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PRIMEIRO NOBEL PARA A LÍNGUA PORTUGUESA
por Reynaldo damazio

José SaramagoDepois da disputa com o dramaturgo italiano Dario Fo, que acabou levando o Nobel de Literatura do ano passado, o escritor José Saramago finalmente acabou recebendo a notícia de que a academia sueca o havia escolhido para o prêmio de 1998 em plena Feira do Livro de Frankfurt. Apesar do comentário impróprio e pouco inteligente de uma publicação norte-americana, afirmando que depois de Saramago a cantora Madona e o transformista Ru Paul também poderiam ser candidatos à premiação, o escritor português realiza uma obra densa e penetrante que o coloca entre os maiores nomes da literatura deste século.

Admirador de Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Franz Kafka, Saramago soube traduzir as perplexidades do homem moderno em histórias aparentemente corriqueiras, mas que revelam uma reflexão imensa e um arguto trabalho com a língua. Seus romances são rebuscados, elegantes, trazendo uma intensidade reflexiva que muitas vezes sugerem influência do barroco, só que domados por uma objetividade apolínea. Considerada em conjunto, a obra de Saramago representa um painel contudente do homem moderno, como aquele anti-herói joyceano, em busca dos fragmentos perdidos do fio da meada histórico.

Além de romancista, contista, cronista e dramaturgo, Saramago é também poeta, vertente de sua produção pouco conhecida entre os leitores brasileiros. Leia a seguir um poema do livro Provavelmente Alegria (Editorial Caminho, Lisboa, 1985):

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
 
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