Entrevista
Museu de Arte Moderna de São Paulo abre a primeira individual sobre Duchamp na América Latina | Museu de Arte Moderna de São Paulo abre a primeira individual sobre Duchamp na América Latina |
|
|
|
| 14-Jul-2008 | |
|
Exposição "Marcel
Duchamp: uma obra que não é uma obra ‘de arte'" reúne os mais
importantes trabalhos do artista.
![]() Marcel Duchamp (1887-1968) A mostra de Marcel Duchamp celebra o aniversário de 60 anos do MAM-SP com propriedade: teria sido dele a curadoria da primeira exposição do museu se tivesse sido posto em prática o projeto enviado de próprio punho a Ciccillo Matarazzo, por carta, em 1948. Tal documento será exibido na exposição "Duchamp-me". Quarenta anos depois da morte de Duchamp, em 2 de outubro de 1968, a mostra propõe uma reflexão sobre a revolução artística promovida por um dos mais controvertidos artistas de seu tempo, precursor de diversos movimentos e procedimentos que viriam a ser assimilados ao longo de todo o século 20 pelas artes visuais. Contestador, Marcel Duchamp usou sua obra para negar a idéia de que a industrialização e a tecnologia seriam responsáveis por uma transformação que levaria a humanidade à evolução e ao desenvolvimento, uma visão quase profética. Entre as cerca de 120 peças em exibição, figuram marcos cruciais de sua carreira, incluindo "O grande vidro", nome pelo qual é conhecida "La mariée mise a nu par ses célibataires, même", obra inédita no Brasil. O núcleo comemorativo do centenário do artista na 19ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1987, foi a maior exibição de obras do artista realizada anteriormente. Muito mais modesta (75 peças no total) que a atual exposição, essa mostra não incluía "O grande vidro". Essa assemblage, que levou oito anos para ser totalmente construída (de 1915 a 23), ainda hoje suscita estudos por parte dos pesquisadores da obra de Duchamp, em busca de significados ocultos, uma prática comum do artista, que nomeava seus trabalhos com jogos de palavras e os preenchia com referências de humor refinado, menções arquetípicas e psicanalíticas.
Multiplicidade criativa exposta no MAM Toda sua criação seguiu em busca da resposta à sua pergunta (e que inspirou o título da exposição): "Pode alguém fazer uma obra que não seja uma obra ‘de arte'?". Por ela compreende-se sua recusa ao conceito de arte de então, cujos critérios a serem seguidos eram predominantemente cor e forma, em detrimento de tema, intenção ou idéia por parte do artista, desconsiderando o pensamento inserido na obra. Flertando com o cubismo e o futurismo para renegá-los, antecipando os dadaístas e inspirando os surrealistas, com os quais nunca se associou totalmente, legando princípios que resultariam na arte conceitual, na arte pop, no minimalismo, na arte cinética, no Fluxus, nas instalações, Duchamp foi um artista de trajetória ímpar, isolada de regras e cânones dos movimentos estéticos de seu tempo em sua empreitada para resgatar a inteligência, a vivacidade e o humor na arte e na vida, seguindo acima de tudo a vontade e o prazer da realização artística contra a mecanização do cotidiano e dos costumes. A mostra que o MAM recebe em primeira mão parte do primeiro passo revolucionário da obra de Duchamp, a criação do primeiro ready-made em 1913, para mostrar de que forma o trabalho de sua vida questionou o papel das instituições, principalmente a artística (museus, galerias etc.), a forma como as pessoas vêem o mundo e a própria arte, além de colocar em xeque a importância da obra de arte por meio de réplicas e reproduções.
Réplicas originais Levando-se em conta que todos os ready-mades originais se perderam quando Duchamp ainda era vivo e que, nos anos 50 e 60, ele mesmo assinou novas séries de "Fountain" (Fonte), "Portagarrafas", "Pente" e "Roda de bicicleta" (às quais pertencem as peças exibidas na exposição), entre outros, é preciso compreender que a cópia como original e a reprodutibilidade foram um dos cernes da produção do artista e são um ponto crucial para a mostra. Quando Duchamp se vale de um objeto industrializado, de uma fotografia, de uma cópia como a própria obra em si, o que faz constantemente a partir do momento em que rompe com a pintura, coloca no centro do debate a sacralização da obra "de arte" e sua aceitação pelo público como algo inquestionável e sublime. Da mesma forma, quando realiza suas "curadorias" (termo que então nem sequer existia) para exposições surrealistas, leva a cabo montagens que subvertem a noção de espaço expositivo, rompendo as premissas de luz, distância e ambiente tidas como ideais para a observação da obra de arte. O que o franco-americano faz a todo tempo é reestabelecer no espectador a autonomia do olhar, da fruição e do raciocínio diante da obra. Um objeto industrializado ou uma cópia só podem ser considerados obras por força também da vontade do espectador de acreditar, de completar em sua mente o ato criativo, imaginando com o artista o conceito ali sugerido (no caso de Duchamp, uma coletânea de citações, trocadilhos e elaborações psicanalíticas e eróticas de fino humor). Da mesma forma, a estranheza das exposições por ele montadas, com luz fraca, crianças brincando no meio do espaço expositivo durante o vernissage, pó de carvão caindo de sacos instalados no teto e posicionamento inusual de obras, como quadros pendurados em uma porta giratória, para citar alguns recursos utilizados por ele nas duas exposições surrealistas que concebeu nos anos 1930-40, pedem do espectador uma atenção desperta, um posicionamento ativo do corpo, uma não submissão à arte que Duchamp classificaria "retiniana". Esse conceito se refere às obras de mero deleite visual, que não provocam no espectador reflexão diante do que se observa. Da mesma forma, a instituição artística é posta à prova: há uma negação do conforto asséptico que condiciona a observação da obra, imposto pelos museus e galerias. Duchamp se opõe ao mundo estático em que cada pessoa ocupa o lugar pré-estabelecido pela nova ordem industrial devolvendo ao indivíduo a capacidade de imaginar, de questionar, retirando das instituições, exemplificadas pela instituição artística, o caráter narcotizante da oferta de diversões que embotam a mente e a capacidade de reflexão, visando apenas alcançar os sentidos. Ele sugere que as instituições não são confiáveis, que cada um deve pensar por si e não seguir ditames pré-concebidos.
![]() Boîte-en-valise
A busca por novas formas de exibir os trabalhos e pela participação ativa do espectador na fruição da obra o levaram a criar "De ou par Marcel Duchamp ou Rrose Sélavy", ou "Boîte-en-valise" (Caixavalise), um de seus trabalhos que sintetizam suas premissas. Consiste em uma caixa criada em uma tiragem de 300 exemplares, mais 20 edições de luxo feitas em valises de couro (com uma obra "original" assinada em cada), que traz 69 trabalhos de sua produção, incluindo pinturas, readymades,
A curadora
SERVIÇO Fonte: Assessoria de Imprensa MAM Saiba mais: Leia resenha do livro Maria con Marcel: Duchamp en los trópicos, publicada no K Jornal de Crítica 5 , edição especial sobre a obra de Maria Martins.
|
| < Anterior | Seguinte > |
|---|
| A Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado, inaugurará uma livraria especializada em poesia na terça-feira, dia 02 de dezembro. Será a única de São Paulo dedicada prioritariamente ao tema. | |
| Ler mais... |
Lanny Gordin, Neuza Pinheiro, Madan e Quarteto Kroma se
apresentam durante a 4ª Rave Cultural organizada pela Casa das Rosas. São nada menos do que 12 horas de
programação gratuita, que começa no dia 6 de dezembro, às 17 horas, e segue pela madrugada do dia 7 até as cinco horas da manhã.
|
|
| Ler mais... |
|
|