| Rodrigo Fresán e a complexidade da literatura infantil |
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| 11-Jul-2007 | |
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O argentino Rodrigo Fresán é uma figura particular. Por não ter completado o curso primário, não se habilitou a nenhuma profissão que exija diploma, embora tenha aprendido a ler e escrever. Assim, quando comunicou ao pai, um publicitário, que se dedicaria à carreira de escritor, única que visualizou como possível diante de suas habilidades, recebeu um suspiro como resposta. Hoje, aos 44 anos, Fresán é apontado como um dos mais inovadores romancistas contemporâneos do idioma espanhol. "E meu pai acreditava que escritores morriam de fome", diverte-se ele, que participa domingo da mesa De Macondo a McCondo, ao lado do mexicano Ignacio Padilha, no último dia da Flip.
Por Ubiratan Brasil Fresán é autor de Jardins de Kensington (Conrad), romance que já foi traduzido para 14 países. Trata-se da história de um conturbado autor infantil cuja vida se mistura com a de J. M. Barrie, criador de Peter Pan. Curiosamente, o escritor argentino defende a tese de que os livros infantis não são adequados às crianças. "Os clássicos, principalmente, trazem fatos sombrios, angustiantes, que não julgo apropriados", afirma. "Não sei se deixaria meu filho ler Peter Pan." Ele, na verdade, defende a quebra da divisão entre literatura para crianças e para adultos. "Se for adequadamente educado, um garoto de cinco anos já tem capacidade para ler qualquer coisa. Assim, é possível ler romances destinados a adultos, desde, é claro, que se cuide da seleção de temas." Fresán acredita na grande habilidade de interpretação que um ser humano já dispõe nessa idade. É o que pode explicar, por exemplo, o enorme sucesso da saga Harry Potter, que colocou em um patamar superior a literatura dedicada aos jovens. "O fato, porém, de se classificar esse tipo de escrita fez com que a editora inglesa lançasse os livros com duas capas: uma especialmente para as crianças e outra para os adultos que, embora adorassem a história, tinham vergonha de serem flagrados Lendo Harry Potter no metrô", ironiza. A infância e a morte são temas recorrentes em sua literatura. Vivendo na Espanha desde o final da década de 1990, Fresán conta que não sentiu os efeitos da crise econômica argentina. "Para não dizer que passei totalmente ao largo do problema, apenas meu salário como colunista do jornal Página 12 foi reduzido a um quarto, durante um tempo."
Mais argentinos "A solução pela fuga pode ser explicada por sermos um povo com uma história ainda muito recente: estamos apenas há duas ou três gerações dos primeiros imigrantes que chegaram à Argentina. E tampouco há vestígios muito fortes dos indígenas em nossa formação. Assim, como bem definiu Borges, os argentinos são europeus no exílio", comenta Fresán que, atualmente, se dedica a traduzir a ficção de John Cheever e as letras de Bob Dylan para o espanhol. O trabalho jornalístico, aliás, é bem diferenciado do literário por um fato peculiar: Fresán dispõe de um computador em que escreve suas colunas para o Página 12 e outro exclusivo para suas ficções. Ou seja, apesar do rebuscado gosto literário - entre os brasileiros, admira muito Machado de Assis ("De onde surgiu esse escritor tão fascinante?"), Rubem Fonseca, Milton Hatoum e Clarice Lispector -, trata-se, de fato, de um homem singular.
Fonte: Estadao.com.br |
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