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Adriano Menezes PDF Imprimir E-mail

ESTAÇÃO


guardadas na moldura
as pedras aguardam
o tremor, dormentes, as
que sobram pirambeiram

algo negro respinga
entre o ferro e o seu
primitivo natural

por baixo a terra é triste
e de um medo acostumado

a cicatriz sempre renovada
abraça distâncias
tolerando a prótese
para a força prevista, arrasadora

parece, o próprio tempo é seu suporte

salvo a plataforma
ainda em espera
o sino sendo ainda
só silêncio e forma
entre pessoas
tudo é ferro e perda
pedra e pouco

mesmo à iminência
de minha máquina

 

TARDE


a esmerilhadeira
fura aguda o tempo
rouba a tarde do silêncio
preenchendo de faíscas
pensamentos ausentes,
metais complexos
distraem o transeunte
mental.

o fogo a espirrar-se
faz o incômodo
mais que sonoro,
o espaço indefensável
no jogo dos sentidos:
exposição, desguarnecimento
certeza doente
de um cúmplice à espreita.

passo batido
firme como os homens
que não duvidam.

ando muito
para ainda estar
nos domínios
da máquina
que não pára
de existir.

 

VICINAL


o quanto corro
é a existência do carro
enquanto aquilo
que é tempo desmancha-se
refazendo-se em mim,
aninal conversível
dentro do vento


VISÃO DO PÁTIO


como andar só
pela casa
a procura de eco ?

os objetos infestam
o corredor de nomes
e detém a goela
num precipício

prova que a conversa
engavetada no espírito
já pertence ao tempo, é imóvel
não veste verbo, nenhum gesto.
é labirinto entre as coisas
acumuladas no passo
no silêncio e até na voz
a violar o limite

 

CRÔNICA DE SUBURBIO


voa o avião de banda
fixa um risco
no ar furado
lá em cima.
cá embaixo, na rua Mandarim
o menino bate
a cana no tornozelo
espantando os mosquitos
das perebas
palpebrando com o sol
enquanto com zelo mede
a cicatriz do céu.


ORAÇÃO À NOSSA SENHORA LITORÃNEA DO AMOR AUSÊNTE


és o meu pátio
impróprio e desalambrado
hiática fatia visível impressa
precisa na retina
de chão dos meus terrenos
táctil móvel imobilizante
és as cercas caídas
no soluço abraço de presa
és o meu signo ático mor
de vida após os montes
entre o mar de nossas mortes
átimas várias repetidas
bendito o corpo
do teu ventre

:: Adriano Menezes, de São Vicente de Minas, radicado em Ouro Preto/MG. É autor dos livros Dois corpos, com Mário Alex Rosa (Etfop -1999), Os dias (Scriptum - 2004) e Via expressa (Scriptum e Anome - 2007). Figurou nas antologias A poesia belorizontina contemporânea (Revista Dimensão – 2000), O achamento de Portugal (Anome – 2005), Pelada poética (Scriptum – 2006), Terças poéticas (Secretaria de Estado de Cultura de MG), Dezfaces (2006/2007), entre outros jornais e revistas literárias ( Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email ).
 
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