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Cofre – "o útero translúcido" * Danilo Bueno O primeiro livro de poemas de Deise Assumpção (Cofre, Editora Alpharrabio, 2003) denota um eu-poético despido de sentimentalismos e de soluções formais baseadas em retórica eloqüente. Muito longe disso, a autora imprime uma maturação pessoal (como o próprio título sugere: algo que há muito estava guardado ou de muito valor) que trafega em leituras modernistas (principalmente o gauche drummondiano), leituras das escrituras confrontada com leituras de filosofia, além de vislumbrar o rigor essencial da poesia concretista, sem levantar nenhuma bandeira ou defender a tapas esta ou aquela estética. Sem metrificações fixas, usando cortes de respiração e de interrupção de sentido, a autora usa basicamente versos livres, combinando fôlegos longos e curtos em estrofes irregulares, conferindo ao volume elegância formal proveniente de uma imensa gama de tradições repensadas para a feitura do conjunto. O apanhado de poemas é uma mistura de paganismo e catolicismo; de formação educacional (Deise atuou muitos anos no magistério) e (des)informação sucateada pelas mídias; da necessidade de aproximar-se do leitor com frases coloquiais desvinculadas da cena cotidiana, inserindo-as dentro da organicidade férrea do poema, dimensionando seus sentidos. Os temas são recorrentes: a família, deus, a condição da feminilidade, o trabalho do lar após a rotina do trabalho oficial, sempre tratados com uma voltagem sonora muito alta, aproximando o poema (como acreditava Pound) da música e das artes plásticas, desvinculando a fixação de escrever-se literatura, somente. As inversões de perspectiva são um dos grandes motores desta poética: "Dependurei um filho / em cada cabide / de uma cruz cheia de pregos / de madeira". Outro exemplo: "A rosa desamarelou-se / O feto fez-se câncer / E meu Deus morreu", sugerindo um outro olhar para a formação familiar e para a crença religiosa, criticando abertamente modelos de comportamento e posicionamentos domésticos pré-estabelecidos. A sonoridade do conjunto é bem costurada, até mesmo quando utiliza rimas pobres que aparecem ironicamente para mostrar coloquialismos ou denunciar as poéticas que vinculam obrigatoriamente rima com poema. A imagética, na maioria das vezes, é violenta e ríspida, delatando a violência dos grandes centros e das exclusões sociais ("ventre trinchado a revólver"). Dessa imagética e dessa sonoridade, filtradas pelo olhar inquisidor da poeta, é que nasce a inteligência da obra. Como todo bom livro de estréia, as imperfeições inerentes são relegadas diante da organização coerente do volume. A despeito de ser um cofre, os cifrões poéticos estão disponíveis para o leitor que quiser comprá-los com uma leitura atenta; conquistando as reservas poéticas durante muitos anos trabalhadas pela autora, agora vertidas sobre a forma definitiva de poema. * Danilo Bueno é poeta, autor de Fotografias (Editora Alpharrabio, 2001). Cofre, Deise Assumpção. Editora Alpharrabio, Santo André, 96 p. Tel. (11) 4438-4358. |
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