|
Compor uma narrativa gráfica com mistério em uma nova ambientação sociopolítica é um trabalho original; conseguir aliar o argumento inteligente com os traços de um bom artista é espetacular. E uma série em quadrinhos, que chegou recentemente ao Brasil, consegue fazer isso, unir um bom texto com ilustrações impecáveis, com ritmo e energia.
A série em questão é Rex Mundi, com dois volumes lançados: O guardião do Templo (The guardian of the Temple) e O rio subterrâneo (The river underground), ambos lançados pela Devir. Criada por Arvid Nelson e Eric J., a história se passa na Europa dos anos 1930, onde a Igreja Católica mantem o poder sobre o continente e feiticeiros perambulam pelas ruas na calada da noite.
Nelson, em entrevista a Internet Review of Science Fiction, disse que foi influenciado ao criar a série numa viagem que fez a Paris: "Foi a primeira vez que eu tinha vindo para a Europa e que mudou radicalmente a minha visão daquele mundo. Toda a história que parecia ser tão aborrecida e remota no Ensino Médio e de repente se tornou viva." Assim, surgiu a idéia de construir uma história em que a Idade Média tivesse se estendido além da realidade histórica, com os motes da modernidade, e nasceu Rex Mundi. Inicialmente publicado pela Image, em 2003, logo foi republicado em 2006 pelo selo da Dark Horse, com volumes encardenados que reuniam as histórias anteriores. Os dois primeiros títulos lançados pela Devir repetem os volumes originais publicados pela a Image.
O que faz da série um trabalho de primeira linha é a abordagem histórica da narrativa, aliada ao mistério com tons góticos, no desenho do artista Eric J, que lembram os traços pesados da Image dos anos 1990, mas que dão ritmo à narrativa. A história nos leva ao ano de 1993 em Paris, numa realidade alternativa, onde a Reforma Protestante não ocorreu, e a autoridade máxima do estado ainda é a Igreja Católica. A polícia está ligada à instituição religiosa, como uma espécia de agente da Inquisição, punindo com extrema violência aquilo que pode ser considerado pecado. Na capital francesa, encontramos o protagonista da série, Julien Sauniere, um médico que descobre a existência de um misterioso códice medieval e mergulha um mistério complexo.
No primeiro volume, personagens e trama são apresentados, com o início da investigação do médico, motivado pela morte de um amigo. Como o personagem de Dan Brown em O código Da Vinci, Sauniere também encarna vários clichês, mas o arquétipo que ele represente atrai os leitores para o mistério da narrativa.
No segundo volume, a intriga e a investigação de Sauniere se complicam e o médico tem que enfrentar uma série de assassinatos brutais realizados por uma sociedade secreta devotada ao enigma do Santo Graal, algo que pode causar uma guerra de escala mundial.
Os dois volumes são apresentados, respectivamente, pelos quadrinistas Joshua Dysart e Scott Allie, que procuram situar os leitores no ambiente de misticismo, fanatismo religioso, rituais, conspirações, como ingredientes da série. A realidade que os dois autores elaboram, a partir de uma investigação profunda de fatos históricos, religiosos e bíblicos, dão coerência à fábula e oferecem elementos que enriquecem a leitura.
Segundo o jornal Los Angeles Times, o ator Johnny Depp poderá fazer o papel de Julien Sauniere na versão cinematográfica da série. Jim Uhls, roteirista de Clube da luta, escreverá a adaptação dos quadrinhos para a grande tela e Deep produzirá o filme por meio de sua companhia Infinitum Nihil.
Cadorno Teles, amontadense, 31 anos, professor, idealizador da Biblioteca Canto do Piririguá, resenhista e colaborador do Homemnerd, Bigorna.net, Amigos do Livro, Letras & Livros, entre outros. Especial para Weblivros |