| Em busca de tempo nenhum |
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Manoel Ricardo de Lima* ''Neste mundo há muita esperança, mas não para nós.'' Franz Kafka ''Os judeus são indubitavelmente uma raça, mas eles não são humanos.'' Esta frase é de Hitler. E virou epígrafe para um dos mais interessantes trabalhos acerca dos problemas do holocausto e, antes, dos cerceamentos porque passaram os judeus na década de 1930, década que em seu final tem início a Segunda Guerra. No meio de tudo, essa doença humana de ser dotado de razão, esta subjetividade, que provoca não aceitar ou deixar a diferença ser, que provoca o desmantelo e a inadequação e a guerra. Esta mesmo, a guerra, de todos os dias e de sempre, e que às vezes se assoberba, nos toma de assalto e fica mais evidente. O trabalho chama MAUS - a História de um Sobrevivente. Uma história em quadrinhos. MAUS narra os acontecimentos da vida de Vladek Spiegelman, na Polônia, um sobrevivente judeu do campo de concentração em Auschwitz, durante a segunda guerra, que se mudou para os Estados Unidos, e de Artie, seu filho, que é e tem sido, cada vez mais, um singular cartunista da América do Norte. Art Spiegelman desenhou os nazistas como gatos, os judeus como ratos e outros, bom, os outros todos são porcos. A Alemanha uma grande ratoeira. Este trabalho foi tomado, numa certa medida e ponto, não mais apenas como história em quadrinhos, mas também como outra coisa, é só pensar na liga de ajustes com os trabalhos de Will Eisner (o inventor das Graphic Novels, com livros notáveis como New York, O Edifício, Contrato com Deus etc) ou Robert Crumb (por exemplo, com o seu América, recentemente publicado no Brasil) para entender que este tipo de trabalho de fato sugere uma outra coisa. Literatura de vanguarda, naquele momento (a primeira edição americana de MAUS é de 1973. Depois, MAUS foi ganhadora do Pulitzer, a única historia em quadrinhos a ganhar este prêmio); arte gráfica de apontamento para frente. Mas enfim e para muito além da pobreza do conceito ou da categoria, porque isto não importa, mas sim o empenho de gesto que pode muito bem ser pensado como um outro lugar da literatura. O primeiro volume de MAUS foi publicado no Brasil pela editora Brasiliense em 1987. Ao mesmo tempo, Art Spiegelman tem colaborado com capas e capas e outros trabalhos de ilustração e cartuns para algumas revistas de arte, entre elas, The New Yorker, e ainda, outra publicações como New Yorker Review of Books e o New York Times. Foi editor da RAW, uma revista de vanguarda na área de quadrinhos, entre os anos 1980 e 1991, junto com sua mulher, Françoise Mouly (hoje editora da The New Yorker). Art também é professor na New Yorker's School of Visual Arts e mora em Manhattan, Nova Iorque, há alguns metros de onde ficavam as torres do World Trade Center. Este é o ponto. Retomando a linha da conversa, que principia sim em MAUS, Art Spiegelman abre o seu mais novo e belíssimo livro, “À Sombra das Torres Ausentes”, publicado no Brasil este ano pela Cia. das Letras, em quase tamanho da prancha de desenho - 35 cm por 48 cm (porque Art faz tudo à mão, e leva meses, até, pra terminar uma dessas páginas, daí só agora, este ano, a publicação do livro que ainda trata do dia 11 de setembro de 2001, com 10 pranchas de desenho) dizendo o seguinte: ''Tendo a ficar abalado facilmente. Pequenos contratempos - um cano entupido, o atraso para um compromisso - me deixam tão perturbado que parece que o céu está caindo. Pessoas com essa característica podem ficar sem saber o que fazer com o céu no dia em que ele realmente cai. Até 11/09 meus traumas eram mais ou menos auto-aplicados,mas fugir da nuvem tóxica que momentos antes pairava sobre a torre norte do World Trade Center me fez patinar na falha onde colidem História Mundial e História Pessoal - interseção sobre a qual meus pais, sobreviventes de Auschwitz, haviam me avisado quando me ensinaram a viver sempre de malas feitas.'' O livro é uma montanha de imprecisões e justas, claro, um refazer do percurso de quem estava ao lado, sempre, quase velando as duas fixas neopassantes baudelarianas, vedetes do mundo e do modelo americanos que são implodidos agora, outra vez, com a re-eleição de Bush e, antes, um tanto, com a afasia da invasão ao Iraque e com o não ver e não ver de quem olha o mundo apenas e apenas através de si mesmo. Art Spiegelman retoma o caminho, a primeira torre que cai, o encontro com a mulher, no meio da rua, a ida à escola para buscar a filha, o desafogo, o aperto no peito, o sufoco tóxico da nuvem de fumaça, os dias seguintes. O mais bacana de se pensar aqui, é que Art não conseguiu em nenhum desses grandes veículos que tanto solicitam o seu trabalho o espaço que precisava e do quanto que precisava para publicar esta série de pranchas. E aí, teve que voltar sua mira para veículos da Europa: França, Itália, Holanda, Inglaterra. A saída, e única, foi publicar a série em livro. A capa, da série em livro, é a mesma que foi feita na capa da The New Yorker - duas torres negras em tom mais escuro sobre um fundo também negro, logo depois do atentado. Assim, a série de pranchas em livro, dez, no total, com o proustiano título de À sombra das torres ausentes, traz ainda, em seu final, como complemento e discussão, uma inserção de outras histórias em quadrinhos publicadas em tempos outros, começo do século XX, que tratam um pouco dessas questões que tanto interessam a Art acerca do discurso esquizofrênico sobre o paraíso americano. Uma recuperação mesmo de gênios dos quadrinhos, como George McManus, autor das maravilhosas personagens Pafúncio e Marocas, a megera noveau riche e o proletário marido ganhador da loteria e bronco, sempre bronco, que numa viagem a Pisa tenta impedir que a torre caia, com escoras. E também como George Herriman, criador de Krazy Kat, um gato que adora ser esmagado por um tijolo que é jogado sempre por um rato, Ignatz, que por sua vez é perseguido por Offissa Pupp, um buldogue apaixonado por Kat, que arremessa o vilão, o rato, Ignatz, numa prisão feita, ora ora, de tijolos. E ainda, Winsor McCay, que desenhava mesmo algumas genialidades, como o seu Little Nemo, de 1905, que todas as noites viaja para um país de sonhos, com arquitetura barroca e cenário de circo; Winsor é talvez mesmo e de fato o primeiro grande gênio dessa linha de coisas todas. Para tanto, e não menos, o trabalho de Art Spiegelman, como um todo, sugere este ''olhar em câmera lenta'' ao que se vive, como ele mesmo quer que seja, e para que também se preste um pouco mais de atenção a este fato, simples, talvez, que o mundo desde quando e sempre está acabando. Que o mundo não é, que o mundo é um senão e somente uma invenção da gente, mas uma invenção que dói muito, muitas vezes. * Manoel Ricardo de Lima é escritor. Faz doutorado em teoria da literatura - textualidades contemporâneas - UFSC. Autor de As mãos (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003), entre outros. ____________________________ À sombra das Torres ausentes, de Art Spiegelman. São Paulo, Companhia das Letras, 44 p. Formato 25,4 x 35,6 cm. Tel. (11) 3707-3500. |
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