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Jorge Luis Borges PDF Imprimir E-mail
UM SÉCULO DE BORGES
por Reynaldo Damazio

Nada melhor que a edição das obras completas de Jorge Luis Borges para comemorar seu centenário. Coordenados pelo crítico e professor de literatura Jorge Schwartz, os três volumes trazem a poesia, a ficção e os ensaios de Borges traduzidos por uma diversificada e competente equipe de especialistas. A maior homenagem que se pode prestar a um escritor, especialmente do porte universal de Borges, é publicando-o e colocando seus textos ao alcance dos leitores. No caso da produção borgeana, a circulação de seus textos completam uma rede de referências, jogo constante de espelhos.

No dia 24 de agosto de 1899, Jorges Luis Borges nascia na casa de seu avô materno em Buenos Aires. Alfabetizado em inglês, seu talento se manifestou cedo quando, aos nove anos, traduziu para o espanhol O Príncipe Feliz de Oscar Wilde. Seu pai era advogado com idéias anarquistas que se dedicou à educação e a mãe foi tradutora de clássicos. Inúmeras vezes Borges afirmou a influência materna em sua formação intelectual e na realização de sua obra.

Com 15 anos, mudou-se com a família para Genebra, onde estudou bacharelado. Depois, a família foi para Madri e Borges participou do movimento ultraísta. Quando retornou à Argentina, em 1921, o reencontro com a capital de seu país o inspirou a escrever Fervor de Buenos Aires, de 1923 e , no ano seguinte, Lua Defronte e Inquisições. Na mesma época funda as revistas "Proa", com o escritor Macedonio Fernandez, e "Prisma", que colocaram em circulação as inquietações literárias da vanguarda argentina. Foi também um dos animadores do grupo Martin Fierro.

O modo com que percebia o mundo o leva a afastar-se da escola poética do ultraísmo, escola experimental de poesia baseada no cubismo e no futurismo, para fundar um tipo próprio de regionalismo, enraizado em uma perspectiva metafísica da realidade.

Em 1930, Borges conhece o escritor Adolfo Bioy Casares com quem terá uma longa e criativa amizade. Os dois escreveram contos policiais em parceria com o pseudônimo de Bustos Domeq e mantiveram um diálogo literário instigante. Um ano depois, a escritora Victoria Ocampo funda a revista "Sur" que representaria um importante polo de divulgação do modernismo argentino, com participação de Borges.

Borges fica cego em 1960, vítima de uma doença hereditária. No ano seguinte, recebe com o escritor Samuel Becket o prêmio Formentor, que chama a atenção internacional para seu trabalho. Em 1980 recebe o importante prêmio Cervantes, da Espanha. Seis anos depois, morre em Genebra, onde foi enterrado.

Jorge Luis Borges foi um dos mais importantes escritores latino-americanos deste século, injustamente esquecido para o Nobel. Sua obra densa, mágica, polimorfa, labiríntica, influenciou inúmeras gerações de escritores e intelectuais, tendo sido objeto de incontáveis estudos e pesquisas. Seus textos nos remetem a uma esfera kafkiana, onde misticismo e poeticidade se fundam para gerar um texto de extrema graça. Se para Borges os sonhos eram ficção, sua ficção certamente nos fascina por sua força onírica e nos faz encarar o real como um terrível emaranhado de sonhos.

Poema de Borges:

Arte Poética

Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que nossa carne teme é esta morte
De cada noite, que se chama sonho.

Ver no dia ou no ano um símbolo
Dos dias do homem de seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Em música, rumor e símbolo,

Ver na morte o sonho, no ocaso
Um triste ouro, como a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, em plena tarde, uma face
Nos observa do fundo do espelho;
A arte deve ser como este espelho
Que nos revela a própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é esta Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E outro, como o rio interminável.
 
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