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José Paulo Paes PDF Imprimir E-mail
"ALI UM VÔO TERMINA, OUTRO VÔO SE INICIA"
José Paulo Paes (1926-1998)

Com a morte do poeta, tradutor e ensaísta José Paulo Paes, em outubro, a entrada da primavera assumiu ares de outono. Tradutor incansável, Paes verteu para o português centenas de títulos, entre ensaios, contos, romances, além de poetas de diversos idiomas (grego, inglês, italiano, latim, dinamarquês, francês, alemão). Os pequenos leitores perderam também um autor que soube levar ao mundo infantil a verdadeira magia do poema.

Formado em química e tendo exercido a profissão por um bom tempo, felizmente o vírus das letras o contaminou desde cedo, ali na livraria do avô, que atendia aos fregueses com "camisa sem colarinho, paletó de pijama, chinelos de couro com o seu plac-plac inconfundível". Com o avô livreiro, o tio tipógrafo e a avó que contava dia e noite histórias de outro mundo, o menino tinha mesmo que ser conduzido pelo "pássaro dos sonhos" e virar poeta.

A poesia de José Paulo Paes é minimalista, às vezes radicalmente epigramática, incorporando criativamente o melhor da lição modernista de Oswald de Andrade. Quando introduz a prosa nos poemas, o faz com refinada construção, demonstrando pulso firme no estabelecimento de medidas e ritmo. Seus poemas infantis jamais subestimam a inteligência e a criatividade da criança, pelo contrário, estimulam a sensibilidade literária com beleza e humor. Os livros "É isso ali", "Poemas para armar", "Qual é o bicho", entre outros, já se tornaram clássicos da literatura infantil contemporânea.

(( Reynaldo Damazio ))

Leia a seguir um poema do livro "Prosas seguidas de Odes Mínimas" (Companhia das Letras, 1992):

CANÇÃO DO EXÍLIO

Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.

Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.

Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.

Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.

Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.

Andei tanto neste rua
que já não sei mais voltar.
 
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