| Os 300 de Esparta |
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Miller é um gênio dos quadrinhos. Bastaria lembrar de sua versão do Batman em O Cavaleiro das Trevas, da saga Ronin, do denso e cruel Sin City e do belíssimo álbum Elektra Vive, entre tantas obras-primas, para ilustrar sua importância para o universo do HQ. Seu traço é clean, preciso, e explora o contraste de ângulos e enquadramentos para sugerir dramaticidade e realismo. Com imagens fortes, ele vai do plano geral - às vezes em páginas duplas - ao detalhe de uma mão, um perfil, sem cortes bruscos e sobreposições forçadas, mas com design ao mesmo tempo equilibrado e ousado. Os roteiros são escritos com poesia e profundidade, sem cair na verbosidade desnecessária. A harmonia entre imagem e texto é uma das qualidades desse artista excepcional. No cenário mitológico da Grécia antiga, Miller reconstitui o drama, movido pela honra e o dever, de homens treinados para a guerra e a perfeição física, que acompanham cegamente seu líder à morte. O motivo que leva esses homens a uma empreitada suicida é o orgulho culturalmente arraigado que não aceita a sujeição. A luta é a essência da vida para os bravos espartanos, acostumados aos desígnios do Oráculo. Acontece que os deuses já começavam a se afastar dos homens e a realidade era invadida pelas mesquinharias da política. O Oráculo podia ser comprado com ouro e o destino pode ser manipulado pela vontade estratégica do homem. Miller dá uma mostra contundente de todos os detalhes que fazem da história um turbilhão de atos heróicos, guerras sangrentas e decisões dramáticas. Das meditações sombrias do rei, durante a noite, enquanto seus subordinados dormem, aos comentários isolados dos guerreiros que acreditam na vitória e vêem seu líder como a encarnação de um deus. Das lembranças de Leônidas, como que preparando-se para entrar para a eternidade, ao confronto final. A trajetória dos acontecimentos nos leva para uma viagem no tempo para uma época em que o corpo era realmente o suporte da realidade e a magia tinha tanto peso quanto a razão. Reynaldo Damazio Os 300 de Esparta, Frank Miller, Devir São Paulo, 2006, 88 pp., formato 33x24cm. |
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