| Renata Barros |
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MEMÓRIA AFETIVA Espaços, ou melhor, cabeças vazias, mãos e lábios que quase se tocam, olhos que quase se cruzam, artista e espectador que quase se vêem. Tudo isso sob o manto de transparência, de materiais vivos que encerram "fatias" de corpos, lembranças e sensações. O olhar de perfil e o abandono da perspectiva direta já viciada, o ver-se na obra. Essa temática do "quase", do reflexo, do vazio angustiante que perpassa uma realidade complexa (revelada em fatias) dita as linhas de composição da artista plástica Renata Barros, cuja exposição "Leitura" (na Alemanha intitulada "Einsichten"), depois de passar por Bonn e Berlim, segue para São Paulo, onde fica até o final de abril. Desde criança envolvida com a produção artística, Renata teve sua primeira grande exposição individual - "Slices" (Fatias) - em 1991, no MASP. Em 96, a artista rumou para Berlim e Dresden com a exposição coletiva "Organicus". Desde então, mantém relações estreitas com a Alemanha, onde foi beneficiada com uma bolsa de estudos na Fundação Heinrich Böll e também montou, em 97, na então capital federal Bonn, a mostra individual "Süsstoff" (Adoçante). Nesta mais recente exposição, Renata dá continuidade ao seu trabalho com materiais "frágeis" como o vidro e a fotografia, sem contudo abandonar elementos freqüentes em sua obra como a madeira e o látex, que segundo a artista são adequados para a representação do corpo humano, pois assim como a carne, envelhecem, atribuindo ao trabalho uma essência de certa maneira viva. Faces (sempre iguais, embora de texturas e materiais diversos) se repetem e afunilam, formando um túnel no fundo do qual, ou uma multidão em meio da qual, aquele que observa o conjunto quase em movimento vê seu próprio reflexo ou depara-se com o olho do outro que o espreita. Vivas e extremamente frágeis são também as palavras, frases e pensamentos - nem sempre da própria artista, mas em sua totalidade de teor autobiográfico - gravadas em corações ou livros de vidro, que nas palavras de Renata "encerram sua memória afetiva". O "ver-se", o "representar-se", o choque com o eu e o estranho dominam o universo de preocupações da artista, aparecendo em suas composições principalmente por meio de reproduções de olhos humanos e da utilização de materiais como espelhos. Além das transparências, espaços vazios e materiais que se decompõem, Renata inova com a criação de imagens com fios e agulhas, que embora de aspecto agressivo, rompendo com a suavidade presente em grande parte das obras expostas, não deixam de ilustrar a fragilidade, principalmente do corpo, ou da vida, diante de uma ameaça física e mortal. Cabe ainda ressaltar que, conforme denota seu próprio nome ("Leitura"), essa exposição tem grandes afinidades com a literatura (já que a palavra escrita pode também ser considerada um dos materiais presentes na produção de Renata). Não é por acaso que se lê na composição denominada "Livro Poema" um fragmento do livro Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector: "Vi uma nuvem pequena/Coitada da minhoca/acho que ela não viu". De todos seus trabalhos, pode-se extrair ao menos um componente poético: a multiplicidade das maneiras de se ver, a reorganização dos conceitos segundo uma ordem autêntica, por hora repulsiva, por hora dotada de uma leveza tocante. A mostra "Leitura" deve ser vista ou "lida" como uma coletânea de poemas, cujas páginas ou "fatias" compõem um todo complexo e transparente, que encerra o reflexo de cada um, e, talvez, também a única possibilidade em que o "quase" que impede o encontro com o eu e com o outro, que impossibilita a exata expressão do que se sente, que obstrui o contato com uma totalidade distante e desejada, pode ser traspassado ou, ao menos, amenizado. :: Maria Cristina Elias, de Berlim, especial para Weblivros. |
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