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Jorge Amado PDF Imprimir E-mail
JORGE AMADO, UM CONTADOR DE HISTÓRIAS
(Itabuna, Bahia, 1912- Salvador, 2001)

Jorge Amado é sem dúvida o escritor brasileiro mais conhecido no mundo. Algo assim como o Pelé de nossas letras. Se não houver lido pelo menos um livro seu, ou acompanhado uma das inúmeras adaptações para televisão ou cinema de suas obras, qualquer cidadão letrado do planeta sabe que se tratava de um importante autor brasileiro.

Jorge AmadoNão é para menos, pois Jorge Amado escreveu mais de trinta livros, traduzidos em quase cinqüenta idiomas, que atingiram a espantosa marca de 20 milhões de exemplares vendidos, no Brasil e no exterior. O título recordista é Capitães da areia, de 1937, com quatro milhões, em mais de 80 edições. Além dos romances que o consagraram, a maioria superando as quarenta edições, escreveu contos, novelas, biografias, literatura infanto-juvenil, peça de teatro, relatos de viagem, autobiografias e até poemas. Pouca gente sabe, mas traduziu para o português o romance Doña Barbara, do escritor venezuelano Rómulo Gallegos.

O início de sua trajetória literária se deu em 1927, em Salvador, como repórter policial do Diário da Bahia. Em 1930 muda-se para o Rio de Janeiro, conhecendo Vinícius de Moraes, Raul Bopp, José Américo de Almeida e Raquel de Queiroz, entre outros. Seu primeiro romance, O país do carnaval, foi lançado em 1931, mesmo ano em que entra na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. O sucesso de público foi imediato e a segunda edição viria no ano seguinte. Trabalha como editor na Livraria José Olympio Editora e como jornalista na revista Rio Magazine e depois no jornal A Manhã, da Aliança Nacional Libertadora. Conduzido pela amiga Raquel de Queiroz, aproxima-se do Partido Comunista.

Em 1936, ano em que publica Mar morto, premiado pela Academia Brasileira de Letras, é preso por motivos políticos, sob a acusação de participar da Intentona Comunista. No ano seguinte, em plena ditadura do Estado Novo varguista, é novamente preso e seus romances são queimados em Salvador, considerados subversivos.

As prisões continuaram durante os anos quarenta, mas o escritor manteve com firmeza e coerência suas convicções políticas. Escreveu uma biografia de Luís Carlos Prestes, editada primeiro em espanhol e só publicada no Brasil em 1945, com o título de O cavaleiro da esperança. Nesse mesmo ano, é eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro e participa da Assembléia Constituinte de 1946, tendo várias de suas emendas aprovadas. É dessa época o início de seu relacionamento com Zélia Gattai, após desquitar-se da primeira esposa, Matilde Garcia Rosa. Em 1948 seu mandato é cassado e passa a viver no exílio até 1952.

Com Zélia viajou pelo mundo e morou na França e Checoslováquia. Foi amigo de Jean-Paul Sartre, Picasso, Pablo Neruda, entre tantos artistas e escritores de renome internacional. Em 1951, recebeu em Moscou o Prêmio Internacional Stalin. Esteve na Europa Central, foi à China e à Mongólia, visitou vários países da América Latina e só interrompeu suas viagens para ver o amigo Graciliano Ramos, que estava à morte. Rompeu com o partido em 1956, "porque esse engajamento estava me impedindo de ser escritor", como afirmou.

De material subversivo, seus livros passaram a colecionar prêmios e ganhar adaptações para o cinema. As tiragens sempre se esgotaram numa velocidade assombrosa, comprovando uma popularidade que se manteve inabalável durante décadas. Em 1959, recebe em Salvador o título de obá orolu, do Axé Opô Afonjá, um dos mais importantes títulos do candomblé. Dois anos depois, se torna "imortal" ao ser eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras.

Embora a crítica e os acadêmicos às vezes torçam o nariz para a escrita de fácil comunicação desse "contador de histórias", como ele mesmo gosta de se definir, leitores de todas as origens e formações o transformaram num mito, aquele que soube traduzir as coisas da Bahia e de seu povo em narrativas poéticas, cheias de malícia e encantamento. Da épica dos senhores do cacau aos miúdos dramas picarescos, da rica mitologia afro-brasileira ao cotidiano de prostitutas, bêbados, moleques e gigolôs, ele soube traçar o mais acabado retrato, seja em Terras do sem-fim, de 1942; Gabriela cravo e canela, de 1958; Dona Flor e seus dois maridos, de 1966; ou Tenda dos milagres, de 1969. A galeria de títulos e de tipos é imensa.

Protetor da Bahia e protegido dos orixás, Jorge Amado materializou o vaticínio de um padre professor, que ao ler uma redação sua, escrita aos onze anos, disse: "Este vai ser escritor". O que o menino não poderia imaginar era a que distâncias a literatura o levaria. A fama e a fortuna, porém, não abalaram seu jeito simples de encarar a vida e as pessoas, como destacam aqueles que o conhecem. O balanço que faz de sua vida é exemplar dessa postura: "Eu venho e conto a minha história. Aquilo que eu sei e como sei. Isso é o que importa".

Com a morte do escritor, neste dia seis de agosto, a Bahia não perde apenas seu protetor, mas fica sem um pedaço.
 
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