a pequena e triste vida que segue como nos intermundos de Epicuro. Quão grande é o mundo, quão distante chegarão todos que agora vem e virão, e tão pequeno, tão só minha alma. De nada enxergara planetas e estrelas, sem reconhecer pensamentos que
Cap8
Desejo tantos seus olhos, que abstraio todos os pensamentos, a mais distante lua, um universo que no momento pouco me interessa. Suas mãos, quantos milhões de anos foram necessários, cada reação química, cada dia a dia em árvores, quantas lutas para que permanecesse aqui. Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Aquele sentimento do que sempre poderia ter sido, um sebastianismo que nunca me abandona, que escraviza todo e qualquer pensamento, pequenos momentos que poderiam durar uma eternidade. Mas perco nesse labirinto, as imagens enfraquecem e todo o dia de ontem, que tento guardar se vai, no início como sofrimento, até descer ao descaso de um novo dia. Por que? A química em seus olhos esta justamente na oposição a outros, pouco importa sistemas se somos feitos para subir em árvores. E penso em você como aquela remissão impossível, a tênue esperança de um eterno retorno, os olhos que jamais cessam de povoar meus pensamentos, o doce abraço perdido em um canto do tempo. Que fazer senão escrever para esvaziar, jogar os pensamentos na praia e torcer para que o a distância não seja infinita, não a do tempo, antes a do espaço. Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim - quase a expansão... E fico em reflexões alheias que nem me trazem mais o alívio, nem a solidariedade da falta de expansão Momentos de alma que, desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios.. Nenhum deus para redimir, apenas o dia, o ferro, a o caminho duro e pouco linear. A distância que atormenta a alma, a proximidade que suga tudo para si e desaparece. A insustentável sensação de que cada dia traz um novo dia, e outro e outro... Distrair os pensamentos em intermináveis canais, pequenos flashs, seus olhos, o dinheiro, a praia, a casa, a chuva, rondas, trechos lidos e nunca completamente entendidos. Como se darão os pensamentos? É uma coisa estranha pensar de como pensar, ocupamos todos os segundos tentando esquecer os mecanismos que os preenchem, e o alívio do ato de tirar a bota apertada torna-se o tormento do ócio. Ansiamos por ele para detestá-lo em seguida. E a maratona de pensamentos continua, implacável, distraída, afastando cada vez mais céus e campos, ansiando pelo ócio detestado. Quanta eternidade cabe em um segundo, quanto espaço cabe em uma fração, cálculos que só o distanciamento nos traz. Como queria fechar os olhos e dormir, dormir a eternidade, naquele mundo que não cabe o espaço e o tempo, que conceitos são distorcidos, ou antes, abstraídos e o ideal se impõe para o prazer, químico ou não, a alma em milhões de neurônios, sem saber quem comanda. E olhos essas paredes, e dirijo por tantas ruas, tentando descobrir o que saciara o espírito, o lugar mágico que trará o desprendimento do dia a dia e tornará o sono redentor e eterno.
Cap 9
Que bela e estranha a vida. Um Zippo, um Marlboro que nunca soube soletrar. E fazemos coisas por toda uma vida sem saber exatamente o porquê. Tristes são todos os olhos quando condenados ao ócio, o pesado fardo de existir, uma eternidade pretendida como uma tortura que não tem fim. A alegria está sempre nos pequenos momentos, sempre no inacabado, no pretendido, a espera do prazer a cada segundo superando em muito o momento. Cada momento abstraído de toda sua extensão e eternidade, abstraído de frações infinitas, até um cálculo tangencial. Em física mostra-se isto muito bem e exemplarmente. Como calcular a velocidade instantânea, a aceleração instantânea, o momento em que as médias morrem, e os números inteiros carecem de sentido. Usa-se a derivada, uma aproximação, ou nada mais que uma abstração que dá sentido a todo um edifício teórico. É como são os pequenos momentos, não podemos mensura-los, não sabemos exatamente como começam e quando terminam, e o ócio trás a tristeza por lembrá-los, ainda que de forma vaga e indefinida. Os seus olhos são assim, tragam-me com alegria a um mar de melancolia, um porto de onde parto e vejo ao me virar uma multidão de olhos, e não consigo distinguir, a não ser em convenções, onde começaram a se misturar com todos os olhos do mundo. Queria contar tantas coisas, interagir mundos, mas está tão distante, e entro naquela delegacia com a sensação de morrer um pouco mais cada dia, e esqueço cada dia até a noite chegar com seu ócio. E tento pensar como surgiu uma consciência de si mesmo, como tantas consciências estão fracionadas, relacionadas por mecanismos que pouco entendemos e pouco tentamos aprender. Marx fala da estrutura material que nos leva, o pensamento quase escravizado, e tenta compreender essas determinações para se libertar, mas quantos paradigmas podem existir? Há o infinito para se abstrair, abro minha janela, e vejo o incomensurável, dirijo feixes, pobres, estreitos, e tento dormir esquecendo todos os detalhes.
Cap 10
Que sentido, o ontem desabando, o fardo quase que insustentável, a manhã que chega com o cheiro de ontem. Quase não existo, o vício que corrói tudo que penso e sou. Ontem, sempre ontem. Lembro das coisas que aconteceram, como sonhos que nunca vivi, como felicidade que tive e não sei, como um olhar atento que mostra o mundo, olhar que destrói o ontem para erguê-lo em seguida. Pedras e praia, um simulacro do ontem, sempre ontem. Simulacro de uma vida, só, em pensamentos que questiono, lembranças que questiono, um pequeno rosto a me mirar e decifrar. Por que partiu? Entre dois pontos, por mais próximos que estejam, existe uma distância infinita. E isso significa o fim de uma esperança, a de ter em meus braços seu corpo e sua alma, seu pequeno peito frágil, a esperança do verbo que nunca se concretizou. Sofro por seus olhos, por seus pensamentos, uma dor sem fim e sem compreensão. Quando imaginaria? Temo por você, temo por seus pensamentos, por um eterno retorno que nunca redima seu sofrimento. E tento ocupar todos os segundos, calcular, preencher, olhar e esperar. E das pedras e praias surgem os seus olhos, do sol, da escola, dos pequenos pecados, as nuances quase esquecidas, um ontem que se mistura com todos os ontens, sentimentos estranhos que apertam o coração, seus olhos e gravidez, uma viagem desesperada que sabia que nada traria além de desesperança, a viagem, o afastamento de toda a crença e fé. E fazemos, e repetimos, e insistimos em tudo o que não acreditamos, a mesma atitude vã e fútil, mas futilidade tão necessária. O porto infinito, a partida triste naquele céu ensolarado, o sono que alivia a madrugada, o dia a dia que alivia as lembranças, Schumpeter, Marx, Popper, Jevons, HBO, Dobb, prateleiras coloridas para distrair e enfadar. O porto ensolarado que vejo frio e cinzento, cada segundo que morre e massacra, o abraço que redime, o navio que parte para nunca mais voltar e vejo que tudo isto é a existência.
Cap 11 Dá-me sua mão, que conduzirei ao caminho do inexpressivo e do ocaso. Seu corpo, com todo o seu sentimento, da razão à procura da razão, do início ao começo do início. Dá-me sua mão e partiremos do eterno ao fim, da chama ao azul, do só a solidão. Um corpo que não para de pensar, pronto a ser tocado, percebido, falado, sentido, um escrúpulo que foge a qualquer moral, um sentimento que se eterniza num instantâneo, ínfimo, pouco ou nada duradouro, uma metáfora repetitiva, que volta, retorna em infinitas formas e ciclos, um rosto a ser pensado, lembrado e admirado. Um oceano que foi atravessado, o ponto em que se inicia os pensamentos, o acordar em reações químicas frágeis e instantâneas, um cálculo diferencial que explica e destrói o entendimento, uma pequena farsa, um ardil para entender o mundo e entrar no inexpressivo. O momento em que seu corpo produz a falta incomensurável, uma fala que não deve ser dita, um segredo que não muda fatos nem feições. Cada esquina, cada canto, cada parede com seu nome, um eco que vêm em meus sonhos, que se forma na noite escura e explode à primeira luz do sol, no primeiro cigarro, no café frio, forte e amargo. A partida e a volta, e as mesmas metáforas, repetindo, repetindo a exaustão, como loucura que não enlouquece, como elogio não entendido, segredo não revelado. Penso como pode algo assim acontecer, como tantos anos diferentes trazem as mesmas coisas, como pode não entender o que nunca pode ser revelado. E compreendo, a falta, o só, o abraço desperdiçado em corpos alheios, em olhos que nunca trazem a admiração que exalava, um mundo que talvez nunca tenha remissão, um pecado eterno, fútil, cruel e exótico. A procura de palavras que não existem, e acabo repetindo o que sempre a noite trás, você, somente você, uma lua distante, um objeto a ser alcançado, uma crença ou uma fé no que não pode ser falseado, e seus olhos, diferentes de todos os outros, uma Capitu real, sem mistérios ou traições, somente os olhos de ressaca, as ondas imensas que tragam tudo que sou e conheço. Como queria que a distância entre dois pontos fosse sempre a mesma distância, voltar ao conjunto de números inteiros e indivisíveis, abstrair todas as frações, trazer ao mundo que sinto e penso existir seu eterno abraço, único, indivisível, o passeio nunca concretizado, um sonho que sei impossível e sem retorno. Mas miro o que virá, o incerto belo e cruel, o próximo corpo, o próximo beijo terno e sem gosto, um caminho que nunca mais se concretizará. E vejo um filme que nada trás de novo, a não ser a distração inata em seus olhos. Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. E roubo pensamentos alheios que me cabem tão bem, que são trazidos com o início da noite e se esgarçam num painel intrigante e aborrecido, um correr de fatos, um cérebro que teima em viver e cansar. Um deus inexistente e pouco sensato que teima em viver e cansar, uma fé inabalável de nada existir, uma regressão falsa, um retorno falso, a história repetindo não mais como farsa, mas como rostos diferentes e não redutíveis a algo comum, insensato como uma obra sem criador, como um entendimento sem linguagem, um olhar e um abraço, um ardil para fugir de toda insanidade mirando a mais distante lua e o mais próximo olhar.
Cap12 O grande amor desfeito em bruma, o pequeno caso que nunca se concretizaria, o real, áspero, duro, cruel e antecipado. Torço para que meus olhos despertem de um sonho, torço para que a saciedade venha de qualquer forma, desejo mais que ninguém, o lugar mágico, o porto cinzento, cheio de contentamento e paz, um pequeno lugar, quatro paredes a escurecerem e amarelecerem, uma janela que me traga um mundo distante, uma superestrutura livre de qualquer condição material, qualquer relação social, só, isolada, cheia de saciedade e vazio. Nada de falsear, nada de brincadeiras que se tornaram cada vez mais complexas, o jogo inocente, dos gols, várias pessoas, até o passeio na praia concretizado e distante, os cursos que se seguiram, o deslumbramento com metodologias, as relações pessoais contaminando todo meu ser, o apartamento que dividia com minha família, o estranho morro, o ponto de ônibus com o céu estrelado, o contraste da manhã azul com nuvens esparsas que nunca vinham, corpos a serem admirados e excluídos, uma felicidade que levava ao patíbulo e crescia até se tornar massacrante e enfadonha, o jogo na praia substituído pelos jogos que a idade adulta sabe tornar tão cruel. Que destino me levou a isto, que meandros e nuances, relações e discórdias, propaganda e status me tornaram tão amargo e sensível, um livro a ser capitulado e novamente sofrido. A infância que se traduzia cada vez mais em um futuro negro. Quantos anjos negros me perseguirão neste universo escuro, quantas botas teria que retirar antes de um sono eterno, quantos anos me perseguirão antes que seus olhos, quaisquer olhos me tragam a salvação. Sinceramente, você sempre me trouxe o sono restaurador e mágico, a perda do sono significou a perda do lugar mágico, tão pretendido, tão vulgarizado como a criação destruidora. Que caminhos tive que passar, que conquistas, não de mares, antes sentidos, conhecimentos e sentimentos, a faculdade que terminei com torpor e negligência, a falta de apetite de livros e a fuga em canais de televisão e de olhos, o acaso de saber que as determinações libertam e escravizam, da doce e insegura vida, com todos os encantos falsos e imaginários, até a razão se impor, nenhum ardil, nenhum servo numa fuga teleológica, o egoísmo de Bentham, a recuperação de Popper, o ensaio açucarado de Friedman se tornado o que de mais concreto se poderia obter. O pequeno parque de diversões, com conversas inseguras e agradáveis, cheias de ternura e interesse, contrapondo o futuro complexo e difícil, a estrela mais distante, um resquício de um passado morto, sem pensamentos e conceitos, sem abstrações e concreto pensado, sem a alma humana a classificar e dirigir os pensamentos, um tempo que nada existia sem a posteridade, sem apartamentos e interesses, sem a morte do dia a dia, sem a dúvida de outros pensamentos. Que belo tempo teria existido, nenhuma melancolia, nenhum conceito, dicotomias, dualidades, ruas, treinamentos e posses, sem o arcabouço material que agora nos escraviza, sem um universo a ser pesquisado e analisado, um tempo que não volta mais, um conceito que só pensamos a posteriori, luas que se desenvolviam e morriam, estrelas que brilhavam sem porquês, a energia espalhando-se como todas as leis cultivadas após, sem reações químicas, sem a chateação de não se acertar um chute ou amores, sem genes a nos comandar e perpetuar, um alívio que não chega a aliviar a alma, um olhar passado que não chega a consolar. E corro ao mundo que nos trouxe e condena, uma história que necessita de deuses para suportar, a espera na calçada por seu corpo, a viagem que nada traz de novo a não ser repetições e corpos não desejados. Não verei a calma do espírito até o final da existência, a sobriedade, suas palavras, agora indiferentes, logo do ser que mais amei nesse universo escuro.
Cap13 Há em minha alma um porto infinito cinza Uma paisagem de cor ferro e chumbo Nele, não parte navio algum e não há ninguém Só as margens de uma areia escura e um entardecer eterno Passeio por ele e me vejo perdido pois não existe um fim E sento no ancoradouro a espera de algum navio e me sinto seco, árido, como o porto que existe em mim Sei que nenhum navio virá, nenhuma nuvem abriria o caminho para o céu Mas sento e espero Como se espera todos os dias o dia seguinte como se dorme todas as noites para acordar como o passo se torna o passo seguinte
Olho em volta e vejo a beleza melancólica e mecânica de meu porto Nuvens cinzentas que se movem lentamente em um caos que desejo, mas não ordeno A areia grossa que tomo em minhas mãos e brinco distraído enquanto espero As águas escuras e frias que desejo, mas não encosto A madeira gasta e firme como carvalho Tudo isso é belo E verdadeiro E minha alma descansa seca e amortalhada Sem vontade e sem salvação.
Cap 14
Com um olhar no passado há caminhos, há determinações, há pensamentos que me surpreendem e paralisam. Há dor, há satisfação, há tédio. Uma expectativa de que andar é não desabar no próximo passo. Um instinto que escraviza a razão, um instinto que se torna um ente universal chamado Vontade.Tento escapar, mas o labirinto cresce até desaparecer da percepção. Como uma vaga noção, como um olhar que se dirige quando afastamos todas as atividades e o tédio retorno com suas asas negras. Não haverá um sol, um campo infinito para andar e descobrir, um rosto que satisfaça todos os desejos, traga a saciedade aos poucos, uma paz serena de descobrir um pouco a cada dia, do prazer de ler, ouvir músicas, assistir alguns filmes, conversar, abstrair quase que um mundo? Como renunciar a todas as vontades? Não, a natureza não colocou o homem sob o império da dor e do prazer, não cabe minimizar um e maximizar outro. Colocou-nos sob o império da dor, da ausência fulgaz da dor e do tédio. A renúncia quietista de todos os prazeres é uma utopia, tão absurda como as robsonadas que Marx citava, contemplar a música é um exercício que me parece tão distante como as estrelas. E restam seus olhos, belos, serenos, insanamente serenos, insanamente belos. Suas feições tão meigas que assustam. Penso em você como algo a ser contemplado num momento ínfimo e eterno. Jamais sairá de meus pensamentos. Se pudéssemos exteriorizar o tempo, o universo se tornaria um rio congelado, com o passado, o presente e o futuro convivendo simultaneamente, e o destino seria tão determinado e sem mistérios. Mas há tantas coisas impossíveis, jamais saberei o mínimo, o mais ínfimo, a menor parcela de você por toda a eternidade. Partirei, como todos os olhos do mundo e como todos os olhos do mundo retornarei a tudo o que somos, somente poeira de estrelas. |