| Max Martins |
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FLOR E PEDRARIAS Tarso de Melo Há um Max Martins que conhecemos: aquele parceiro do poeta Age de Carvalho em A fala entre parêntesis, livro escrito à maneira de renga e incluído no volume ROR, em que Age reuniu sua obra até então na prestigiosa coleção Claro Enigma, editada pela Duas Cidades. A parceria, sem dúvida, resultou num belo conjunto de poemas, mas que é apenas a ponta de um iceberg constituído por mais de uma dezena de livros. E há um outro Max Martins, aquele que faz falta às dispensáveis listas de maiores poetas daqui e dali, de hoje e de ontem. Sim, repito, dispensáveis, mas, já que insistem em existir, delas deveria constar o nome deste poeta nascido em 1926 em Belém do Pará. Uma ressalva, aqui, merece ser feita: o fato de Max Martins, na sua longa vida na poesia, não ter procurado (até onde sei) os caminhos editoriais do eixo Rio-São Paulo, fez com que seus livros todos passassem estranhos à poesia produzida no Brasil de 1952 (ano de estréia do poeta) até hoje. Mesmo com reedições de suas “obras completas” como a de 1992, em Não para consolar, e esta que há pouco a Editora da Universidade Federal do Pará colocou nas estantes: Poemas reunidos: 1952-2001. O livro agora reúne toda a produção de Max Martins (inclusive o citado A fala entre parêntesis, com Age de Carvalho), mais um livro novo, Colmando a lacuna, com sua produção até 2001, tudo isso apresentado por um longo ensaio de ninguém menos que Benedito Nunes, amigo pessoal de Max desde a adolescência, quando o crítico também se arriscava na poesia numa turma que incluía Mário Faustino e outros. O texto de Benedito Nunes, uma análise, sim, mas com muito de depoimento, revela em detalhes o progresso dessa turma que, como é fácil perceber, era bastante promissora. Em meio a eles, havia Max Martins. Max não se destacou como Benedito Nunes, um dos mais importantes professores e críticos entre nós, nem como Mário Faustino, que numa passagem relâmpago - poeta, tradutor, crítico e incansável divulgador de poesia na sua mítica “Poesia-Experiência” - fez o suficiente para gravar seu nome em qualquer repertório sério da literatura moderna no Brasil. Max fez um percurso muito diferente: de 1962 até 1990 foi inspetor administrativo e bibliotecário da Fundação Nacional de Saúde, sempre em Belém, onde atualmente divide sua vida “entre o amor pela família e o trabalho na Casa da Linguagem com a amiga (também escritora) Maria Lúcia Medeiros, os intermináveis saraus na casa do amigo Benedito Nunes, um ou outro copo de vinho com os amigos no Bar do Parque, sua cabana na praia do Marahu, na ilha do Mosqueiro, as idas ao velho continente para visitar o também amigo e eterno parceiro de poesia, Age de Carvalho”, como afirma a prof. Ângela Maroja à orelha do livro. Mas é possível perceber nos seus Poemas reunidos que Max nunca duvidou da poesia e manteve sempre com ela uma relação muito viva, não deixando que seu relativo isolamento (ainda que esta palavra pareça muito pesada) implicasse em uma poesia também isolada. Entretanto, como sua presença é muito silenciosa (de modo injusto, mas aparentemente voluntário), deixemos este espaço para que a poesia de Max Martins se apresente: proponho, assim, uma espécie de “resenha-antologia” cruzando sua obra desde 1952, com O estranho, quando o poeta chega (em livro) ao mundo: Do poema da infância, I Que cabelos prende o laço róseo flutuando entre nuvens? (A menina do laçarote é loura, morena ou rica?) Em que mala estará a Pierrot cor de jerimum? Velocípede - revolução - Felisberto de Carvalho - Angelita dos quadris morenos e peitos em embrião Não me vejo menino sem Marieta. Vê-se, aí, um poeta cuja influência de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes é clara - o ponto de vista do poeta diante da vida, na verdade, parecia fundir as duas influências ao lançar o enfado de Drummond (por exemplo, o de “Cidadezinha qualquer”) na típica vertigem do olhar que Murilo empreendia a seus objetos. Aliás, Max, no poema acima, lembra muito de perto o Murilo voyeur de diversos poemas em que focaliza uma certa descoberta da libido na distante Juiz de Fora. Em 1960, quase dez após a estréia, o poeta lança seu segundo livro, Anti-Retrato, e volta a situar no horizonte de seus textos a idéia de estranhamento: o interlocutor a que o poema se dirige pode ser visto, sem muita ginástica, como a própria poesia, com cuja dor e perigos o ainda jovem poeta Max Martins (com pouco mais de trinta anos) se “corrige” e alimenta um “uso particular, estranho”: O estranho Alheio - contudo tão próximo. Em ti busco a dor que me corrige na tarde em um a um dos teus perigos que reduzo em flor para meu uso particular, estranho. O teu grotesco na impossibilidade de me deter já me consola. Ajusto as botas que me levam ímpar calejado, de gravata e triste. Este, quase, já era Max Martins: “Alheio - contudo tão próximo”, mas ele chegaria mesmo à voz dura de sua poesia apenas no seu livro de 1971, H´era, com poemas de uma densidade imagética e sonora sem muito parentesco na poesia produzida por sua geração (claro, situá-lo em geração é um tanto impróprio, mas é importante ter em mente que Max Martins é apenas um pouco mais novo que João Cabral de Melo Neto e da mesma faixa etária que, entre outros menos famosos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Augusto de Campos, José Paulo Paes e Ferreira Gullar), como este: Amor: a fera Amor: a fera no deserto ruminando esta lava dentro do peito dentro da pedra dentro do ventre amor lavra na planura rastejando sulcos de febre-areia planta no teu sexo o cacto que mastiga o falo que carregas sobre os ombros como um santo um juramento esta serpente O poema, para Max Martins, já nesta época ganha a feição que possivelmente até os livros mais recentes o distingue: o poema, para ele, é este espaço tenso - o amor é fera, lava, febre, cacto, serpente. O curso de cada poema seu é tenso; a evolução de sua obra é tensa. Daí ter razão Benedito Nunes ao afirmar que “a poesia de Max, longe de ter tido um curso evolutivo tranqüilo, desenvolveu-se aos sobressaltos, descontinua-mente, em surtos de criação que formam sucessivos ciclos”, sem, contudo, deixar de notar, com igual razão, que “Não obstante as transformações por que tem passado, um fundo de originalidade distintiva interliga as diferentes fases dessa poesia, atravessando suas crises. A descontinuidade da evolução acoberta a continuidade de certas matrizes ou constantes, perduráveis, com modificações, em seus diversos ciclos”. Mesmo quando Max Martins, em seus livros mais recentes, adota um referencial Zen, em poemas perpassados por koans originalíssimos, não se perde este conteúdo tenso, ou seja, o motor de sua evolução continuaria a ser a crise permanente que o poeta se impõe diante da linguagem e de seus temas. No livro de 1980, O risco subscrito, decerto após alguma boa crise daquelas a que o crítico se refere, escreve: Glifo Se escrevo: o corvo (neste galho seco) estorvo o céu de sua verdade azul-primeira E o vôo travo negro no branco Turvo-o Pois que escrevendo o cor- (voraz hieróglifo) - isto não é um corvo ou um cavalo mas um nome descarnado: o homem que assino em cruz e em palha habito escrito Ou o túmulo de um desconhecido (oculto) osso tíbio É o mesmo Max, como sempre andando sobre o fio tênue que o leva de um livro a outro, sendo ladeado por aquela continuidade e por aquela descontinuidade apontadas por Benedito Nunes em seu texto esclarecedor, republicado agora como prefácio à edição dos Poemas reunidos, mas escrito em 1991 e originalmente publicado no volume que reuniu a poesia de Max no início dos 1990, Não para consolar. Assim o poeta chega, também, a Caminho de Maharu, em 1983, quando emplaca esta definição: (poesia) Teu nome é não em cio e som farpados Cilício escrito, escrita ardendo, dentro se revendo fera do silêncio úmido se lambendo, lábil labiríntima lâmina se ferindo se punindo Tomado por esse “Cilício escrito”, Max Martins, às vésperas de completar sessenta anos de idade e trinta e cinco de poesia, em 1985, lança os poemas de 60/35: Negro e negro Sem tom nem som - não tonsurada Oculta de si própria e de seu nome cega no seu ovo a letra- aranha sonha sabe: Guarda o silêncio antes do incêndio Max Martins espalha por seus poemas diversas dicas para a interpretação de seu modus operandi. No poema acima, por exemplo, ao dizer que “a letra-aranha”, num texto marcadamente metalingüístico, “Guarda o silêncio / antes do incêndio”, é bastante claro com relação à poética que construiu até então e que ainda desenvolve. Aproximações entre o fazer artístico e a “técnica” das aranhas já foram bastante exploradas (numa canção de Caetano Veloso, num poema de Paulo Leminski), mas Max não se contenta e, na sua analogia, a aranha não é o poeta, mas a própria letra: não é o poeta que tece o poema, é o poema que tece a si mesmo, num jogo de ocultações entre silêncio e incêndio. Marahu Poemas, de 1991, revela outro jogo: Detrás de tudo para João Mendes Entre ferrugens pontas de cigarros lata vazia de Coca-Cola restos cocô de gato lírios O poeta, ao revelar a flor entre detritos, revela muitas outras coisas de sua postura diante da vida, do mundo, do homem, da poesia. Num outro arco, por exemplo, neste gesto pode ser lida alguma esperança com relação a soluções para aquele “rancor da idade na carga do poema” a que ele se refere em outro texto. Assim, a marca que ele descerra nos seus poemas mais recentes, os de Colmando a lacuna, de 2001, é a de um poeta que, com os precisos e reiterados golpes de sua linguagem, consegue encontrar alguma respiração entre os maciços destroços de nossa condição atual, como neste poema em que Max arrola os “bens” de sua cabana-exílio: Marahu : primeira relação 2 formigas - operárias ápteras ou novatas, não de fogo mas noturnas, doces 1 grilo (depois aprisionado pela aranha, morto ao amanhecer) O canto dum galo e outro galo A saracura. A tarde 2 gaviões molhados encolhidos no pau da árvore pensos Garças sobre as pedras negras da praia Os urubus o boto morto um cão medroso, sapos sapos sapos 1 goteira sapos chuva o sol vindo do mato às 7 da manhã A noite a escuridão o vento as velas de Lao-tsé Thoreau e o meu cajado de bambu rachado o chão folhas úmidas Sua poética, Max Martins já a definira num “Soneto” de seu primeiro livro: “os universos / Que transfiguro em flor e pedrarias” - daí em diante o que fez foi afiar as ferramentas, seja inicialmente com o diálogo formador com Mário Faustino, Benedito Nunes e outros, seja nas últimas décadas em seu constante entretecer de falas com o jovem Age de Carvalho. Depois de muito trabalho transfigurador, tal conjunto de “flor e pedrarias” certamente faz de Max Martins, perto de completar oitenta anos, um poeta muito maior do que seu silêncio/incêndio permite crer. Sua contribuição, se devidamente valorizada, colocaria Max no centro da discussão sobre poesia entre nós: mas ele não precisa disso, nem merece que perturbemos seu sossego de mestre. :: Tarso de Melo é poeta, autor dos livros de poemas A lapso (1999) e Carbono (2002), entre outros. Edita, com Eduardo Sterzi, a revista de poesia Cacto. [Especial para Weblivros] Poemas reunidos: 1952-2001, de Max Martins. Belém: EDUFPA, 2001, formato 14 x 21 cm. Tel. (91) 225-0355. |
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