| Roberto Piva |
|
|
|
|
Antenas paranóicas de Roberto Piva Em 1963, o poeta Roberto Piva tornou paranóica a Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade. Errância lisérgica, inconformada, nas ruas de uma metrópole à beira do caos. Anjos e demônios em feroz disputa por almas que perambulam nas calçadas sujas, entre reflexos de néon, no labirinto de monumentos e parques. Piva transformou o pesadelo em imagens dolorosas e contudentes: "corpos de bebês mortos apontam na direção de uma praça vazia"; "as palavras cobrem com carícias negras os fios telefônicos"; "sobre os pavimentos desolados o firmamento está distante como nunca"; "os malandros jogam ioiô na porta do Abismo"; "há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo". Imagens que se desdobram, se interpenetram, se espalham pelas páginas de Paranóia (Instituto Moreira Salles, São Paulo, 2000) como fantasmas num pesadelo coletivo. Quase quatro décadas depois, o livro de Piva mantém impressionante atualidade. A violência, o absurdo, a desordem tomaram conta do real numa escala sem precedentes. Talvez o lirismo mínimo, desesperado, tenha sucumbido. Os anjos foram expulsos ou se tornaram zumbis. O mapa da ruína está impresso como documento e vaticínio no lirismo agressivo de Piva. Para o poeta, a palavra é sempre esperança de redenção. "Eu direi as palavras mais terríveis esta noite": assim abre o poema "Meteoro", como a preparar o leitor para uma catarse. Curiosamente o último poema do livro, este texto revela a agonia do poeta, que assume a condição de ser alucinado, cercado de "almas como icebergs". Piva dialoga explicitamente com Lautréamont, Dostoiévski, Rilke, Whitman, Rimbaud, Lorca, Artaud, Gide, Machado de Assis, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Murilo Mendes. A lista pode multiplicar-se em referências implícitas: surrealismo e beat generation, entre outras. A mistura vertiginosa de referências ganha na pena endiabrada de Piva formas e cores pessoais, em processo antropofágico de releitura. As referências atuam como intertexto, contaminando a reflexão, dando o tom do discurso, constituindo o material bruto que inflama a sensibilidade do poeta. Paranóia pode ser lido ao som de Miles Daves e Chet Baker, outras citações decisivas nos textos. As fotos do artista plástico Wesley Duke Lee estabelecem uma relação com os poemas que transcende a de mera ilustração. Ao tomar contato com os poemas, o artista ficou entusiasmado e saiu às ruas caçando imagens a partir dos textos. Há fotos que funcionam como metáforas, oferecendo analogias maravilhosas para imagens centrais nos poemas (como nas figuras meninos-anjos). Noutras, o recorte é metonímico, um detalhe do poema configura-se como totalidade na imagem capturada. Ou então, a foto traz um detalhe, um fragmento de cena, que traduzem a espinha dorsal do poema, seu eixo. O diálogo entre texto e imagem é impressionante. A contundência dos poemas de Roberto Piva não perdeu sua vitalidade com o passar do tempo e o leitor pode constatar a força e a variedade de sua produção mais recente no livro Ciclones (editora Nankin, São Paulo, 1997). A viagem iniciada em Paranóia continua, com outros cenários, personagens, desejos e alucinações. Reynaldo Damazio |
| < Anterior | Seguinte > |
|---|
| Casa de Rui Barbosa restaura e digitaliza coleção da revista "O Malho", que ficará disponível pela internet | |
| Ler mais... |
| A Pinacoteca do Estado apresenta exposição com cerca de 130 trabalhos de Eliseu Visconti (Salerno, Itália 1866 - Rio de Janeiro RJ 1944). A mostra destaca o pioneirismo e a importância de Visconti como designer e artista gráfico que, influenciado pela Arte Nouveau, produziu uma série de projetos de arte decorativa e aplicado à indústria. | |
| Ler mais... |
|
|