| Karl Popper e a miséria do historicismo |
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Karl Popper nasceu em Viena, na Áustria, em 28 de julho de 1902, e morreu em Londres, na Inglaterra, em 17 de setembro de 1994. Caracterizou-se pela abertura de espírito e pela recusa em filiar-se a correntes dogmáticas de pensamento e de ação político, conservando sua liberdade intelectual. Tal atitude lhe valeria, e lhe vale ainda hoje, nos meios considerados de esquerda, a perseguição e a pecha de “conservador”, “liberal”, “burguês”, para dizer o mínimo. No entanto, quando se considera seu pensamento, vê-se que não é nada disso, pagando apenas o preço de sua independência crítica. Hoje, que já se superou muitos dos dogmatismos tão presentes no século XX, e que levaram o historiador Eric Hobsbawm a chamar o século XX de século da intolerância, o seu pensamento pode ser melhor apreciado, revelando sua atualidade. O livro mais conhecido de Popper é Lógica da pesquisa científica, escrito em 1934. Nele, elege como principal alvo de ataque o positivismo, e combate especialmente o método indutivo em ciências naturais. Propõe, como alternativa ao verificacionismo, o falseacionismo. O primeiro consiste em erigir uma teoria tomando como base aquilo que se observa: a partir dos “fatos” observados, por indução, chega-se a formulações gerais na forma de leis. Já o segundo, o falseacionismo, propõe que, em vez de procurar confirmar, corroborar nossas teorias, devemos, pelo contrário, tentar falseá-las, ou seja, submetê-las a testes. Caso resista a esses testes, não significa que seja certa em termos absolutos, apenas que pode ser aceita, provisoriamente, enquanto resistir aos testes e enquanto não for posta no seu lugar uma teoria que seja mais suscetível a testes, e portanto melhor, nesse sentido. Luis Alberto Peluso, professor da PUC-Campinas, afirma o seguinte em seu livro sobre Popper [1] : A recusa da indução e de qualquer mecanismo justifiacionista (...) como método do conhecimento científico, e a rpoposta da falseabilidade como característica epistemológica do discurso científico, constituir-se-ão nas duas teses fundamentais do racionalismo crítico proposto por Popper. (p. 16). Essa atitude aberta também se reflete em seus outros livros, como A sociedade aberta e seus inimigos, de 1946, A miséria do historicismo, escrito por volta de 1944, 1945, e também em seu Conjecturas e refutações, de 1963. A atitude de Popper, caracterizada por ele mesmo como de “racionalismo crítico”, é exposta por ele da seguinte forma, comentando A sociedade aberta e seus inimigos: Em The open society, acentuei que o método crítico, embora, sempre que possível, recorra a provas e, de preferência, a provas práticas, pode ser generalizado naquilo que chamei atitude crítica ou racional. Sustentei que uma das melhores acepções a atribuir à ‘razão’ e à ‘razoabilidade’ é a abertura à crítica – disposição de ser criticado e empenho em criticar-se, e procurei mostrar que essa atitude crítica de razoabilidade deveria ser ampliada tanto quanto possível. [2] No que se refere às Ciências Sociais, as obras mais pertinentes de Popper são A sociedade aberta e seus inimigos e A miséria do historicismo. Segundo Peluso, a visão de Popper sobre as Ciências Sociais é de que estas devem se preocupar com o particular, o concreto, e não se basear em esquemas e idealizações conceituais universais. Deve proceder por meio de tentativa e erro, ou hipóteses. Para ele, (...) a posição de Popper sobre o método de análise social parece implicar uma concepção de ciências sociais em que estas estariam muito mais próximas de um conhecimento do tipo empregado em engenharia de obras do que daquele empregado pela física ou química puras. (...) Dessa forma, o cientista social, na concepção popperiana, pode ser caracterizado como um ‘elaborador de políticas sociais’ (Peluso, op. cit., p. 68). De qualquer forma, o que Popper diz em relação às ciências naturais é válido também em ciências sociais, e em alguns casos, e até mais aplicável a estas últimas. A posição de Popper é que não podemos confundir as questões de genealogia com as questões de validade. O que podemos assegurar é que nosso conhecimento não evolui sem a presença de teorias ou hipóteses. O que importa para a ciência é a forma como a teoria foi testada. (Peluso, p. 71). Popper fala também de “tecnologia social fragmentária”. É assim que “As teorias devem ser interpretadas como ‘propostas parciais’, como tentativas parciais de compreensão dos resultados inesperados de nossas ações intencionais” (Peluso, p. 73). Popper utiliza ainda a expressão “engenharia social fragmentária”, pela qual indica “a metodologia que consiste em provocar mudanças sociais por meio de pequenos ajustes e reajustes nas instituições” (Idem, p. 74). Esse método é mais eficiente porque permite tratar os problemas de maneira localizada, e não de maneira totalizante e universal. Pelo método das “propostas parciais” podemos, por exemplo, identificar a fome e a miséria como males a serem sanados. Esse método não nos dispersa num universo de modelos ideais e distantes voltados para o “bem último” ou para a ‘sociedade perfeita’. Por meio dele, o fracasso e o erro são mais facilmente identificados. (Peluso, op. cit., p. 80). Esse método inspira muitos pensadores contemporâneos, entre os quais cito Norberto Bobbio e Michael Walzer. Este último, por exemplo, diz: “A filosofia deve ser historicamente informada e sociologicamente competente se quiser evitar o utopismo ruim e reconhecer as duras escolhas que muitas vezes se exigem na vida política”. [3] Este é apenas um exemplo da atualidade e relevância do pensamento de Popper para quem lida com questões sociais e com a sociedade. Luiz Paulo Rouanet, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é professor da PUC-Campinas e editor assistente da Unimarco Editora. [ Especial para Weblivros] _______________________________________________________ Bibliografia sugeridaO'HEAR, Anthony (org.). Karl Popper - Filosofia e Problemas. Trad. Luiz P. Rouanet. São Paulo: UNESP, 1997. Peluso, Luis A. A filosofia de Karl Popper. Campinas: Papirus/PUCCAMP, 1995. Popper, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos. São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1974. _______. A lógica da pesquisa científica. Trad. Leônidas Hegenberg e Octanny S, da Motta. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1975. _______. A miséria do historicismo. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1980. _______. Conjecturas e refutações. Brasília: UNB, 1981. Rouanet, Luiz P. . La desigualdad como cuestión filosófica. Texto apresentado no V Congreso Sudamericano de Filosofia, Caracas, Venezuela, 11 de outubro de 2002. Walzer, Michael. Da tolerância. Trad. Almiro Pisetta. São Paulo: Martins Fontes, 1999 [1] Luis Alberto Peluso. A filosofia de Karl Popper. Campinas: Papirus/PUC-Campinas, 1995. [2] Karl Popper. Autobiografia intelectual. São Paulo: Cultrix, 1977, p. 124, apud Peluso, op. Cit., p. 20. [3] Michael Walzer. Da tolerância. Trad. Almiro Pisetta. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 8. |
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