Skip to content

Narrow screen resolution Wide screen resolution Auto adjust screen size Increase font size Decrease font size Default font size default color brick color green color
Início seta Colunistas seta Mario Rui Feliciani seta Noel: não 26, mas 60
Noel: não 26, mas 60 PDF Imprimir E-mail

I - O pulo do gato

Certa poesia mudou, mas letra de música ainda exige aquela paciência de artesão chinês para encaixar as sílabas nas notas musicais e as tônicas nas posições certas. Só memória de elefante para se lembrar das palavras que caibam em cárcere tão justo sem ofender o conteúdo: "e acima da razão a rima / e acima da rima / a nota da canção" (*).

Moço ainda, já que sempre foi moço (será?), Noel deve ter se aborrecido com tanta restrição. Fazia uma letra de amante abandonado e despeitado, queria fulminar com pragas terríveis e as notinhas teimavam em atravancar o legítimo fluxo da ira! ‘Ara, tenha paciência!’

Labutou um bocado até que sorriu com o próprio engenho. Sarcasmo de craque, já que sempre foi craque-veterano (mesmo!). Só chutava de rosca. ‘Fosse gago não teria tanta dificuldade’ e nasceu o “Gago apaixonado” (**).

Golaço!

"mu-mu-mulher em mim fi-fizeste um estrago"

Com os dois primeiros “mu-” evitou um “cara” que não ficava mesmo bom. Com o “fi-” adicional fugiu do “tu” que também não combinava.

“Cara mulher em mim tu fizeste um estrago” (bem pior, não?)


Como dificuldade de gago não tem regra – nunca se sabe o número de sílabas acrescentadas – a liberdade foi completa e nasceu a canção genial. E, como a liberdade não morre cedo, não morreu no ato da composição e se soltaram também os intérpretes: cada cantor dobra ou triplica a sílaba que mais lhe convém, desde que elas sejam contadas e as tônicas postas nos seus devidos lugares.
Mas gato só é exímio nos pulos porque tem bigodes longos, cultivados. Daí a teoria dos bigodes.

II - Os bigodes do gato (***)

Ele nasceria na Vila. E lá na Vila, todos sabem, os meninos já vêm gaiatos.

Diz a lenda de um samba inacabado, gênero que não tem compromisso algum com este tipo de verdade, que foi numa noite de outono, muito estrelada e enluarada. A cabrocha tinha as pernas abertas, não para o ato de amor, mas para o seu fato, quando viu, na mão do médico aflito, o grande instrumento brilhante.

Coisa estúpida nessas carnes de calor e sombras meter instrumento brilhante e frio. Mas havia que se catar a cabeça do gaiatinho que teimava em não passar. Fórceps!

Não era um bom dia para o doutor. Julgou em posição exata o aparelho e o pressionou para afirmar os ferros. E, nos poucos segundos seguintes, toda uma vida se definiu.

O gaiatinho sentiu a primeira pressão um pouco à esquerda e o deslocamento do maxilar frágil. Pensou, no seu dialeto primeiro: “Esse não vai crescer bem, a boca da primeira moça vai ter de ser remunerada e nela hei de treinar molejos para compensar as más impressões das próximas”. Viveu, nesse primeiro instante, onze anos bem vividos.

Parasse ali a desventura e já não seria gaiato qualquer. Mas era osso tão molinho que a mão do homem do outro lado não percebeu a resistência. Fez amassar toda a frente do queixo em direção ao pescoço. Aí a tristeza foi funda, mas sempre fina: “Resta-me comer de jeito feio. Ficam cancelados os jantares românticos e as luzes de velas. Não lhes vou cantarolar meus sambas nem vibrar os cristais dos vinhos. Terei que ser o amante sorrateiro, algo cínico, posseiro dos leitos alheios. Leitos de desavisados que julgam suficientes os parcos cuidados que destinam a carnes sempre tão insaciáveis”. E, nesse meio segundo, lá se foram outros nove anos, percorridos no coração pequenino e frenético do vilaense.

O último aperto durou um pouco mais e doeu sua primeira dor física. Quebrou de vez os ossos e fez morta e cremada a pequena esperança que tinha nas correções futuras da ciência médica. E doeu tão fundo, que seu cromossomo mais sarcástico teve de segurar pelos ombros o seu cromossomo mais lírico que queria meter, na vontade do menino, o suicídio para dali a pouco. Foram catorze anos nessa luta dos dois poderosos cromossomos Noelenses. Luta de titãs, da qual, pela força, não haveria vencedor. E não houve. Mas o lírico deu de ombros e se recolheu na solidão com um imenso tanto faz. O adversário amigo piscou-lhe cumplicidade e grudou-se nas vontades do menino que lhe entregou, naquele momento, a alma ferida: “Dessa massa toda quebrada há de se formar boca muito melhor ajustada às coxas das passistas. Terei trabalho para convencê-las, já que beleza aqui não verão. Mas vai ser tal o idílio que lhes incutirei pelos grotões, que minha fama vai correr a noite e toda mulher do Rio de Janeiro quererá ter em mim o amante secreto”.

Se somarmos os onze, os nove e os catorze anos dos três momentos do fórceps que deu à lua Noel Rosa, tudo se explica. Nasceu com trinta e quatro! Nos vinte e seis com que nos presenteou foi parceiro gaiato do cromossomo sarcástico e do cromossomo lírico. Fez canções de humor refinado e de tristeza sem excesso. E não podia - nem nós merecíamos - passar mais tempo conosco.

Foi embora, na verdade, aos sessenta.

(*) “Festa Imodesta”, de Caetano Veloso
(**) “O Gago Apaixonado”, de Noel Rosa
(***) Aquele que duvidar da tese aqui defendida que defenda outra, que busque explicação para o absurdo de que somente vinte e seis anos fossem suficientes para formar tamanha maturidade criadora. E que a melhor tese sirva para aplacar nossa inveja diante disso.
 

 
Seguinte >