| O escritor e o personagem |
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| 09-Ago-2007 | |
José Alcides Pinto relança “Tempo dos Mortos”, trilogia semi-autobiográfica pontuada pelo erotismo e a tensão entre sagrado e profano.Vida e obra são duas dimensões que se confundem em José Alcides Pinto. O poeta maldito, autor radical que vai da vanguarda ao mergulho na tradição, confirma a falta de limites claros entre uma e outra. “Toda minha obra é autobiográfica”. Assim, também o são os livros que compõem a clássica trilogia “Tempo dos Mortos”, que será relançada hoje, em volume único, às 19h30, no Centro Cultural Oboé. “O livro fala do tempo em que estive internado no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro”, conta o poeta. “Tempo dos Mortos” é formada pelo romances “Estação da morte”, publicado pela primeira vez em 1968; e “O enigma” e “O sonho”, ambos de 1974. São escritos pouco extensos que mantém uma heterogeneidade de temática e de universo ficcional, mas que conseguem ter uma certa independência entre si. A proposta de escrever três livros é seguida a risca e cada um é um todo, com estética diferente. “Estação da Morte” é dividido em pequenos capítulos, que guardam uma coerência interna tal qual se tratassem de contos. Escrevendo as partes do romance, Alcides Pinto emprega técnicas que os contistas só mais recentemente vieram adotar - vide a extensão cada vez menor e a concentração textual do gênero e o gosto pelo fragmento. “O Enigma” e “O Sonho”, aparentemente, guardam mais semelhanças entre si, por não se utilizarem da divisão por capítulos. Entretanto, enquanto o primeiro é mais descritivo-narrativo o seguinte caminha na direção da poesia em prosa, sendo rico em imagens oníricas. “Tempo dos Mortos” é o segundo livro do poeta a ser publicado pela editora carioca Topbooks. Antes, foi lançado com distribuição nacional uma nova edição de “Trilogia da Maldição”, da qual faz parte o clássico “Os Verdes Abutres da Colina”, saga genealógica ambientada no Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú e berço do poeta. Episódios biográficos “Tudo aquilo que você lê neste livro é verdade. Eu apenas teatralizo um pouco. Mas não é assim a própria vida?”, ilumina José Alcides Pinto. Transformando sua vida em literatura (se é que é possível diferenciá-las), o escritor deixa pista de quem é de como o chegou a ser. Quem teve a oportunidade que conhecê-lo não consegue separar sua imagem daquela de seus alter-egos romanceados. A “Trilogia da Maldição” releva suas raízes e escancara a tensão sempre presente entre o sacro e o demoníaco. “Tempo dos Mortos” seu temor pelo inevitável destino (“Minha escrita é um meio de fugir dela, mesmo que isso não seja possível”, explica). “A Divina Relação do Corpo” mostro o mundo do sexo e por ai seguem as obras, revelando suas numerosas faces. Uma mágoa, porém, reside nesta dinâmica entre vida e obra: “o fato de meus conterrâneos terem ignorado minha autobiografia, ‘Manifesto Traído’”. A obra em questão, fora de catálogo, ainda guarda as chaves para compreender este homem que insiste em se tornar literatura. Estação do Inferno José Alcides Pinto tem a qualidade rara de ser um escritor que consegue imprimir sua marca em cada linha redigida. Na página de abertura da primeira parte de “Estação da Morte”, o leitor se depara com uma cena que traz, em si, os elementos chaves para compreender toda a obra. Na cena, o moribundo protagonista da história, prostrado em uma cama de hospital em semiconsciência. Pelo estado em que se encontra, é obrigado a ver sua esposa traindo-o com um dos médicos responsáveis pelo tratamento. Nas duas páginas que dura a cena, Alcides Pinto revela a crueza de seu universo. Ali, o erótico se faz quase onipresente, emerge numa realidade cuja única moral é a de seus personagens. Nada é certo ou errado fora do julgamento de quem serve por testemunha. O escritor opera um jogo de ilusão, como numa casa de espelhos. Um só evento significa algo e seu oposto. A mulher que trai diante do marido impotente é signo da maldição, do profano que rompe a sagrada relação do matrimônio. Ao mesmo tempo, é a musa torta a quem os insultos mudos do moribundo atingem, carregados do sentimento de humilhação de uma visão cristã - e sobretudo católica - do mundo. Cenas ricas como etsa se sucedem por toda a trilogia do gênio cearense. TRILOGIA
"Tempo dos Mortos"
Serviço:
POR DELLANO RIOS
Fonte: Diário do Nordeste
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