| Tercio Redondo |
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UM ANTIFAUSTO NO TEATRO DE ARENA Uma vida confortável, fruto do empreendimento industrial de sucesso, com direito à casa luxuosa, ao bom vinho e ao bom tabaco. Além disso, a garantia de privacidade nos momentos de ócio e a possibilidade de se afastar de uma atmosfera social contaminada pela insegurança. Pode-se resumir assim toda a ambição de Biedermann, a personagem que intitula o drama de Max Frisch, encenado pela primeira vez em 1958, em Zurique. A Cia. São Jorge de Variedades logrou uma notável adaptação do texto original, tratando de circunstanciá-lo no presente histórico da cidade de São Paulo, o que se percebe sobretudo nas manifestações do coro, o elemento épico introduzido por Frisch para se obter o efeito de distanciamento preconizado por Brecht.O drama de Biedermann começa ao se deparar com um desconhecido, Schmitz, que lhe pede "algo de humano", afirmando que ele é dos poucos que ainda conservam tal atributo. Lisonjeado, o protagonista mal percebe a ironia de seu interlocutor. As cenas seguintes se encarregam de demonstrar que tão humano quanto a virtude é o vício. No caso de Biedermann, a falta reside numa mescla de alienação e má-consciência. Vivendo numa cidade sitiada pelo medo, refém de um mal que se propaga, sem que se lhe conheça a origem, ele invoca o direito a "não pensar" e a manter a sua rotina intocada. Também não abre mão da prerrogativa de demitir um antigo e fiel empregado, sem lhe conceder qualquer compensação. Ao elogiar a "humanidade" de Biedermann, Schmitz abre uma fenda no muro que o próspero empresário erigiu para se isolar. Pois a máscara da generosidade insiste em cair, expondo a face de um homem inescrupuloso nos negócios e tíbio diante de suas responsabilidades sociais. Contando, a seguir, com dois inquilinos potencialmente perigosos dentro de casa, Biedermann vê-se incapaz de expulsá-los, pois são pobres e ostentam sua miséria como precioso trunfo diante da culpa do anfitrião abastado. Criado o impasse, Biedermann tenta ignorar o mal, invocando a necessidade de se restituir a boa fé e a confiança no próximo, e quando as evidências em contrário se acumulam, tenta obter alguma vantagem por meio de um acordo: já que a desgraça é inevitável, sejamos generosos com o inimigo, de modo a sermos poupados de seus desígnios. A cidade que padeça sozinha, desde que se salve a nossa casa. A Cia. São Jorge sustenta uma interpretação vigorosa da tragicomédia de Frisch, auxiliada por excelente tradução do texto original. Pena que a adaptação tão inspirada de alguns nomes não tenha sido levada a cabo para todas as personagens, causando certa estranheza que haja em cena um Schmitz ou um Eisenring, quando Gottlieb, o prenome de Biedermann, é trocado por Cândido e seu ex-empregado é tratado por Carneiro. A interpretação dos atores da Cia. São Jorge, contudo, ultrapassa as vicissitudes do texto e atualiza o drama, sem fazer concessões gratuitas à parafernália de efeitos cenográficos que vem assaltando os nossos palcos. À semelhança dos demais atores, ao interpretar a empregada dos Biedermann, a atriz (Mariana Senne) busca tão somente a dicção e o gesto apropriados, evitando a versão caricatural, mesmo nos momentos em que predomina o tom farsesco. Essa interpretação "econômica" vem acompanhada de um pudor salutar diante da tentação de se fazer alusão aos atos recentes de terrorismo ou às suas conseqüências mais imediatas, o que só mimetizaria o comportamento representado por Biedermann, o do indivíduo acomodado, que se compraz com o clichê e com a piada de ocasião A trajetória do anti-herói de Frisch revela diversos paralelos com o Fausto de Goethe. Não se trata, contudo de mera semelhança, pois em geral os sinais estão invertidos: Biedermann renega a sabedoria e a inquietação da juventude, preferindo a alienação e o sossego. Fausto, inebriado pela visão de um mundo que lhe promete paixão e aventura, assina decidido o acordo com Mefistófeles, enquanto a hesitação de Biedermann o impede de de um ato resoluto, e a assinatura do pacto se faz tardiamente e de maneira simbólica, na entrega dos fósforos a Eisenring - "em sinal de confiança". Ao invés de um prólogo no céu, Frisch acrescenta um epílogo no inferno. Porém, a diferença mais importante entre ambos se estabelece no saldo da vida que passou: Fausto se dá conta do enorme erro que cometeu, reconhece sua culpa na desgraça de Margarida, e se rebela contra a força demoníaca que o submete.Na entrada do inferno, Biedermann ainda insiste em sua inocência, com a única ressalva de que poderia ter infringido o sétimo mandamento, traindo a mulher - "não mais do que os outros", porém. Sabe-se da insatisfação de Max Frisch diante da recepção do público a seus dramas. Era-lhe intolerável que alguém pudesse rir de um tipo como Biedermann, sem que se percebesse rindo de si mesmo. O humor da peça deveria provocar mais o riso amarelo do constrangimento do que o a gargalhada satisfeita. Daí a introdução de um coro, elemento antidramático que interrompe a ação para interpelar diretamente o protagonista, quebrando o feitiço da ilusão em que imergimos, de modo a demandar a nossa reflexão e impedir a atitude descompromissada. Contudo, mesmo o recurso ao distanciamento crítico não diminui o ceticismo do dramaturgo suíço. O subtítulo do texto original, "Uma peça didática sem lição" (Ein Lehrstücke ohne Lehre), dá a medida da desconfiança de Frisch quanto às possibilidades de real apreensão do sentido moral e político do drama por parte do público. A ação é de fato didática, mas a lição se faz ausente pela falta de quem se habilite a encará-la. Para Frisch, a raiz dessa alienação encontra-se num projeto de falsa emancipação, que tenta separar em campos distintos cultura e sociedade, o que envolve entre outras coisas o desprezo pela militância política, em favor de uma pretensa ocupação com coisas mais elevadas. Em anotações tomadas na época do primeiro esboço de Biedermann, o autor salienta a necessidade de uma compreensão mais abrangente do fenômeno cultural: "Uma coisa é certa: a cultura não se limita ao campo da arte, e um povo não pode dizer de si mesmo que tem cultura pelo simples fato de que tenha produzido sinfonias". Do mesmo modo, indica as conseqüências danosas da despolitização: " - na política enxerga-se apenas o baixo, o ordinário, o cotidiano, com os quais o homem de espírito, de cultura, não deveria sujar as mãos", observando que aquele que não se engaja politicamente, assume justamente a condição que procura evitar, a de servir aos propósitos do partido dominante. Assim, a tarefa que a encenação de Biedermann impõe é maior que a representação tecnicamente adequada do drama. Ela exige dos atores e da platéia um compromisso com aquilo que a ação reclama: o abandono de uma situação passiva diante da tragédia social que se atualiza em nossa cidade, em nosso mundo, em nossa própria casa. :: Tércio Redondo, doutorando em Literatura Alemã na USP. |
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