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Poesia em alta

Para o leitor que gosta de poesia, o momento não poderia ser melhor. Estão à disposição no mercado brasileiro lançamentos que devem fazer parte de uma boa biblioteca do gênero, além de permitirem leituras profundas sobre questões que inquietam os seres humanos não apenas na atualidade, mas em todos os tempos.

Com a edição de Poesia de François Villon (Edusp, São Paulo), traduzida e comentada por Sebastião Uchoa Leite, é possível conhecer com maior acuidade a obra desse fascinante poeta francês do século XV, que tem despertado maior interesse por sua biografia desregrada e próxima do banditismo, quando na verdade foi um grande criador, talvez aquele que represente a transição da poética medieval para a moderna. Ou como define seu tradutor, "um poeta crítico, filho de um tempo em crise". A tradução é impecável, respondendo com soluções criativas ao desafio imposto pela linguagem cifrada, múltipla em referências, irônica, os torneios estruturais, os jogos com expressões de duplo sentido etc. Amante de prostitutas, apreciador de um bom vinho, amigo de bandidos, Villon fez de sua poesia um testemunho ácido e debochado de seu tempo, de suas hipocrisias e contradições. Soube unir com raro talento a crítica de uma sociedade em transformação com a inventividade da escrita.

Saltando cinco séculos, chegamos à poesia de Haroldo de Campos. Seu livro mais recente, A máquina do mundo repensada (Ateliê, São Paulo), é composto de um longo poema em tercetos ao estilo de Dante na Divina comédia, com quem aliás o poeta vanguardista dialoga. Além da Comédia, o poema de Haroldo também está relacionado com Os Lusíadas, de Camões, e com o poema "A máquina do mundo", de Carlos Drummond de Andrade, um dos mais belos e complexos de sua obra. A máquina construída por Haroldo nos leva a uma viagem poética da origem do universo à fundação, e invenção, da América. Travessia no tempo físico e filosófico, culminando com reflexões sobre os sentidos de estar no mundo, como um minúsculo grão na imensidão do cosmos e dos signos.

Depois de quase doze anos sem publicar, o poeta Ferreira Gullar lançou Muitas vozes, reunindo poemas de extrema beleza e de apurada construção. Poemas que falam do cotidiano, de questões existenciais, da memória, reflexões agudas sobre literatura e sobre arte. Gullar chega aos setenta anos de existência, cinqüenta de carreira, com uma vitalidade impressionante, comovendo com uma escritura incisiva, cristalina e forte. Se o poeta escreve "a partir do espanto com a realidade", o livro Muitas vozes faz com que o leitor não apenas partilhe deste espanto como também experimente formas variadas de se espantar com as belezas e mazelas da vida.

O poeta Francisco Alvim, um dos nomes de destaque da geração de poetas brasileiros surgidos na passagem dos anos 60 para os 70, lançou o bonito e despretensioso Elefante (Companhia das Letras, São Paulo). Os textos de Alvim arrancam da coloquialidade e das falas ordinárias do dia a dia um caráter epifânico, um tom filosófico, ou um recorte crítico e irônico. O contraponto da obra de Alvim é a poesia de Carlos Drummond de Andrade, e seu estilo traz um novo alento à desgastada tradição da literatura modernista brasileira.

Glauco Mattoso chega ao quarto volume de sonetos, Panacéia (Nankin, São Paulo), mantendo a corrosividade e o talento que fazem de seu trabalho o mais intenso libelo iconoclasta da atual poesia brasileira. Explorando agora novas variantes para a consagrada forma do soneto, Glauco não poupa instituições, personalidades, tabus, nem a si mesmo. Com sua pena cortante vai rasgando o manto hipócrita do bom tom e mostrando com musicalidade e inteligência o lado negro do ser humano e da história, aquela região de sombras e fantasmas que as regras sociais e o superego tentam desesperada e inutilmente sufocar. Ler os sonetos de Glauco Mattoso é um desafio. Não lê-los, um desperdício irreperável.

Completando a lista, sai finalmente no Brasil uma mostra significativa de textos do poeta português Herberto Helder, O corpo o luxo a obra (Iluminuras, São Paulo), talvez o nome mais importante da poesia portuguesa contemporânea, ao lado de Fernando Pessoa. Autor de linguagem próxima ao surrealismo, de intensa plasticidade, que explora os aspectos lúdicos do pensamento e da realidade e que recusa interpretações. Um poeta que busca nomear e renomear as coisas à exaustão, refundando os significados de objetos, seres e sensações em cada verso. Este é, sem dúvida, um dos mais importantes lançamentos em poesia dos últimos tempos no mercado editorial brasileiro. Absolutamente imperdível.


Reynaldo Damazio
 
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