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Peço vênia, Vina PDF Imprimir E-mail
Escrito por Mario Rui Feliciani   
17-Out-2007

rui.jpg"Medo de Amar" (*) é daquelas canções que massageiam a dor. Alívio pro dia-a-dia. Gelol pra alma. O piano do Tom - exato como o dedilhar do João - e sua voz cheia de ar - tão caseira! - espalham no carro um líquido tépido que, em vez das rodas, levam a gente pra casa no final do expediente. Longo caminho.

Da vida real a gente nunca sabe, mas nos dizem as letras que o Vininha gostava do ato de amar, talvez até mais do que das mulheres. Nesta, ele repreende quem o teme.

Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz

E que ter medo de amar, não faz ninguém feliz

[...]

E compreender que o ciúme é o perfume do amor.

Vina não fala do perfume-do-vidro, excessiva camuflagem do verdadeiro perfume da canela, da fruta, da pele. Pois se ele nos conta que é mal de raiz! Não trata, portanto, do perfume que se põe, mas daquele da essência da coisa perfumada. A possível confusão é culpa da língua equívoca que dá palavra idêntica ao efeito e ao fluido que, por vezes, é sua causa.

E é aí que, me parece, está o engano do letrista. O ciúme não é o perfume-essência do amor. O ciúme não emana do amor, ele lhe é acrescido. Não vem do amor, ele o tempera.

Quando a canto, troco no verso o perfume pela pimenta. Vinícius sabia de notas e ritmos, suas canções embalam. Não é sonora minha troca, não sou do ramo, mas fica mais verdadeira a comparação.

"E compreender que o ciúme é a pimenta do amor"

Os pratos mais perfeitos, sobretudo os perfeitos demais, clamam pelas pimentas. Elas que são muitas na forma, no sabor, no seu próprio perfume-essência e no seu poder.

O vaidoso precisa do ciúme-malagueta para fazer jus ao encanto que lhe causa a própria imagem no espelho.

O que ama demais, inseguro que é, tem que receber o ciúme-dedo-de-moça, que, por delicado, pouco arde no fio-terra. Tem que ver, no rosto do idolatrado, a marca da pequena dúvida, nos olhos um pouquinho ansiosos e no bico de muxoxo.

A boa culinária sabe que arte está no quanto: pimenta exige exatidão. Enriquece, se bem aplicada, e afugenta, se extrapolada. E assim também na arte do amor, pois ciúme salpica-se com zelo e critério: cada prato, combinado com cada paladar, com sua medida.

Ainda que na letra não houvesse a chave do "mal de raiz" e o ciúme fosse o perfume-fluido em vez do perfume-essência, a comparação não seria boa, já que o excesso do primeiro não enlouquece, enjoa. E o fim do amor por conta do ciúme errado não é "chover o ano inteiro chuva fina", mas é como "cair o elevador" (**).

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(*) "Medo de amar", canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

(**) Da canção Almanaque de Chico Buarque: "Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor/ Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor/ Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair o elevador".

 
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