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Sinval Medina PDF Imprimir E-mail
MITO MESTIÇO
por Ana Maria Ciccacio

É uma viagem lato sensu o novo romance do jornalista e escritor Sinval Medina, Tratado da Altura das Estrelas. Primeiro, porque transporta a um tempo remoto, o começo do século XVI, quando cravo e canela da Índia valiam ouro na Europa, mas arriscar-se numa viagem até o Oriente para adquiri-los seria o mesmo que aterrissar em Marte hoje em dia. Depois, porque nos faz embarcar na primeira volta ao mundo - a fantástica circunavegação da terra realizada por Fernão de Magalhães, que descobriu a passagem do Atlântico Sul para o Pacífico pelo estreito que acabou levando seu nome. Finalmente, porque nos mergulha no mundo dos mitos e dos sonhos - esse espaço misteriosamente impreciso entre a realidade e a ficção, remexendo no fundo do baú para de lá sacar o mito mestiço, fundador do Brasil.

Dois personagens, com existência historicamente documentada, ocupam o centro da narrativa. São eles o navegador português João Carvalho e seu filho, o mameluco Carvalhinho, que Sinval Medina, com a liberdade política que a ficção lhe confere, transforma no primeiro brasileiro, ou seja, o primeiro sujeito a nascer no Brasil com ascendência indígena e européia. Pai e filho seriam, assim, os grandes heróis de uma saga que estar completando 500 anos daqui a pouco, no ano 2000.

Carvalho pai, profundo conhecedor das artes de domar os domínios de Netuno em caravelas tão frágeis quanto a casca de uma noz, esteve três vezes no Brasil, logo depois de Cabral. Na segunda vez, vítima de um naufrágio na Baía de Guanabara, é salvo pelos gentios e tem um filho com uma bela adolescente da tribo que o acolheu. Mas ambicioso e aventureiro como era, logo trata de escapar à possibilidade de criar raízes. Em pouco tempo, abandona mulher e filho, e dá um jeito de retornar à Europa, ainda que, em Portugal seu pescoço esteja a prêmio e seja obrigado a se refugiar na Espanha.

Quando Fernão de Magalhães começa a recrutar marinheiros para a circunavegação, João Carvalho se engaja na frota porque seu sonho ‚ juntar riqueza bastante (no Oriente) para desposar uma tal de Inesinha da Madalena - o grande amor de sua vida - e assim devolver, bocado a bocado, as humilhações que o velho André‚ Ourives, pai da moça, o fez engolir com casca e caroço. Nessa época, até um marujo pé-rapado como ele, suspeito de sangue impuro (Carvalho descenderia de albanês com gitana, apesar de ter sido adotado pelo judeu português Abrão Usque), pode enricar e se enobrecer do dia para a noite. É só ter peito de se aventurar até‚ o Novo Mundo, onde se diz, há ouro bastante para tirar do limbo qualquer pobretão. Mas o destino não se desenha exatamente como ele sonha.

No caminho à procura da passagem para o Pacífico, e depois que a esquadra aporta no Rio de Janeiro, João Carvalho acaba reencontrando, contra a vontade, o filho Carvalhinho. O passado cobra seu quinhão como um agiota sedento. Mas Carvalho sai pela tangente, e renega o moleque. Mesmo assim, o garoto, então com 12 anos, aproveita a parada da esquadra para se meter clandestinamente numa das caravelas, em busca do pai que nem conhecia, mas soube estar na expedição. Sem nunca reconhecer o Carvalhinho como filho, o piloto, contudo, tolera o mestiço, que cai logo nas graças de Magalhães e seus féis servidores, entre eles Pedro Eanes e o escrivão Antônio Pigafetta.

Liberto da ordem cronológica, o romance enfoca a saga de pai e filho utilizando o recurso do flash back, com idas e vindas no tempo, a ponto de cada capítulo funcionar como peça de um quebra-cabeça, que aos poucos vai ganhando definição e lógica. É impossível não se comover com o sofrimento da marujada de Magalhães. A expedição, que partiu de Sevilha com cinco caravelas (Trinidad, Victória, Concepción, Santiago e San Antônio) em 1519, com cerca de 250 homens, retorna só dois anos e meio depois de muita fome, doença e terríveis batalhas com nativos de ilhas asiáticas.

"Só voltou uma vela, a Victória - todas as outras perdidas pelo caminho - e apenas 18 homens", entre os quais não estavam nem o comandante da expedição, que morreu na praia de Matan, nem o jovem Carvalhinho, nos conta Sinval Medina. Mas ainda assim, o empreendimento foi bem sucedido para a época. Apesar de tantas perdas humanas e materiais--, os porões da Victória voltaram abarrotados de cravo e canela-o suficiente para pagar e repagar a viagem, deixando ainda muito proveito para os armadores de então.

Historicamente falando, o mameluco Carvalhinho o primeiro brasileiro foi parar em Burnéu, no Extremo Oriente, mas nada mais se sabe dele. Medina, novamente embalado pelas musas, complementa a história. Faz o rapaz voltar ao Brasil. Mas não sem antes viver inúmeras aventuras. No centro do conflito mítico está o conflito do Velho com o Novo Mundo. Por meio do confronto do pai europeu com o filho brasileiro, o autor reelabora o mito edipiano, cruzando-o com o rito antropofágico, e assim obtém a equação do nascimento do Brasil e da cultura brasileira, como criação singular a partir de outras culturas que a formaram.

Aqui e ali, ao longo de todo o romance, são visíveis as referências eruditas desse processo antropofágico que moveu o próprio escritor. Sobram exemplos, mas o que mais chama a atenção parte das Mil e Uma Noites, que comparecem influenciando não só no episódio das desventuras vividas por Zora e seu filho Juan, mas também no entrevero amoroso-mítico experimentado por Carvalhinho na gruta da pitonisa Helena.

Melhor ainda, nas entrelinhas do livro se rememora a seqüência da aventura cosmopolita deflagrada pelos portugueses no fim do século XV, com a epopéia de Vasco da Gama imortalizada por Camões nos Lusíadas, e que continua no século seguinte não apenas com a chegada de Cabral ao Porto Seguro de Santa Cruz, mas também com a temerária viagem de Magalhães, patrocinada pelos reis católicos da Espanha, mas amparada pelo conhecimento dos de Lisboa em navegação.

Dentre os vários lançamentos recentes na linha do romance histórico, o de Sinval Medina se acha no mesmo nível de alguns livros de alto bombordo no gênero, como os de Ana Miranda (O Boca do Inferno) e João Silvério Trevisan (Ana em Veneza), já há mais tempo nas livrarias. Medina trabalhou em Tratado da Altura das Estrelas de 1988, quando ganhou bolsa da Fundação Vitae.

Ele conta que já em 1990 tinha a primeira versão pronta do romance. Mas não estava satisfeito. Entre pesquisa e trabalho de criação o livro tinha alcançado a espetacular marca de 800 páginas É um despropósito numa época em que a maioria dos títulos não ultrapassa as 150 e não se recomenda que um romance, mesmo de alto nível literário, vá além das 350. O jeito foi limar até chegar a pouco mais de 300 páginas, num esforço que todos que escrevem sabem ser muito complexo para qualquer autor. Mas o resultado compensa. O reconhecimento veio com o prêmio Passo Fundo de Literatura, no valor de R$ 100.000,00, recebido em agosto. Trata-se do maior prêmio literário do país em dinheiro.

Tem fôlego o quarto romance do gaúcho Medina, radicado em São Paulo desde 1971. Já nas primeiras páginas, sobressai a linguagem. Ela não é contemporânea, mas também não é seiscentista. No caso, a própria linguagem, pode-se dizer, é uma invenção - e como tal, uma maneira especial de contar a história. Seu eco barroco transporta, quase magicamente, para um tempo imemorial, o tempo mítico mesmo.

Se o Brasil é um país sem mitologia de fundação, por que não inventá-la? Sinval Medina, autor de outros três romances - Liberdade Condicional (Codecri, 1980); Cara, Coroa, Coragem (Nova Fronteira, 1982) e Memorial de Santa Cruz (Mercado Aberto, 1983) - se insere numa ousada tendência de mergulho nas raízes brasileiras, que tem produzido um romance híbrido de História e ficção, nos últimos anos. Não é um movimento organizado, mas alguns romancistas estão sentindo necessidade de inventar um passado, talvez porque o país do futuro só terá futuro um dia se realmente tiver um passado.
 
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