| Raquel de Queiroz |
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RAQUEL DE QUEIROZ (Fortaleza, Ceará, 1910-2003) A escritora Raquel de Queiroz poderia muito bem entrar para a História como uma pioneira do feminismo. Vivendo na fazenda dos pais em Quixadá, a 170 quilômetros de Fortaleza, começou a colaborar no jornal O Ceará aos dezessete anos. Em 1930, com vinte anos, já era jornalista profissional e ainda trabalhava como professora, o que lhe garantia um rendimento considerável para os padrões da época e da região. Como se não bastasse, escreveu nesse período o romance O quinze, obra que não só a projetaria como escritora em todo o país, como daria um novo rumo à literatura brasileira de teor regionalista. Ao terminar a leitura daquele magro romance, o escritor Graciliano Ramos não acreditou que fora escrito por uma mulher. As circunstâncias que a levaram a escrever seu livro mais importante são curiosas. Padecendo de uma séria congestão pulmonar, com suspeita de tuberculose, a jovem de dezenove anos tinha que se submeter a um rígido tratamento. A mãe a obrigava a deitar-se cedo, antes das nove horas. Como Raquel não tinha sono, decidiu anotar em seus cadernos, à luz de lampião, um romance sobre a seca, comovida pelo flagelo que presenciara em 1915, com apenas quatro anos de idade. A edição de mil exemplares foi custeada pelos pais, que “emprestaram” à filha os dois contos de réis necessários. No Ceará a crítica não deu muita atenção ao romance, mas com os elogios de Mário de Andrade e de Augusto Frederico Schmidt, Raquel de Queiroz se transformou numa celebridade literária. O sucesso de venda da primeira tiragem garantiu o pagamento do empréstimo aos pais. No ano seguinte à publicação de O quinze, a escritora recebeu no Rio de Janeiro o prêmio de romance da Fundação Graça Aranha. Na categoria poesia, o vencedor era Murilo Mendes. Nessa viagem ao Rio, ela faz contato com integrantes do Partido Comunista e ao voltar a Fortaleza, colaborou ativamente na fundação do PC cearense, chegando a ser fichada como “agitadora comunista” pela polícia política de Pernambuco. O namoro com o partido, porém, durou pouco. Em 1932, ao ser informada de que o romance João Miguel, no prelo, não seria aprovado, a escritora rompe com o PC. O livro é publicado, Raquel se muda para São Paulo e liga-se ao grupo trotskista. Em 1937, no início do Estado Novo, Raquel lança o romance Caminho de pedras. Seus livros são queimados em Salvador, com os de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Ficou presa durante três meses numa sala de cinema do Corpo de Bombeiros de Fortaleza, por sua militância política. Em 1939, separou-se do primeiro marido, José Auto da Cruz Oliveira, mudou-se para o Rio de Janeiro e publicou As três Marias. No ano seguinte, passou a viver com o médico Oyama de Macedo, relacionamento que duraria até 1982, com a morte do companheiro. A notícia do assassinato de Trotski, sob ordem de Stalin, provocou seu afastamento definitivo da esquerda. Passou a colaborar em vários jornais cariocas até tornar-se cronista exclusiva da revista Cruzeiro até 1975. Produziu cerca de duas mil crônicas, muitas das quais selecionadas e publicadas em livro posteriormente. Nos anos 50 escreveu peças de teatro. Em 1957, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. E foi nessa instituição, em 1977, que Raquel de Queiroz voltou a exercitar sua vocação para o pioneirismo, como a primeira mulher a ser eleita entre os “imortais” da literatura brasileira Seus livros foram traduzidos para o inglês, francês, alemão e japonês. Escreveu também literatura infanto-juvenil, livros didáticos e fez numerosas traduções. Publicou ainda os romances Dora Doralina (1975), O galo de ouro (1985) e Memorial de Maria Moura (1992). A adaptação de seus romances para a televisão tornou-a ainda mais popular e o leilão de editoras pelo direito de publicação de suas obras completas rendeu-lhe cento e cinqüenta mil dólares. Nada mau para uma autora que confessou não gostar de escrever e que se dizia mais jornalista do que escritora Despojada e humilde, Raquel de Queiroz se autodefinia: “Eu não faço grande uso de mim mesma, e, portanto, da minha chamada ‘obra’. Eu fiz uns livrinhos, estão aí, tomara que as pessoas continuem gostando”. Com a mesma serenidade que parece tê-la acompanhado ao longo de seus 92 anos de vida, Raquel de Queiroz morreu enquanto dormia, de infarto, no dia 4 de novembro de 2003. Reynaldo Damazio |
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