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Orlando Villas-Boas (1943-2002) PDF Imprimir E-mail
MORRE O PROTETOR DO XINGU: ORLANDO VILLAS-BÔAS (1914-2002)
 
Faleceu no dia 12 de dezembro de 2002, de complicações cárdio-respiratórias e intestinais, Orlando Villas-Bôas,. A vida do sertanista se confunde com a dos índios brasileiros, povos que soube amar e defender como um anjo da guarda de carne e osso. Ao lado dos irmãos Cláudio e Leonardo, desbravou a região central do Brasil nos anos 40, estabeleceu contato com tribos desconhecidas, muitas delas hostis, lutou pela preservação indígena e criou a reserva do Xingu.

Orlando Villas-BôasNascido no interior de São Paulo em uma família tradicional, Orlando e Cláudio decidiram abrir mão do conforto e embarcar numa aventura pelas matas brasileiras. Em 1943 alistaram na Expedição Roncador-Xingu, de origem militar, com o objetivo de abrir caminho no oeste do país para a colonização. Após três mil quilômetros de picadas rasgadas na selva, ao longo de três duros anos, o grupo chegou ao norte do Mato Grosso e encontrou, pela primeira vez, os índios do Alto Xingu. O contato foi revelador. Para os irmãos Villas-Bôas nascia o compromisso, para o resto da existência, de tentar entender e proteger aquela gente da civilização predatória que os próprios desbravadores representavam.

Atuaram como exploradores, cientistas, políticos, antropólogos e pensadores. Revelaram para o país a riqueza de povos ancestrais de nossa cultura que estava oculta naquele imenso labirinto de selvas. Passaram por privações, desconforto, pegaram malária, estiveram sós e enfrentaram a incompreensão de políticos e instituições. As viagens continuaram e na esteira daquela expedição muitas cidades e vilas nasceram, como Barra do Garças, Xavantina, Matupá, Canarana, Vale dos Sonhos, entre outras. De 1949 a 1950, os irmãos cortaram novas trilhas na mata fechada até encontrarem novos índios, os Kayabi, nas águas do rio São Manoel. Quando possível, abriam clareira para servir de pista para avião. Até acidente aéreo sofreram, escapando da morte por muito pouco. No final de 1953 continuaram as buscas dos índios Txukarramãe, até encontrá-los nas barrancas do rio Xingu.

Nos anos cinqüenta começaram a surgir os problemas com invasão e compra de terras indígenas por aventureiros inescrupulosos, provocando conflitos. Graças à atuação dos irmãos Villas-Bôas, o governo federal acenou com o apoio à idéia de criação de uma reserva indígena. Esse projeto se tornou realidade nos anos 60. Em 1960, foram encarregados de marcar o centro geográfico do Brasil. Descobriram que no centro do país havia uma árvore de jatobá. No ano seguinte, foi criado o Parque Nacional do Xingu. Em 1968 a área da reserva foi ampliada para 26.000 km ², representando um avanço incalculável para o ideal de preservação dos povos indígenas. A atuação incansável em favor dos índios e de sua cultura resultou em duas indicações para o Prêmio Nobel da Paz. Em 1967, Orlando recebeu a Medalha de Ouro dos Fundadores dada pela Sociedade Geográfica Real.

Os irmãos Villas-Bôas souberam entender que a integração com o homem dito civilizado poderia ser mortal para os índios. O que teria sido de tantos desses povos se os jovens aventureiros não tivessem se envolvido naquela "marcha para o oeste"? O irmão Leonardo deu literalmente a vida pela causa indígena, quando faleceu em 1961, vitimado por complicações cardíacas provocadas por doenças tropicais adquiridas durante a implantação do Parque do Xingu. Segundo a fotógrafa Maureen Bisilliat, Orlando foi "um poderoso e exuberante ser humano de magnânimo espírito gregário e imenso vigor; com olhos que tudo vêem e um esplêndido senso de humor que sabe transformar, em termos sensíveis e hilariantes, os altos e baixos da vida". Orlando Villas-Bôas deixou alguns livros importantes sobre sua experiência como sertanista e sobre a cultura dos índios que procurou entender e defender, como Xingu: o velho Káia, Kuarup:Xingu - os contos do Tamoin, A arte dos pajés, A expedição Roncador-Xingu, entre outros.


Reynaldo Damazio
 
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