| Belezas da Vida Imediata |
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Diego Vinhas* Uma conversa sobre poesia brasileira contemporânea (com os riscos próprios que este rótulo, como todo rótulo, encerra em si mesmo), parece ser um passeio em terreno especialmente rugoso, já que, noves fora, as farpas que se avolumam mostram-se cada vez menos fundadas em questões meramente estéticas. E, se pensar o hoje sempre foi difícil, pela falta de um prudente-porém-impossível distanciamento, bem como vespeiros igualmente não são novidade em nossas gentes de livros, o fato é que, de uns anos pra cá, um elemento a mais tem começado a forçar um olhar mais cuidadoso, de pausa, sobre esta produção poética (que, para nosso orgulho ou preocupação, faz-se prolífica): trata-se das antologias e das obras reunidas, assinados por nomes que estrearam nas duas últimas décadas. Agora, que a posteridade começou a abocanhar as referências a que estávamos mais acostumados, agora que perdemos Sebastião, Haroldo, Waly, e continuaremos a perder (que, parafraseando Wallace Stevens, sim, a vida é isso mesmo: as coisas como são), e, se ainda temos, ótimo, um Gullar, um Augusto, o que está aí, agora - e é difícil evitar um estranhamento - é que quando jovens poetas passam a se voltar desta forma para seus próprios trabalhos, temos então um sintoma de que estas novas referências, ali do lado, já esboçam um gesto de permanência, de fincar uma obra - mesmo que em chão tão escorregadio, dando a cara a tapa a seus pares. E isto, claro, pode ser perigoso, mas também é coragem. E é, sobretudo, um mote para uma nova conversa, que teria mesmo que começar, e de que as próximas gerações poderão dizer melhor. (Em tempo: não que tais publicações bastem, por si, para evitar que os poemas se percam. E não que a provisoriedade não possa também ser um mérito.) Pois é, Heitor Ferraz é um deles, tendo recentemente soltado seu “Coisas Imediatas [1996-2004]”, que reúne toda sua produção em livro, inclusive o mais recente, “Pré-Desperto”, lançado inicialmente em edição caseira, para poucos olhares. Aliás, Heitor parece mesmo ser destes do pouco - no melhor dos sentidos -: de um falar baixo, à meia-luz, e que justo daí extrai seu tanto de beleza e força. Suas “paisagens”, no mais das vezes, por assim dizer, mundanas, prestam-se a aliviar desta figura surrada - o poeta - qualquer rumor metafísico (talvez boa analogia esteja em suas próprias palavras, ao descrever uma escada anacronicamente em pé em meio às ruínas da ex-casa: “conta somente/ a escada/ como deve ser/ - atada ao chão/ desatada ao céu”), e, ora com humour, ora com gauchismo, acusa a condição de um voyeur que assiste desarmado à vida que escorre, sim, mas que deixa detalhes - e é isso o que parece lhe interessar. Algumas referências de bagagem são facilmente detectáveis e por vezes mesmo confessas - Bandeira (“Três Irmãs Bandeirianas”), Francisco Alvim (a cuja dicção presta explícito tributo em peças epigramáticas como “Minha Rua” e “Conversa de Mãe e Filho”, e chega a pegar emprestado um verso em “Prolapso”), e, principalmente, Drummond. Contudo, o punho certo de Heitor cuida de evitar a armadilha óbvia da diluição, e, se ele, conscientemente, não procura um caminho estilístico de radicalidade, de “invenção de linguagem” pelo choque, por outro lado, consegue dizer coisas muito bonitas. Simples assim. O que não é pouco, nunca foi: sensibilidade - transpire-se à vontade - não está ao alcance de quem quiser. (E isto cava, aliás, uma questão interessante: em tempos em que não raro se atribui o valor de um poeta ao que ele busca de “transgressão” - termo pra lá de desgastado, diga-se -, o traço de Heitor acaba por deixá-lo, de certa forma, na contramão - e, aí, dá-se o que pensar - se é que isso ainda mereça queima de neurônios - sobre quem de fato é “transgressor”, ou o que seja tal posição - que, penso, desimporta para determinar poesia.) Ítalo Calvino, ao eleger a leveza e a exatidão como algumas das principais características que a literatura deste recém-milênio deveria guardar, defende um potencial de “precisão e determinação”, e, acudindo-se das palavras de Valèry, propõe que “é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”. Este paralelo poderia caber também à poética de Heitor, avessa a rebuscamentos mas ciente de seu peso - e que, sem alarde mas com contundência e, claro, rigor, consegue dizer, inclusive para os não-iniciados. Do seu primeiro volume, “Resumo do Dia”, de 1996, salta um certo bucolismo às avessas, em que a ternura ou tristeza de olhar deita-se sobre a(s) cidade(s) (como em “Um Prédio”, onde ‘tudo em volta/ entramado na pedra/ é silêncio e memória/ fugindo pela mão’, ou “Fim de Tarde”, na qual ‘transitam mais carros/ e empregadas com saquinhos de pão’ e ‘na tristeza do elevador/ subo sem ser reparado’). E é também neste espaço urbano, que não é um, que sua poesia permanece instalada, e os livros que se seguiram acabaram por revelá-la cuidadosamente plural. Assim, Heitor mostra ser amplo seu repertório, ao lançar mão de ferramentas tais como momentos mais evidentes de construtivismo (“Goethe nos Olhos do Lagarto”), bem como uma escrita de cortes, elíptica (“Perspectiva da Volta”, “O Lago Secreto”), ou mesmo o poema em prosa (“Pré-Desperto”, “Velórios”) - sendo que este último recurso, de modo seguro, conseguiu conservar uma respiração muito própria dentro de sua obra, que em si já foi sempre fortemente demarcada por elementos prosaicos. Sutil, mas também marcante, é a presença da ironia, pingada aqui e ali (“Smoke Poem”, “Sem Profissão”), com a delicadeza que é de seu feitio. Logo, o “homem especial” que “come calado/ destroça uma torta de morangos”, é anônimo, não traz nada que o distinga, mas torna-se único no momento em que o autor demora nele seu olhar, percebendo um seu gesto, e mais, percebendo-o especial e nenhum, como qualquer outro rosto lá fora, dentro da “esgrima de guarda-chuvas e jornais”. Mas Heitor atinge, talvez, seu máximo de pujança justamente nas peças em que escorrem seqüências circunstanciais, o que nos força a uma interrupção para contemplar, na disritmia diária, uma beleza difícil e despida, que é a da própria vida. E, se cá já nos interrompemos, vale ficar com alguns trailers: “O Pescoço da Miss Japão”: De manhã/ o sol entrou por aquela porta ali/ atravessou todo o corredor/ levantou uma constelação de poeira/ e foi iluminar a fotografia que estava escondida/ no fundo/ da última parede - “Viaduto”: Agora sei/ que não deveria ter/ olhado como/ quem espia/ aquelas janelas/ sucessivas/ que se vêem/ do alto do viaduto/ aquela mulher/ que arqueada/ costurava em silêncio/ (um silêncio que/ não pedia meus olhos/ invasivos)/ aquele/ cara sem camisa/ numa pensão barata/ limpando a caneca/ de lata na esquadria/ da janela e que/ num relance/ olhou a rua / logo abaixo - “Álbum de Família”: Então/ ele se sentou/ num banquinho/ ajeitou/ o chapéu de feltro/ colocou o filho/ mais velho/ ao seu lado/ em pé/ e se deixou fotografar/ Então/ ela se sentou/ no murinho/ da casa/ esticou o vestido/ cobrindo os joelhos/ sorriu/ para a lente/ e também/ se deixou fotografar. Do todo, emerge que a obra de Heitor Ferraz, agora reunida, fala sem gritar; sabe calar, raso e também fundo, e, em que pese seu apreço a imagens de volatilidade, já há algum tempo afirma-se, com decisão, como uma das mais consistentes e talentosas a figurar neste cenário poético por sua vez ainda não tão definido. E, logo quando, num poema sem título, o autor deseja apontar a própria fraqueza, é que, paradoxo, ele resvala no que pode ser a chave para a compreensão de toda a solidez de sua mão. “Sou fraco, sempre soube disso/ E rumino, pois também sou bicho, as gramas desordenadas/ desse jardim". Só que todos ruminamos. E também somos fracos, porque somos da vida. E, olhando de perto, ela é mesmo esse jardim caótico, que guarda beleza, mas se sustenta ali, num cordão esticado, fraquinho, fraquinho. * Diego Vinhas é autor de Primeiro as coisas morrem (7 Letras, 2004). __________________________________ Coisas Imediatas, de Heitor Ferraz Mello. Editora 7 Letras, 2004, Rio de Janeiro, 172 p. Formato 12 x 19 cm. Tel. (21) 2540 0130 |
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