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K Jornal de Crítica 16 | out 07 PDF Imprimir E-mail

Sumário

K16 outubro de 2007

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Sem que palavras?
TARSO DE MELO

Convocado a escrever sobre um poema de Ruy Belo para a antologia crítica Século de Ouro (Lisboa: Angelus Novus/Cotovia, 2002), o poeta Manuel António Pina revelou, por mais de uma vez, o incômodo que sentia diante daquele "trabalho de casa" sobre uma obra poética que, em parte, era responsável por ele, Pina, ser um "escritor de versos". Para Pina, a poesia de Ruy Belo era "algo amado" e, assim, a sua "compreensão dela não passa por qualquer exercício de análise".

Lembro isso porque, de minha parte, para escrever aqui sobre a poesia de Manuel António Pina, estou diante do mesmo incômodo - sem, no entanto, a mesma competência para realizar a tarefa. Vou em frente, porém, um tanto por desfaçatez e outro, bem maior, para tentar entender por extenso o que faz com que eu goste tanto da poesia de Pina.

O poeta Manuel António Pina em seu apartamento (Reprodução)
O poeta Manuel António Pina em seu apartamento

Foi nas páginas da revista Inimigo Rumor, em 2003, que tomei contato com um poema de Manuel António Pina. Naquela época das memoráveis edições luso-brasileiras da revista carioca (do número 11 ao 16), não foram poucas as vezes em que um poeta, de quem nunca havia ouvido falar, despertou minha curiosidade pela produção contemporânea de Portugal. No caso do Pina como no de vários outros, corri à caça de amostras mais substanciosas do que a revista conseguiria trazer. Foi então que surgiu a idéia de pedir a Carlito Azevedo que apresentasse alguns poetas portugueses nas páginas da revista Cacto (que eu editava com Eduardo Sterzi), o que ele fez na forma de uma "pequena antologia aleatória da poesia portuguesa contemporânea".

Ainda em 2003, no seu terceiro número, a Cacto publicaria os 6 poetas indicados por Carlito Azevedo. Foi então que se deu meu contato definitivo com a poesia de Pina, porque o antologiador me enviou cópia de várias páginas da Poesia reunida (Lisboa: Assírio & Alvim, 2001) para opinar sobre a seleção e transcrever os poemas com fidelidade na revista. Mais uma vez, estava diante de poemas absolutamente impressionantes pela beleza e inteligência com que cercavam seus temas, e não demoraria muito para conseguir um exemplar da Poesia reunida e, depois, de outros livros de Manuel António Pina, que só fizeram aumentar minha admiração.

Não sei até onde pode me ajudar a reconstrução assim detalhada do percurso das minhas leituras do poeta, mas gosto de lembrar que conheci a poesia do Pina em revistas literárias (e em revistas literárias brasileiras, mais especificamente), pelo simples fato de que minha leitura de seus poemas ainda hoje se dá sob um efeito parecido com aquela convivência/confrontação que é própria das revistas. Falo, assim, da diferença entre conhecer um determinado poema e conhecê-lo em meio à leitura de outros poemas de seus (meus) contemporâneos brasileiros e portugueses. No confronto, o choque causado pela poesia de Pina é ainda mais contundente.

Mas aqui quero falar apenas de uma "idéia fixa" que percorre a poesia de Manuel António Pina desde seu primeiro livro, de 1974, até o mais recente, de 2003. Em Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, livro de estréia do poeta, já estão em destaque os poemas que questionam os limites da literatura, ou mais precisamente, não apenas da literatura, mas de tudo o que se exprime em palavras: quanto da realidade pode ser representado nas palavras? Ou ainda: que realidade há para além das palavras? Daí em diante, com formulações mais ou menos idênticas, Pina sempre pergunta: "com que palavras e sem que palavras?"

Não é um problema qualquer, ainda mais para um poeta, investigar as possibilidades das palavras. Tampouco é um tema incomum, obviamente. Mas chama a atenção, na obra de Pina, a quantidade de poemas dedicados diretamente à discussão até mesmo filosófica da representação. O eco de um certo Wittgenstein, aquele da proposição "Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo" (Tractatus, 5.6), é ouvido constantemente, desde um poema como "Já não é possível", do primeiro livro, até versos como "entre mim e eu, isto é, palavras" ou "São elas, as tuas palavras, quem diz ‘eu´", do poema "Tanto silêncio", em Os livros (2003), passando, é claro, pelo belíssimo poema "Ludwig W. em 1951", de Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), em que o diálogo com o filósofo austríaco é francamente aberto.

É possível arriscar uma antologia sumaríssima, voltada principalmente ao leitor que ainda não teve nas mãos os livros de Pina, com algumas pedras de toque da idéia fixa:

"As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam"
["Os tempos não", Ainda não é o fim..., 1974]

"o meu cansaço é só um conceito"
["Volto de novo ao princípio", Aquele que quer morrer, 1978]

"Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"
["O medo", Nenhum sítio, 1984]

"As palavras fazem
sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
um sentido justo,
feito de mais palavras"
["Cuidados Intensivos", XII, Cuidados intensivos, 1994]

"As palavras depõem
contra o coração,
que não quer dizer nada
nem ouvir nada"
["A boca e os ouvidos", Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, 1999]

"Como saberei o que fazer com tantas palavras,
náufrago de palavras
na tormenta de antigos sentidos
e de antigas dúvidas,
sem outra coisa que me proteja
senão mais palavras?"
["Como quem liberto de", idem]

"as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo"
["Todas as palavras", Atropelamento e fuga, 2001]

"Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras"
["Separação do corpo", Os livros, 2003]

Por mais de três décadas perguntando "com que palavras e sem que palavras?", tudo que Pina escreveu revela o embate entre palavra e realidade, comum na poesia e na filosofia, mas que se singulariza em sua obra pela tendência a afirmar (ou seria lamentar?) que toda a realidade está nas palavras: todas as coisas, fatos e sentimentos existem e deixam de existir conforme as palavras (que a eles se referem e que são sempre alheias) existam ou deixem de existir.

Em Pina, por vezes, como em Mallarmé, tudo conflui para (e tem sentido apenas em) um livro - mas não num Livro grandioso, maiúsculo, como o do poeta francês. Tornar-se literatura, em Pina, antes de ser uma consagração, é uma forma de abandono a que coisas, fatos, sentimentos, pensamentos e o próprio poeta estão condenados. É possível lembrar, a propósito de certos versos de Pina, das personagens "doentes de literatura" de que trata Enrique Vila-Matas em O mal de Montano (2002), pessoas asfixiadas pelos livros que leram e pelos que pretendem escrever, o que faz com que vivam de maneira completamente mediada pela memória de textos alheios e, mais ainda, que vejam literatura em todas as palavras com que conhecem a si próprios.

Exemplo eloqüente disso está, também, já no primeiro livro de Pina, quando ele constata: "Literatura que faço, me fazes" ["Desta maneira falou Ulisses"]. Ou ainda num poema de O caminho de casa (1989), em que "já tudo e eu próprio somos literatura" ["Insónia"]. Mas é no seu livro de 1999, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (título, aliás, bastante significativo) que se encontra a radicalização, no poeta, dessa percepção de que tudo é palavra logo é literatura logo é alheio (com perdão pela formulação esquemática...). Leia-se, por exemplo:

"o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?"
["Saudade da prosa"]

"Volto, pois, a casa. Mas a casa,
a existência, não são coisas que li?"
["O resto é silêncio (que resto?)"].

Se palavras são sociais - ou se apenas socialmente, comunicativamente, interpessoalmente seus sentidos são justificados ou, como diz o poeta, acham o "sentido justo, feito de mais palavras" -, para o conhecedor de literatura é também inevitável que elas tragam as marcas de suas passagens pelos mais diversos textos e contextos literários. E não apenas literários, porque será natural trazer para a leitura da poesia de Pina, em que as palavras estão em causa, o significado que algumas delas (ser, presença, linguagem, mundo, casa etc.) ganharam na filosofia do século XX, com o já citado Wittgenstein, mas muito também com Heidegger e alguns de seus herdeiros. (Heidegger, anote-se à margem, lembra uma outra idéia fixa - a ser aprofundada oportunamente - que também cruza toda a obra de Pina: a idéia do retorno à casa, a uma casa que é "coisa que li", em que ressoa o quase bordão do filósofo alemão "a linguagem é a morada do ser", com o diferencial de que, para Pina, este não é, por isso, propriamente o lugar de revelação da verdade.)

Se o modo como Pina trabalha e retrabalha essas palavras durante sua obra revela uma certa vocação à poesia reflexiva (com todos os senões que esta expressão merece), não é apenas nele que percebemos a "consangüinidade entre pensamento e poesia" apontada por Maria da Conceição Caleiro. Em Pina, a forma poética é uma forma de intervenção filosófica, uma forma de dúvida filosófica, de desconfiança fundamental diante do real e de sua representação.

Em Os livros, de 2003, Pina volta a perguntar: "Com que palavras e sem que palavras?". Sem exagero, posso afirmar que este é um livro todo sobre a idéia fixa aqui destacada (a rigor, para tratar da idéia fixa do poeta, deveria transcrever, integralmente, os poemas de Os livros!). Destaco o "sobre" para diminuir nele a indicação puramente temática, porque, na verdade, Pina não (apenas) tematiza o embate palavra/realidade, como ocorre num ensaio filosófico: ele duvida das palavras que tem à disposição de seus poemas e, assim, todos seus poemas, tratem do tema que tratarem, acabam revelando a hesitação diante dos "nomes das coisas".

O poeta encaminha-se - e leva junto seus leitores - para o interior de um livro, a partir do qual imagina outros: "Talvez que noutro mundo, noutro livro,/ tu não tenhas morrido/ e talvez nesse livro não escrito/ nem tu nem eu tenhamos existido" ["Luz"]. O mundo é, portanto, um livro composto por determinadas palavras numa determinada organização; alteradas aquelas palavras ou esta organização, o mundo é outro, porque outro é o livro. Mas a poesia de Pina se inquieta diante dessa redução do mundo à linguagem e quer mais materialidade do "livro do mundo", chegando a perguntar, no poema "A ferida": "Real, real, porque me abandonaste?". E desejar: "Oh, juntar os pedaços de todos os livros/ e desimaginar o mundo, descriá-lo".

De dentro dos livros de Manuel António Pina, resta-nos, enfim, aguardar - lendo - outros e torcer para que chegue logo a hora em que o Brasil ganhará uma edição ampla de sua poesia, que o faça conhecido aqui por suas (digamos!) próprias palavras.


Tarso de Melo, autor de Planos de fuga (CosacNaify, 2005), é advogado e mestre em Filosofia do Direito pela USP.

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Quadrinhos radicais
REYNALDO DAMAZIO

Capa do HQ de José Carlos Fernandes (Reprodução)
Capa do HQ de José Carlos Fernandes

Os quadrinhos produzidos em Portugal nos anos 90 demonstram uma vitalidade criativa e uma ousadia experimental impressionantes. A começar pelo grande artista português do gênero na atualidade, José Carlos Fernandes (Loulé, 1964). Comentei em K n° 1 (junho de 2006) seu livro Um catálogo de sonhos, mas sua obra-prima é a série A pior banda do mundo (no Brasil, publicada pela Devir), hoje em seis volumes. Cada livro é composto por contos de duas páginas, sempre em tom sépia, com personagens e situações esquisitos, inusitados, absurdos. A cidade pode ser uma Lisboa kafkiana, ou uma Buenos Aires borgeana, não importa, pois tanto Borges quanto Kafka caminham por suas ruas labirínticas, disfarçados em personagens fantasmagóricos. Assim como o filósofo que se retira do convívio social por oito anos para escrever um ensaio definitivo sobre "O que mantém viva a humanidade?" e na verdade produz o opúsculo 20 receitas com enguias. Ou como o solitário Serafim Koch ao descobrir, perturbado, "que entre ele e o mundo está a abrir-se uma fractura".

Vários contos se constroem a partir de cenários perturbadores, a exemplo do Hotel cujas paredes capturam os sonhos dos hóspedes, ou o espetáculo que apresenta somente desgraças humanas e está sempre lotado. A banda que dá título à série é um caso paradigmático: são músicos de jazz que se reúnem há anos para ensaiar e que jamais conseguem tocar juntos uma canção sequer. Os episódios dessa complexa teia de narrativas falam de nós, de nossa humanidade perdida, desorientada, ou daquilo que fingimos não ser.

Outra artista interessante é Ana Cortesão (Lisboa, 1970), uma versão feminina do brasileiro Lourenço Mutarelli. Seu livro A minha vida é um esgoto (Baleia Azul/ Biblioteca de Lisboa, 2000) traz o cotidiano brutal, sem maneirismo, de mulheres fodidas, que apanham, que são exploradas no trabalho, ou que se inutilizam no mundo de consumo e vaidade. Desenho e texto são uma porrada certeira em nossas pretensões civilizatórias, com hematomas e lágrimas.

Seguindo essa linha de fanzine, Isabel Carvalho (Porto, 1977) publicou em 2000 o livro Eat & Spit (Nova Comix), com poemas visuais a partir de situações autobiográficas. A autora é militante feminista e participa de um grupo de reflexão, na cidade do Porto, sobre o lugar da mulher na sociedade. Em suas páginas iradas e poéticas, no entanto, não há panfletarismo ou engajamento rasteiro, mas apontamentos sobre experiências sexuais, a paisagem, sonhos e sentimentos, angústias e pequenas alegrias, como um diário descolado da linha de tempo e sem ponto de chegada.

HQ Mr. Burroughs (Reprodução)
HQ Mr. Burroughs

Mr. Burroughs (Círculo de Abuso, 2000), criado pela dupla David Soares (Lisboa, 1976) e Pedro Nora (Vila Nova de Gaia, 1977), também se enquadra nesse universo de radical experimentação, criando um sósia do autor de Junkie para revelar uma realidade avessa aos sentidos, mas tão plausível quanto um bom pesadelo.


Reynaldo Damazio é editor e poeta, autor de Nu entre nuvens (Ciência do Acidente).

 

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"Extravagante e viajado estrangeiro daqui e de todo lugar":
Indulgência Plenária de Alberto Pimenta
PÁDUA FERNANDES

Cartaz do filme sobre travesti brasileira  (Reprodução)
Cartaz do filme sobre transexual brasileira

Na cidade do Porto, em fevereiro de 2006, após três dias de tortura e violência sexual, um grupo de treze adolescentes (muitos deles sob a guarda de uma instituição católica, Oficinas de São José) ponderou se o fogo não seria a melhor maneira de se livrar do corpo. Contudo, decidiu por outro elemento: a vítima foi lançada em um poço de mais de 10 metros de profundidade, onde morreu afogada. O Poder Judiciário considerou o caso como uma simples brincadeira, não como homicídio. Segundo a tese aceita pelo Ministério Público português, a morte só ocorreu por culpa do poço, eis que ela ainda vivia ao ser lá atirada.

A vítima, Gisberta Salce Júnior, era brasileira, transexual, imigrante em situação ilegal, soropositiva para HIV e sem-teto. Ou seja, segundo a tradição fascista portuguesa, uma não-pessoa. Sobre o bárbaro caso, Alberto Pimenta escreveu um importante poema longo: Indulgência Plenária (Lisboa: &etc, 2007).1 A capa da obra sugere um rasgão sob o quadro (parte de um tríptico de Emil Nolde), que mostra uma mulher de seios nus diante de três homens aparentemente embriagados.

Após todo um livro sobre um crime internacional (Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta, resenhado em K 3), Pimenta voltou seus olhos para esse delito português (revelador do tratamento que a União Européia dedica aos "extracomunitários") e escreveu uma elegia em cinco partes.2 Como o anterior, temos aqui um texto de intervenção. Bem escreveu Manuel de Freitas em resenha, "Não fosse um livro como este, com o seu raro poder de corrosão e de denúncia, e Gisberta Salce esperaria a sua segunda e definitiva morte - o esquecimento - tão indefesa como esteve perante o horror da primeira."3

Na primeira parte do poema, lemos o encontro do poeta com Gisberta em um mictório, mediado por um animal psicompopo (intermediário entre os vivos e os mortos), a mosca. A cirurgia de mudança de sexo é referida. A invocação anímica se dá em um ambiente não edificante - não se trata da emulação do modelo da elegia clássica, ao contrário, por exemplo, do Antinous de Fernando Pessoa.

A segunda parte aborda a prostituição e apresenta o nome de Gisberta. A terceira faz-nos conhecer o sobrenome - que levará ao belo final - e menciona os assassinos, sem realmente os caracterizar: o autor não tenta descrever o crime e o julgamento. O poema não é dramático, e sim reflexivo, com meditações sobre o corpo e a finitude. Nisso, ele tem muito em comum com Imitação de Ovídio, o penúltimo livro de Pimenta (também resenhado em K 3).

O poeta Alberto Pimenta (dir.) conversa com o editor do K Fabio Weintraub, em Almada (Foto: Pádua Fernandes)
O poeta Alberto Pimenta (dir.) conversa com o editor do K Fabio Weintraub, em Almada

A quarta parte alude à doença e à situação ilegal em Portugal. Na última, temos a retomada dos motivos anteriores - a mosca, a doença, a ilegalidade, o assassinato, num movimento cada vez mais intertextual: a voz de Pimenta busca dar lugar à de Gisberta - mas não a pode mais encontrar: "tira-me daqui não sei se foste tu que disseste/ não mexeste os lábios// nem sei se poderias continuar/ as tuas trocas/ os teus desejos/ entre os habitantes dos mundos invisíveis" (p. 54). Pimenta vai-se substituindo por outras vozes, o que inclui excertos de ópera (na página 49, o Judiciário é comparado aos cortesãos, segundo a furiosa ária de Rigoletto na ópera homônima de Verdi) e culmina no trecho final, que é a reprodução de um trecho do Otelo de Shakespeare: a Canção do Salgueiro (Salce, em italiano), que antecede o assassinato de Desdêmona. A quarta parte já terminava com o seu apelo desesperado para que Otelo somente a matasse no dia seguinte. Avançando no livro, e recuando na peça, optou-se não pelo grito, mas pela canção que a personagem entoa para silenciar o pressentimento da morte: "If I court moe women, you'll couch with moe men." E assim é, no silêncio de Pimenta, reencenada a morte de Gisberta.

Indulgência plenária realiza uma espécie de monumentalização da figura de Gisberta Salce, que se torna um "monumento aos tempos presentes" (p. 17), caído, portanto, e comparado a uma estátua de "braço decepado" em Toulouse, "de que nenhum funcionário sabe ou pode/ dizer nada" (p. 18). Gisberta se torna uma sacerdotisa da lua (a ária Casta diva, da ópera Norma, de Bellini, é citada na página 53), de quem se diz: "rodava o universo/ preso entre a Alavanca das tuas pernas" (p. 13).

Como era de se esperar num livro de Pimenta, o poema é contrário ao Cristianismo ("Mas por que não tinhas tu um cão da raça trifauce/ que trespassasse as outras trindades", p. 15), à hipocrisia (sobre Porto lemos: "uma Terra de melómanos/ com casas de putas e de música/ não perdoa", p. 42) e ao fascismo ("mas não conhecias as muralhas/ que te encarceravam/ nem os graffiti suásticos/ que as cobriam", p. 32).

No percurso do poema, do encontro de Pimenta com Gisberta até o silêncio de ambos, encontramos pedras-de-toque, como esta revisão de Platão: "Não tinhas uma direcção fixa/ porque isso são olhos dentro duma Cela/ Sempre a espreitar pelo buraco/ à procura da luz oficial que é autorizada a entrar" (p. 24). Dessa luz oficial foge um estrangeiro como Gisberta, estrangeira lá, mas também no Brasil - o que remete ao verso de Shakespeare citado no título desta resenha. O preconceito racial, que seguiu Otelo (ele também é vítima na peça), no caso da brasileira foi substituído pelo sexual, que a tornou estrangeira em mais de um sentido e a levou à clandestinidade.

Essa morte, de caráter social, preparou o caminho da morte física: "Nesse inóspito lugar/ com essa entretanto nova Rica e desleal cidade/ não há relação possível" (p. 48).

1 Note-se a ironia do título: indulgência plenária é o nome de um perdão a penas temporais, uma vez que os pecados já foram remitidos, concedido pela Igreja Católica.

2 A aproximação entre os dois livros foi feita pelo próprio poeta, que, em 26 de maio de 2007, no Teatro Acadêmico Gil Vicente, leu ambos em um espetáculo a que deu o nome "Pequenos Estragos". A leitura foi precedida de uma fala sobre "Poesia e violência", por ele assim anunciada: "Alberto Pimenta é um daqueles poetas que levam muito a sério e agradecem a tolerância que Aristóteles lhes concede através da permissão de desvios da norma que ele normativamente fixa na Retórica e na Poética. Assim, considera-se um ‘tolerado', no mesmíssimo sentido do termo administrativo com que eram designadas as prostitutas em Portugal até cerca de meados do século XX. Continuando o raciocínio, e da mesma maneira que não há mestres ou políticos iguais, separa os poetas em duas categorias: os tolerantes e os tolerados.
Na 1a Parte do serão, A.P. vai tratar o tema «Poesia e Violência», a partir da sua perspectiva de tolerado, portanto sem a mais mínima espécie de tolerância." (http://dupond. ci.uc.pt/tagv/evento.asp?evtid=993)

3 Casta morte. O Público, Lisboa, 16 de junho de 2007.


Pádua Fernandes é professor universitário, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo. Como autor, publicou o livro de poemas O palco e o mundo (Lisboa: &etc., 2002) e organizou a antologia poética de Alberto Pimenta, A encomenda do silêncio (São Paulo, Odradek, 2004).

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Espaço público, letra e imagem:
entrevista com Carlos Leone

Carlos Leone é historiador, professor e crítico literário. Escreveu, entre outras obras, Dez críticas (Lisboa: Edições Colibri, 1999) Portugal Extemporâneo: História das ideias do discurso crítico moderno (séculos XVI-XIX) (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2 vol., 2005) e O Essencial sobre Estrangeirados no Século XX (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005). Pesquisador sobre o espaço público e sobre os chamados "estrangeirados" portugueses, tem realizado parte de seu trabalho de campo em instituições dos Estados Unidos. É professor visitante da Universidade de Rutgers (Nova Jersey). Foi editor da Revista Metacrítica, de Filosofia, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Atualmente, edita a revista Prelo da Imprensa Nacional-Casa da Moeda portuguesa, que foi retomada em 2006 após 18 anos sem ser publicada.

A entrevista foi concedida a Pádua Fernandes na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Uma pré-modernidade persistente

Estive recentemente nos Estados Unidos a dar aulas sobre Portugal no século XX. Comecei com uma introdução, porque as referências dos alunos eram da história inglesa. As referências que eles têm em termos da expansão européia são da expansão inglesa, século XVI em diante. A expansão portuguesa, tal como a espanhola, ocorre nos séculos XV e XVI. Portanto, nesse período, que na língua inglesa se chama Early Modernity e que é uma espécie de pré-história da modernidade para eles, nesse período Portugal e Espanha eram realmente modernos. O problema é que, quando na história européia em geral, se observa a expansão de holandeses, ingleses, franceses, Portugal e Espanha já estão em retrocesso, já estão a iniciar aquilo que é na história de ambos países a decadência, o afastamento da Europa e por aí afora. O meu problema, digamos assim, com a questão da modernidade portuguesa é o facto de ela ter tido uma vida muito breve, não se ter desenvolvido, ter-se alçado e acabado num período histórico ligeiramente defasado do resto da Europa. Temos essa sensação de pré-modernidade persistente porque nossa modernidade não é a do Iluminismo. Então, quando chegamos ao século XX, ao fim do século XX e, por via revolucionária, ao 25 de Abril, há uma mudança das instituições sociais: passa a haver o voto, a liberdade de imprensa, uma separação séria entre Igreja e Estado. Quando chegamos aí, as sociedades européias em seu conjunto já estão no que é vulgarmente chamado de pós-modernidade. Então, a nossa procura da modernidade tende a pensar em coisas que são, na verdade, pós-modernas: a terceira geração de direitos sociais, os direitos ecológicos. E esse salto, como diz o Boaventura de Sousa Santos, como diz o Manuel Villaverde Cabral, esse salto da pré para a pós-modernidade ficou lá atrás, com este enigma de nossa modernidade ter existido, ter sido importante, mas sem ser pensada pelo resto da Europa.

Obstáculos à modernização

O crítico Carlos Leone, em Lisboa  (Foto: Pádua Fernandes)
O crítico Carlos Leone, em Lisboa

As instituições como a Imprensa Nacional, a Biblioteca Nacional estão em contato com o estrangeiro e são levadas a atualizar-se. Se formos para o setor privado em Portugal, um dos setores mais ativos e mais dinâmicos é o bancário. Os bancos estão sempre em contacto com o estrangeiro e têm que se modernizar. Esse contato com o estrangeiro, sobretudo a comunidade européia, foi sem dúvida, nos últimos vinte anos, após o fim das situações de exílio, fator de modernização. Essa europeização contudo ficou aquém do esperado, produzindo ainda assim algo do isolamento lusitano anterior. O maior historiador português vivo, Vitorino Magalhães Godinho, já comparou publicamente em entrevistas os fundos europeus para a modernização da economia portuguesa (recebidos abundantemente nos últimos vinte anos) ao ouro do Brasil. Ou, antes do ouro do Brasil, às especiarias da Índia. Ou seja: com uma fonte externa de riqueza, da ordem quase do milagre, que promove alterações positivas, mas que acaba por ser sentida como uma facilidade, uma espécie de maná, e portanto, não leva a um movimento próprio interno de modernização. Hoje, os fundos europeus estão a decrescer em volume. E começam a fazer falta, pois se vê coisa que deveria ter sido feita. Muita coisa ficou por fazer.

Há vários outros problemas, sobretudo em nível de justiça e de educação. Os sistemas de educação são praticamente autônomos, não têm grande controle exterior, resistem às tentativas de modernização porque alteram o status quo. O que está a passar com o chamado processo de Bolonha, com a modernização da forma do ensino superior em Portugal, é que está a se resistir institucionalmente. [...] Não sei se é verdade o que se diz de Bolonha: que se trata de processo europeu para americanizar as universidades européias. Acho isso impossível, porque não há uma sociedade européia como a americana. Mas ainda que fosse esse o objetivo, receio que não consigam atingi-lo. A universidade americana funciona de maneira excepcional. No caso de Brown, onde lecionei, o ambiente de trabalho é favorável, o material, a racionalidade das coisas, a disponibilidade dos alunos e professores são constantes. É impossível estar lá e não trabalhar. O aluno vai para a universidade fazer o seu trabalho. Ele quer escrever o próprio paper e traz dúvidas para aula. Há uma atitude de trabalho que é magnífica. E que corresponde ao tal ambiente de investigação sensacional dos americanos. Isso, que eu conheço pouco (não sou especialista no sistema universitário americano) era ótimo que existisse em Portugal. E existe em outros países da Europa, como a Inglaterra. Mas, nos EUA, temos uma versão melhor, mais rica, mais dinâmica do que qualquer universidade européia pode ser.

Descontinuidade do discurso crítico

Quando propus a Manuel Felipe Canaveira, orientador da minha tese de doutorado, estudar o discurso crítico em Portugal, ele logo me objetou que não havia discurso crítico em Portugal. Segundo ele, que é historiador, eu estava a falar de algum caso isolado, e por isso não haveria continuidade desse discurso, ou seja, um objeto definido a investigar; [...] Acabei por concluir que existe uma certa continuidade, mas não se pode pensá-la em termos disciplinares. Essas tradições específicas disciplinares não se formaram devido ao facto de, na história portuguesa, as instituições mais fundamentais da sociedade (o Estado, a Igreja, a Universidade) terem resistido à modernidade.

O aquário kafkiano

Um dos indicadores de uma sociedade moderna é o grau de alfabetização, ou de literacia. [...] A classe média alta (que tem esse indicador, que geralmente é alfabetizada) é a classe dirigente. Em países onde a alfabetização é muito melhor e mais antiga, os do norte da Europa, não é preciso o primeiro ministro ser doutor de coisa nenhuma. A obsessão com o título acadêmico é típica de uma sociedade muito pequena, onde essas glorificações são restritas. É o caso do Mário Soares e dos saudosistas do Salazar - podemos ver os discursos do Salazar e o modo como ele escrevia. [...] Quem detém o poder é quem detém o saber. É tudo a mesma gente. E há a pequenez que faz com que tudo e todos tenham um tio, um primo, um irmão, uma influência, um conhecimento... O fato de a sociedade ser pequena faz o ambiente ser claustrofóbico. No tempo do Salazar, isto era o aquário kafkiano (nas palavras de Eduardo Lourenço). O pesadelo calafetado, tudo bem fechadinho. Um ambiente em que ninguém diz abertamente o que pensa e com o tempo até deixa de pensar para não ter o risco de dizer por acidente.

O valor do exílio

A experiência do exílio durante o período salazarista vem romper um pouco com esse quadro. A partir de que momento se verifica a influência do Eduardo Lourenço nas letras portuguesas, por exemplo? A partir do momento em que ele passa a residir no estrangeiro. Antes disso ele esteve em Portugal, teve papel importante na Vértice, lecionou por pouco tempo na Faculdade de Letras de Coimbra, passou um breve período no Brasil e foi para a França. Ele começa a publicar mais regularmente já vivendo e trabalhando em França. É um caso, mas há muitos outros. O afastamento gerou ou permitiu o desenvolvimento de uma visão crítica da sociedade. E também permitiu que a sociedade absorvesse essa crítica, porque vinha de longe. De modo que a experiência do exílio, a experiência de imigração foi uma das maiores, senão a maior influência para mudar Portugal no século XX: possibilitou essa passagem de pré-modernidade, em muitos aspectos, para a modernidade / pós-modernidade.

Espaço público e mundo virtual

No passado, havia pouca gente alfabetizada. Hoje os níveis de alfabetização já são muito maiores, mas a cultura, no seu todo, está a transferir a comunicação para os meios de imagem, tevê, internet. De modo que os problemas do passado (não havia quem escrevesse, não havia público) mantêm-se hoje por outras causas. O público foi transferido para as mídias digitais, e esse foi, digamos assim, o problema de todas as revistas de idéias. A Prelo, que está a agora ser publicada, também sofre um pouco por isso: é complicado arranjar colaboradores. O alcance de difusão da revista é muito limitado: cada vez mais não se lê, não se lêem mais revistas culturais, jornais, não se lê, pura e simplesmente. E o sucesso de muita coisa na internet como blogues, vem justamente porque não é preciso perder muito tempo a ler aquilo, é simples e rápido [...] Em publicações portuguesas virtuais, acontece a mesma coisa que ocorre as edições em papel: é difícil manter a periodicidade, é difícil arranjar novos colaboradores, é difícil manter o título. E, ao fim de certo tempo, as coisas tendem a desagregar-se.

Vértice é uma revista que ainda está hoje em publicação. Uma revista de idéias, de literatura. Está muito associada à esquerda e ao partido comunista. Eduardo Lourenço foi fundamental no seu surgimento, na década de 1950. Depois da ida de Lourenço para a França a Vértice perdeu sua influência, em parte pela associação com a esquerda, mas também pela falta de interesse pela palavra escrita, que é um dos problemas da pós-modernidade. Seara Nova, outra revista muito importante, ligada ao António Sérgio, também está em publicação, mas ninguém sabe, ninguém lê. Há uma defesa do romance moderno em Portugal, nos anos 1930, feita pelo António Ferro - figura importante na propaganda do regime de Salazar, mas que começou muito jovem, ligado à revista Orpheu e ao Fernando Pessoa. Trata-se de uma defesa associada justamente à velocidade: não mais o romance em três volumes, como se fazia no século XIX, mas o romance breve, em 200 páginas, para ser lido rapidamente. Apesar de um meio como internet permitir o armazenamento de mais texto, põem-se lá coisas cada vez mais curtas, e isso faz com que as revistas de cultura tenham um papel extemporâneo.

Mas o novo formato, eletrônico, digital no caso, não resolveu o problema cultural de base, isto é, não resolveu a escassez do espaço público. Os projetos que têm viabilidade se mantêm à custa de reproduzir o que já existe. Aí está a tal agenda tradicional, que é cada vez mais a televisão, a entrar também naquilo que era supostamente alternativo, os blogues. Isso é um problema geral.

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Fora do mundo
EDUARDO STERZI

Um capítulo especial da história in fieri das letras portuguesas - um capítulo que não se acomoda sem alguma hesitação entre capas - vem-se escrevendo na instantânea virtualidade da internet. Digo "das letras", e não, como seria possível, "da literatura", para frisar que nos encontramos, aqui, frente a um experimento coletivo1 de linguagem que vem resultando numa prosa a um só tempo esquiva e híbrida, que não é, a rigor, literatura nem jornalismo, mas que, no entanto, quanto mais se afasta desse dois registros para constituir um terceiro, acaba participando, em alguma medida, de ambos. Até onde sei, não há nada de semelhante na blogosfera brasileira em matéria de inteligência e estilo. Entre nós, predominam o meramente informativo - com seu tanto de cabotinismo, quando as informações divulgadas dizem respeito sobretudo aos próprios autores dos blogs - e o opinativo, ou, mais precisamente, o opiniático - com suas insistentes variações sobre lugares-comuns: caricatura, seja como for, da crítica, que é sempre, ou não merece assim chamar-se, o exercício do paradoxo contra a doxa.

Pode-se dizer que esse padrão de qualidade foi estabelecido, ainda antes da disseminação dos blogs, pela revista eletrônica online Ciberkiosk, que um grupo de professores universitários e editores manteve no início dos anos 2000. Na Ciberkiosk foram publicados textos fundamentais a respeito de alguns dos principais escritores contemporâneos de Portugal: a bibliografia básica sobre Adília Lopes, Maria Gabriela Llansol e Manuel António Pina, para ficarmos em apenas uns poucos exemplos, passa - ou passava - por aqui. Infelizmente, a revista foi extinta em meados da década; por algum tempo, os textos ficaram disponíveis em arquivo; hoje, não mais se encontram, salvo os poucos que foram republicados em livros ou periódicos por seus autores.

Se na Ciberkiosk, esforço pioneiro de apropriação do espaço da internet em língua portuguesa para o debate cultural sério, a forma dominante era a do ensaio crítico de considerável extensão, nos blogs (ou blogues, como parecem preferir alguns portugueses) esta é a da nota breve, em que o fôlego da argumentação é trocado, com ganho de adequação ao meio, pelas chispas da elipse e da ironia. Não por acaso, essa nova prática de escrita vem-se fazendo acompanhar, nas telas expertas de dublês de blogueiros e estudiosos da literatura, por uma espécie de teoria in progress do blog como forma; na página coletiva que sucedeu a Ciberkiosk e trouxe de volta os coordenadores da revista obliterada, pôde-se ler (e pode-se ainda) a ressalva singela mas exata de que "nos blogues não se publicam textos, e menos ainda ensaios, mas posts, o que não é o mesmo".

Quem assim escreveu foi Osvaldo Manuel Silvestre, professor da Universidade de Coimbra e ex-editor da Ciberkiosk (e da revista Inimigo Rumor, em sua fase luso-brasileira). E o blog - extinto, por sua vez, em março de 2006, depois de quase nove meses de atividade, mas, ao menos por enquanto, integralmente disponível em arquivo - chamava-se Casmurro. Blog bastante atípico, porque pluriautoral - e que autores! Um verdadeiro dream team, como outro admirador já o disse: afora Silvestre, ali deixaram seus posts Abel Barros Baptista, Luís Mourão, Fernando Matos Oliveira, Pedro Serra, Gustavo Rubim, Clara Antunes, Manuel Portela e Luís Quintais. E, além destes, num lance de genial ironia, aquele personagem que se assinava somente Groucho, no qual se reconhece um alter ego de Silvestre.

Difícil resumir o material postado no Casmurro, que ia de quase-ensaios dialogados sobre literatura, política e tudo mais que houvesse a ser comentado (e mesmo sobre ‘nada', em sentido seinfeldiano) até um sensacional Dicionário de Soundbytes assinado pelo mesmo Silvestre, com definições como esta do verbete Lusíadas, Os: 2. Um estudante: "Se encontrasse o Camões na rua, acho que o esfaqueava! Devagarinho, com requinte, rodando-lhe a faca na pança como nos filmes americanos, e dizia-lhe: ‘Ouve lá, meu cabrão, quem te mandou escreveres aquela porra com todos aqueles deuses, e citações, e palavras alatinadas e uma sintaxe que não lembra ao diabo?! Só pra foderes o juízo aos estudantes do básico e do secundário, não foi? Só pra incentivares o sadismo dos professores, aposto? O que vale - e isso não podias tu adivinhar, e é bem feito - é que há bué de ‘Introduções' aos Lusíadas, e, lendo aquilo, a malta dispensa a leitura aí de 9 cantos e meio. Pois, pois, arregala os olhos, arregala! Tanta sacanice pra nada! Lixaste-te, meu filho da mãe!'". A encimar as dependências do "clube" (como por vezes os integrantes identificavam-se), uma frase intraduzível de Groucho Marx, padroeiro e, como dito, personagem-autor do blog: "Outside of a dog, a book is a man's best friend; inside of a dog, it's too dark to read". (E vale lembrar, diagonalmente, que pelo menos dois dos maiores críticos do século XX - Harold Bloom e Antonio Candido - reivindicaram-se, em alguma ocasião, groucho-marxistas.)

O esprit-Casmurro sobrevive em alguns blogs de seus ex-autores, sobretudo no Me Livre! - abreviatura de Deus me livre de ter um blog! - mantido por Groucho (e Harpo, que ainda não tinha entrado na história) e no Manchas de Luís Mourão. Inventividade comparável encontra-se talvez somente no Estado Civil de Pedro Mexia. Seu fraseado, às vezes, beira o críptico, numa concentração invejável; e sua mistura de biografemas sentimentais (e anti-sentimentais, em cerrado contraponto), citações e referências imprevistas (deslocando-se sem fingidos pudores da alta cultura à cultura pop, sempre com conhecimento de causa e perspectiva personalíssima) e manifestos de uma visão impiedosa dos costumes contemporâneos é eficiente em desconcertar o leitor. Poeta invulgar, cronista, crítico literário, Mexia foi um dos primeiros em Portugal a perceber as potencialidades dos blogs. Antes do Estado Civil, manteve, entre blogs individuais e coletivos, A Coluna Infame (com Pedro Lomba e João Pereira Coutinho), Dicionário do Diabo, O Real Absoluto, Fora do Mundo (com Francisco José Viegas e o mesmo Lomba da Coluna). Transferiu o nome do último para o título do livro em que republicou posts de seus blogs anteriores, justificando-o com a proposição de que "os blogues estão, de certo modo, ‘fora do mundo', ou abrem um novo mundo". Sobre o valor de sua produção intelectual, Osvaldo Manuel Silvestre, no Casmurro, foi certeiro: "um crítico excelente, a meu ver o mais notável talento da sua geração nessa disciplina literária". E precisou: "Não nutro pelo Mexia poeta o interesse e a admiração que sinto pelo crítico. Mas não o lamento, pois creio que o melhor do labor literário de Mexia se tem vazado numa forma que o autor vem trabalhando e aprimorando nos blogues e que, com Estado Civil, alcançou um raro conseguimento. Refiro-me a uma escrita que só podemos imperfeitamente chamar, sem que a designação esgote a coisa, aforística, e na qual o autor se vem afirmando como um notável escritor, numa adequação rara da mensagem ao medium, neste caso o post. Não fora o post e a escrita de Mexia não teria ganho a densidade ‘gnómica', a justeza incisiva, a espirituosidade desconcertante, a leveza de uma como que existência sem missão nem redenção que fazem hoje a sua singularidade. Os ‘falsos diários' de Mexia, em todos os anteriores blogues, mas sobretudo em Estado Civil, são uma das mais estimulantes escritas da nossa literatura actual [...]. Porque Mexia não incorre na tolice de escrever Bilhetes de Identidade; muito ao invés, empenha-se em demonstrar, da forma mais aparentemente irresponsável (mas não há literatura sem o peso ético da irresponsabilidade), a que ponto toda a identidade é apenas e só um bilhete. Mexia revela a todo o instante (no regime instantâneo dos blogues), e mais uma vez, que a verdade da literatura é a verdade do Fake. Que pode ser bem dolorosa, como sabemos. Que o faça com a superior inteligência e graça que o define, é algo que, enquanto leitor, só lhe posso agradecer. [...] E, já agora, deixem-me dizer que Fora do Mundo é, entre muitas outras coisas, um dos melhores livros de crítica cultural, lato sensu, publicado em Portugal nos últimos anos. Uma espécie de Rua de Sentido Único adaptada aos novos tempos - alguém duvida que, caso vivesse hoje, Benjamin teria sido, como Mexia, um pioneiro da blogosfera?".

Fora de série (não menos que do mundo, à Mexia) é também o blog de João Barrento, o grande tradutor português de língua alemã. Para ser exato, seus dois blogs: o principal, Escrito a lápis, em que vem publicando antigos e novos textos (e quem conhece seus livros de ensaios e crônicas pode imaginar as preciosidades que aqui se encontram), e Poço de Babel, dedicado somente a traduções de poesia.

E como não lembrar também o blog Da Literatura, de Eduardo Pitta e João Paulo Sousa (e que tem como membros honorários Jorge Melícias e valter hugo mãe). Resenhas excelentes de literatura e cinema, e não só (política, gastronomia, imprensa...), numa escrita bem mais ‘clássica' que a dos ex-casmurros, de Mexia e mesmo de Barrento (este, o mais ensaístico de todos - até porque, de fato, muitas vezes apenas republica, em formato de séries de posts, o que foi concebido como ensaio). Talvez o blog mais elegante - se esta palavra ainda faz algum sentido - da língua.

BLOGS (lista não exaustiva)*
blogcasmurro.blogspot.com
melivre.blogspot.com
blogmanchas.blogspot.com
estadocivil.blogspot.com
daliteratura.blogspot.com
escrito-a-lapis.blogspot.com
poco-de-babel.blogspot.com

* Sugere-se aos leitores interessados em conhecer outros blogs portugueses que se valham das listagens de links oferecidas nos endereços acima indicados. São confiáveis.

1 Precisemos o adjetivo: "coletivo" não indica, aqui, a emergência de uma voz consensual a partir de vozes várias, mas, sim, o diálogo, feito de confronto e contaminação, de resistências e permeabilidades, entre individualidades que se lêem - a si mesmas (a "auto-análise", em múltiplas formas, é uma quase obsessão dos blogueiros portugueses) e umas às outras.


Eduardo Sterzi, poeta e crítico literário, é autor de Prosa (2001) e organizador de Do céu do futuro: cinco ensaios sobre Augusto de Campos (2006).

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"Os mortos sabem-no"
Poemas de Manuel de Freitas
MARCELO SANDMANN

Manuel de Freitas  (Foto: Pádua Fernandes)
Manuel de Freitas

Com exceção dos poucos clássicos de sempre, são raros os poetas portugueses editados no Brasil, raríssimos os de safra mais recente. Por isso é desde já bem vinda a coleção Portugal, 0, da Oficina Raquel, do Rio de Janeiro, com curadoria de Luis Maffei. Na "Carta de Fundação", inserida na abertura dos dois volumes que ora se publicam, pode-se ler: "São poetas de agora, vivos e jovens, os que vêm nesta coleção. Poetas que estréiam no final do século XX, invadem, viçosamente, o XXI, lêem sua história e a ela dão prosseguimento."

Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral, cada qual com uma antologia em específico, são os nomes que abrem a coleção. Concentro-me naquele, a quem, não por acaso, é dedicado o volume primeiro.

Nascido no Vale de Santarém, em 1972, radicado em Lisboa desde 1990, Manuel de Freitas é autor de diversos livros de poesia, saídos regularmente, de ano a ano, desde sua estréia, em 2000, com Todos contentes e eu também. É ainda autor de ensaios sobre importantes poetas portugueses, como Al Berto e Herberto Hélder, além de co-editor da revista Telhados de Vidro e organizador e prefaciador da antologia Poetas sem qualidades, publicada em 2002, com um apanhado da produção de alguns dos nomes de sua geração e tendência. No prefácio, intitulado "O Tempo dos Puetas" [sic], predispondo o ambiente literário à polêmica, afirmava: "A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades."

De qualidades e não-qualidades convém falar, das qualidades evidentes do poeta e de muitos dos poemas, da duvidosa qualidade do mundo que a poesia captura e ao qual ela reage, bem como dos homens que por ele (por ela) circulam, o autor incluído.

Manuel de Freitas veste a máscara de poeta maldito, que parece colar-se-lhe ao rosto, e é como desolado flâneur que atravessa as noites e as tascas de Lisboa, num registro minudente do bas-fond: "Numa taberna do Cais do Sodré/ o vinho e a serradura conspurcam/ a desistência do meu corpo,/ abandonado como um dejecto/ sobre o chão desta manhã nociva." ("A Paixão Segundo Ron Athey"). "Não me inquietam os chulos, os assassinos/ ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,/ de uma má-raça inegável. Prefiro perder/ com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes/ ou do preço do azeite. Não tenho tempo/ para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas." ("Zulmira, ao Amanhecer").

Mas, se em lances como esses, o mundo estreita-se a emparedar o sujeito, a voz que se ouve, aqui e ali, vai transcender o pessoal. A má hora coletiva (o impasse da história recente), para além do individual desassossego, pode estar na raiz do geral desalento: "(...) Esse dano colateral/ a que chamamos angústia/ serve de montada às Bolsas do Ocidente,/ no estertor da última cruzada.// ‘Até amanhã'. Nada podemos fazer./ Oferecemo-nos como escudo/ ao peso inútil de mais um dia./ A guerra já está ganha,/ a morte é garantida e um poema,/ infelizmente, não é uma arma química." ("Escudos Humanos").

Poesia em versos muito livres, ritmicamente entrecortada, com recorrentes enjambements, coloquial, rente à prosa, mas que o lance precioso, a digressão sinuosa, a imagem inusitada por vezes tensionam: "Fumo um cigarro, envolvo-me/ na angústia suave de brancos lençóis./ Esperar-te-ei, na nudez desta solidão,/ no seu surdo clamor pela vertigem dos ossos?" Poesia de melancolia e desassossego, às raias do desespero, quase sempre adiado a golpes de sarcasmo e auto-ironia: "É o que se chama um ‘higiénico': latas,/ comida feita e embalada, whisky,/ cerveja ou vinho (quando não os três). (...) Escusava era de maçar a gente/ com o que sofre ou deixa de sofrer." Poesia informada, que retira de um constante diálogo com referenciais vários alguns de seus mais interessantes efeitos: "Estavas linda, Inês, e Camões/ decerto não se importará/ se eu disser que tinhas/ posta no lugar a carne inteira/ do meu futuro desassossego." Ou, em clave derrisória: "‘Rave on', disse ela. Mudam-se/ as drogas, mudam-se as vontades."

Lemos alusões, citações, paródias, que passam também por Cesário Verde, Pessoa, Eliot, Pound, Céline e tantos outros; excursões pela música erudita, com destaque especial para Bach (conferir, a propósito, Büchlein für Johann Sebastian Bach), onde, por vezes, vislumbra-se o raro momento de quase-redenção: "A música pode e não pode refrear/ a barbárie (...)"; referências a artistas populares, como Billie Holiday, Amália Rodrigues, Nick Cave, Blixa Bargeld etc. Há um evidente deleite com o mundo do que ainda se pode chamar "arte", que vem temperar o pendor angustiado de tantos poemas.

Assim, quando se nos deparam versos a compor um extremado capítulo das negativas ("Os mortos sabem-no./ A sabedoria é inútil./ A poesia também."), podemos até concordar com os "mortos" aí convocados, mas, relativamente aos "vivos", cabe desconfiar do que dizem. Sobretudo se poetas (ou "puetas").


Marcelo Sandmann é professor de literatura portuguesa na UFPR e poeta, autor de Lírico renitente (7Letras) e Criptógrafo amador (Medusa).

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K é um jornal mensal de crítica literária em suas mais diversas formas: resenhas, comentários, notas, ensaios, entrevistas, debates. Seu amplo corpo editorial guiará os trabalhos a partir de suas múltiplas preferências, descobertas e apostas, sem temer contradições. Como lema, a máxima de Kafka: "Tudo o que não é literatura me aborrece".
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ISSN 1981-3120 • Edição de outubro de 2007 • Tiragem: 1.000 exemplares • Distribuição gratuita.
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