| Julio Torri |
|
|
|
|
PROSA POÉTICA DE JÚLIO TORRI por Ronald Polito* Julio Torri, ao lado de José Juan Tablada, Renato Leduc e poucos outros, é escritor fundamental para o conhecimento da literatura mexicana da primeira metade do século XX. Autor de uma obra pequena - seus textos literários não chegam a 150 páginas -, editou apenas três livros em vida: Ensayos y poemas (1917), De fusilamientos (1940) e Tres libros (1964, reunindo os dois anteriores e textos dispersos). É, no entanto, notável precisamente por sua concisão, onde sobressai a idéia do ensaio como forma literária. Numa literatura tão prolixa como a mexicana e latino-americana em geral, ele é visível exceção. Dificilmente classificáveis, seus pequenos poemas em prosa, ou a sua prosa poética, lembram de algum modo a técnica de composição de Machado de Assis, de quem Torri era grande admirador. Escreveu inclusive um ensaio sobre Machado e traduziu partes de Dom Casmurro. Em termos de registro, Torri pertence à família dos escritores irônicos, como Machado e Bernard Shaw (que ele também admirava); a rapidez cortante de seus textos lembra a crítica impiedosa das sentenças de Karl Kraus. Torri deixou ainda obra ensaística importante e escreveu uma extenso trabalho intitulado La literatura española, de 1952, certamente fruto dos longos anos em que exerceu o magistério. No Brasil, Torri é praticamente desconhecido. Ao que sabemos, apenas Alexandre Eulálio admirava sua obra, possuindo algumas edições que hoje se encontram na Biblioteca da Unicamp. Escreveu também sobre Torri um ensaio brilhante, há alguns anos publicado. Conheça a prosa poética do escritor mexicano Julio Torri, traduzida pela primeira vez para o português, com exclusividade na WEBLIVROS!. A CIRCE CIRCE, deusa venerável! Tenho seguido pontualmente teus avisos. Mas não me fiz amarrar no mastro quando avistamos a ilha das Sereias, porque ia decidido a perder-me. No meio do mar silencioso estava a pradaria fatal. Parecia um carregamento de violetas errante pelas águas. Circe, nobre deusa dos formosos cabelos! Meu destino é cruel. Como ia decidido a perder-me, as Sereias não cantaram para mim. A HUMILDADE PREMIADA Numa Universidade pouco renomada havia um professor pequeno de corpo, rubicundo e gago, que, como carecia inteiramente de idéias próprias, era muito estimado em sociedade e tinha diante de si um futuro brilhante na crítica literária. O que lia nos livros oferecia tresnoitado a seus discípulos na manhã seguinte. Tão excepcional faculdade de repetir com exatidão constituía o desespero dos mais perfeitos construtores de máquinas falantes. E assim se passaram muitos anos até que um dia, por força de repetir idéias alheias, nosso professor teve uma própria, uma pequena idéia própria luminosa e bela como um peixinho vermelho atrás do irisado cristal de um aquário. A BICICLETA É um esporte que não precisa de companheiros para ser praticado. Próprio para os misantropos, para orgulhosos, para insociáveis de todo tipo. O ciclista é um aprendiz de suicida. Entre os perigos que o ameaçam, os menores não são de se desprezar: os cães, inimigos obstinados de quem anda com pressa e desalinhado; e os guardas que sem muita cortesia evocam disposições municipais quebradas involuntariamente. Desde que se multiplicaram os automóveis por nossas ruas, perdi a admiração com que via antes os toureiros e a reservei para os aficcionados da bicicleta. Aquele que desliza pela superfície apoiado em dois pontos de contato não corta as amarras com o planeta. O avião e o automóvel não guardam proporção com o homem, por sua velocidade, muito maior do que a que ele necessita. A bicicleta não é assim. Raro esporte, que se pratica sentado, como o remo. Todas as tentativas de partilhá-lo com outros fracassaram. A exclusividade de seu desfrute a torna apreciável para os egoístas. Chegamos a professar-lhe sentimentos verdadeiramente afetuosos. Adivinhamos seus pequenos contratempos, suas baixas necessidades de ar e lubrificação. Um leve chiado na biela ou no eixo ilustra suficientemente nossa solícita atenção de homens sensíveis, comedidos, bem educados. Sei de quem exagerou estes cuidados com sua máquina, incorrendo em afetos que só seres humanos costumam despertar. As bicicletas são também úteis, discretas, econômicas. * Ronald Polito é poeta, autor de Intervalos, Sette Letras, 1999. |
| < Anterior | Seguinte > |
|---|
| Casa de Rui Barbosa restaura e digitaliza coleção da revista "O Malho", que ficará disponível pela internet | |
| Ler mais... |
| A Pinacoteca do Estado apresenta exposição com cerca de 130 trabalhos de Eliseu Visconti (Salerno, Itália 1866 - Rio de Janeiro RJ 1944). A mostra destaca o pioneirismo e a importância de Visconti como designer e artista gráfico que, influenciado pela Arte Nouveau, produziu uma série de projetos de arte decorativa e aplicado à indústria. | |
| Ler mais... |
|
|