| Plinio Marcos |
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Do circo para a vida Com a morte do escritor e dramaturgo Plínio Marcos (1935 - 1999), o teatro brasileiro contemporâneo perdeu um de seus nomes mais importantes, equiparado em grandeza ao de Nelson Rodrigues. Talvez seja prudente acrescentar à dupla, porém em segundo plano, o nome de Dias Gomes. O resto é besteirol.Se Nelson Rodrigues pôs em cena um país de fantasmas sombrios, revelando flashes do inconsciente coletivo atormentado por pesadelos freudianos e sociológicos; Plínio Marcos trouxe para o palco a linguagem crua e palpitante da miséria, da prostituição, da marginalidade, arrancando da escória traços de humanidade. Suas peças, contos e romances-reportagens não mistificam o real, mas o reviram pelo avesso e demonstram um conhecimento profundo de seus meandros e segredos. Para quem começou no circo, como palhaço, Plínio Marcos aprendeu desde cedo a poesia dos contos populares, em seu estado menos elaborado, espontâneo, o jogo cenográfico da magia com a pobreza. Foi também no circo que aprendeu a jogar tarô. O contato com o teatro de verdade aconteceu meio por acaso, ao substituir um ator doente na peça "Pluft, o fantasminha", de Maria Clara Machado. Quem o descobriu foi Patrícia Galvão, Pagu, grande musa modernista. Ao ler seu primeiro texto, Pagu imediatamente o comparou a Nelson Rodrigues. Obviamente, Plínio Marcos não o conhecia. Sua primeira peça, "Barrela" (1957) escrita aos 22 anos, foi inspirada na história real de um garoto que era seu vizinho, em Santos. Estuprado na cadeia, o menino matou, tempos depois, todos aqueles que o sodomizaram. A peça estreou no Centro Português de Santos, com atores que fariam história: Milton Gonçalves, Joel Barcelos e Fábio Sabag. Foi vetada pela censura, inaugurando um trajetória de proibições. Em seguida, veio uma seqüência de textos cruciais para história do teatro brasileiro e que se chocam com o período obscuro dos anos 60: "Dois perdidos numa noite suja", "Abajur lilás", "Navalha na carne". Peças que foram classificadas como "duras e cruéis", pelo crítico Décio de Almeida Prado. Superando a perseguição da censura e insistindo na criação de um teatro que funde denúncia e utopia, Plínio Marcos deu continuidade à produção de textos contundentes: "O poeta da vila e seus amores", "Homens de papel", "Jornada de um imbecil até o entendimento", "Quando as máquinas param". Plínio Marcos nunca dourou a pílula, nem se adequou ao status quo. A conduta coerente com sua obra e visão crítica da realidade brasileira resultou no estúpido rótulo de "marginal". Mas Plínio tinha um compromisso radical com o ser humano que a sociedade marginaliza, com uma fatalidade brutal. O seu teatro abria talhos na consciência do público. As peças que eram censuradas no Brasil faziam sucesso em Nova York, Paris e Buenos Aires. Ganhou a vida, durante muito tempo, vendendo seus livros na rua. Com a abertura política e as mudanças que trouxeram nova fisionomia para o teatro brasileiro, os textos de Plínio deram certa guinada para o lado religioso e místico, como "Jesus homem", "Balada de um palhaço" e "Madame Blavatsky". Sua ligação com o tarô se aprofundou. Apesar das questões sociais e políticas continuarem como pano de fundo, a religiosidade ocupa terreno. Não é apenas nas peças que a força de expressão de Plínio Marcos se destaca. Livros de prosa como "Querô, uma reportagem maldita", "Na barra do Catimbó", "Prisioneiro de uma canção", entre outros, são considerados obras importantes, por sua linguagem e temática. Plínio Marcos não completou o curso primário e dizia que escrevia quando estava incomodado com alguma coisa. Seus textos incomodaram muita gente, e é justamente desse incômodo que sobrevive a boa literatura. Ele soube traduzir com sinceridade e beleza as falas dos que ficaram à margem da sociedade. Ele nunca foi um marginal. Esteve sempre, como poucos, profundamente mergulhado na realidade, aquela que está além dos adjetivos fáceis e das tiradas engraçadinhas. |
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