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Noel: não 26, mas 60 PDF Imprimir E-mail

I - O pulo do gato

Certa poesia mudou, mas letra de música ainda exige aquela paciência de artesão chinês para encaixar as sílabas nas notas musicais e as tônicas nas posições certas. Só memória de elefante para se lembrar das palavras que caibam em cárcere tão justo sem ofender o conteúdo: "e acima da razão a rima / e acima da rima / a nota da canção" (*).

Moço ainda, já que sempre foi moço (será?), Noel deve ter se aborrecido com tanta restrição. Fazia uma letra de amante abandonado e despeitado, queria fulminar com pragas terríveis e as notinhas teimavam em atravancar o legítimo fluxo da ira! ‘Ara, tenha paciência!’

Labutou um bocado até que sorriu com o próprio engenho. Sarcasmo de craque, já que sempre foi craque-veterano (mesmo!). Só chutava de rosca. ‘Fosse gago não teria tanta dificuldade’ e nasceu o “Gago apaixonado” (**).

Golaço!

"mu-mu-mulher em mim fi-fizeste um estrago"

Com os dois primeiros “mu-” evitou um “cara” que não ficava mesmo bom. Com o “fi-” adicional fugiu do “tu” que também não combinava.

“Cara mulher em mim tu fizeste um estrago” (bem pior, não?)


Como dificuldade de gago não tem regra – nunca se sabe o número de sílabas acrescentadas – a liberdade foi completa e nasceu a canção genial. E, como a liberdade não morre cedo, não morreu no ato da composição e se soltaram também os intérpretes: cada cantor dobra ou triplica a sílaba que mais lhe convém, desde que elas sejam contadas e as tônicas postas nos seus devidos lugares.
Mas gato só é exímio nos pulos porque tem bigodes longos, cultivados. Daí a teoria dos bigodes.

II - Os bigodes do gato (***)

Ele nasceria na Vila. E lá na Vila, todos sabem, os meninos já vêm gaiatos.

Diz a lenda de um samba inacabado, gênero que não tem compromisso algum com este tipo de verdade, que foi numa noite de outono, muito estrelada e enluarada. A cabrocha tinha as pernas abertas, não para o ato de amor, mas para o seu fato, quando viu, na mão do médico aflito, o grande instrumento brilhante.

Coisa estúpida nessas carnes de calor e sombras meter instrumento brilhante e frio. Mas havia que se catar a cabeça do gaiatinho que teimava em não passar. Fórceps!

Não era um bom dia para o doutor. Julgou em posição exata o aparelho e o pressionou para afirmar os ferros. E, nos poucos segundos seguintes, toda uma vida se definiu.

O gaiatinho sentiu a primeira pressão um pouco à esquerda e o deslocamento do maxilar frágil. Pensou, no seu dialeto primeiro: “Esse não vai crescer bem, a boca da primeira moça vai ter de ser remunerada e nela hei de treinar molejos para compensar as más impressões das próximas”. Viveu, nesse primeiro instante, onze anos bem vividos.

Parasse ali a desventura e já não seria gaiato qualquer. Mas era osso tão molinho que a mão do homem do outro lado não percebeu a resistência. Fez amassar toda a frente do queixo em direção ao pescoço. Aí a tristeza foi funda, mas sempre fina: “Resta-me comer de jeito feio. Ficam cancelados os jantares românticos e as luzes de velas. Não lhes vou cantarolar meus sambas nem vibrar os cristais dos vinhos. Terei que ser o amante sorrateiro, algo cínico, posseiro dos leitos alheios. Leitos de desavisados que julgam suficientes os parcos cuidados que destinam a carnes sempre tão insaciáveis”. E, nesse meio segundo, lá se foram outros nove anos, percorridos no coração pequenino e frenético do vilaense.

O último aperto durou um pouco mais e doeu sua primeira dor física. Quebrou de vez os ossos e fez morta e cremada a pequena esperança que tinha nas correções futuras da ciência médica. E doeu tão fundo, que seu cromossomo mais sarcástico teve de segurar pelos ombros o seu cromossomo mais lírico que queria meter, na vontade do menino, o suicídio para dali a pouco. Foram catorze anos nessa luta dos dois poderosos cromossomos Noelenses. Luta de titãs, da qual, pela força, não haveria vencedor. E não houve. Mas o lírico deu de ombros e se recolheu na solidão com um imenso tanto faz. O adversário amigo piscou-lhe cumplicidade e grudou-se nas vontades do menino que lhe entregou, naquele momento, a alma ferida: “Dessa massa toda quebrada há de se formar boca muito melhor ajustada às coxas das passistas. Terei trabalho para convencê-las, já que beleza aqui não verão. Mas vai ser tal o idílio que lhes incutirei pelos grotões, que minha fama vai correr a noite e toda mulher do Rio de Janeiro quererá ter em mim o amante secreto”.

Se somarmos os onze, os nove e os catorze anos dos três momentos do fórceps que deu à lua Noel Rosa, tudo se explica. Nasceu com trinta e quatro! Nos vinte e seis com que nos presenteou foi parceiro gaiato do cromossomo sarcástico e do cromossomo lírico. Fez canções de humor refinado e de tristeza sem excesso. E não podia - nem nós merecíamos - passar mais tempo conosco.

Foi embora, na verdade, aos sessenta.

(*) “Festa Imodesta”, de Caetano Veloso
(**) “O Gago Apaixonado”, de Noel Rosa
(***) Aquele que duvidar da tese aqui defendida que defenda outra, que busque explicação para o absurdo de que somente vinte e seis anos fossem suficientes para formar tamanha maturidade criadora. E que a melhor tese sirva para aplacar nossa inveja diante disso.
 

 
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