| John Ronald Reuel Tolkien |
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GÊNESE DA TERRA-MÉDIA O filólogo inglês John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) criou uma saga maravilhosa que contagiou gerações e continua povoando a imaginação de leitores com aventuras que remetem a eras longínquas e terras habitadas por seres fantásticos. Muitos críticos viram em seus livros reflexos simbólicos da realidade européia do período entre guerras e da Guerra Fria. Com certeza, deve haver alguma correção nisso, uma vez que Tolkien combateu na Primeira Grande Guerra e publicou seus livros entre as décadas de 30 e 50. "O Hobbit" foi escrito em 1937. A trilogia "O senhor dos anéis", que o tornaria conhecido internacionalmente, foi publicada entre 1954 e 55, e fez enorme sucesso nos anos 60. Tolkien, por sua vez, negava tudo e dizia que suas histórias apenas refletiam suas convicções católicas.Com o lançamento de "O Silmarillion" e dos "Contos Inacabados", o leitor brasileiro finalmente tem acesso à obra completa de Tolkien sem precisar caçar as edições da Europa-América, de Portugal (excelentes, diga-se). Embora "O Silmarillion" só tenha sido publicado quatro anos após a morte do autor, graças à cuidadosa edição de seu filho Christopher, começou a ser escrito em 1917, quando Tolkien era tenente do exército inglês em serviço na França. No início, os rascunhos a lápis em caderninhos variados pretendiam se tornar uma série de contos ("O livro dos contos perdidos"). Com o tempo as anotações se multiplicaram e, mesmo escritas muitas vezes às pressas, traçaram um painel colossal das origens da Terra-média e de seus habitantes: hobbits, elfos, homens, anões, magos, orcs e dragões. É divertido imaginar o austero professor de Oxford, à noite, em frente à lareira, rabiscando odisséias míticas enquanto degusta seu inseparável cachimbo. Para os alunos, o professor era esquisito. Para seus leitores fiéis, um criador fabuloso. "O Silmarrillion" é o livro da criação do universo de Tolkien. Nele desfilam as genealogias mitológicas que fundamentarão os ciclos históricos da Terra-média. É como o texto bíblico do Gênese. Na versão de Tolkien o mundo tem origem na música, proposta pelo criador Ilúvatar. Como na tradição bíblica, entre os sagrados (variante para os anjos), há aquele extremamente talentoso que desafia as regras do criador e estabelece uma dissidência, Melkor. A riqueza de detalhes mitológicos, as intrincadas árvores genealógicas dos personagens, os cenários descritos e mapeados com rigor, as variantes narrativas, o trabalho de criação de uma linguagem própria e muitos outros recursos (como uso de poesia e música) fazem dos livros de Tolkien uma fonte inesgotável de deleite, aprendizado e revelação. Muito se fala da construção dos cenários e da riqueza e diversidade dos personagens, mas esquece-se que os textos são muito bem escritos, numa linguagem refinada, cuja articulação e complexidade não fica a dever ao fabulário da antiguidade e medieval. Aliás, Tolkien afirmaria numa entrevista que sua intenção era criar uma lenda para a Inglaterra. As silmarils eram as três gemas perfeitas entalhadas pelo elfo de maior talento, Fëanor. As pedras foram roubadas pelo senhor das forças obscuras, Morgoth, uma espécie de personificação do mal na Terra. As gemas foram engastadas em sua coroa de ferro e sua recuperação gerou a feroz batalha entre os altos-elfos e as forças negras de Morgoth. Como se vê, a clássica luta entre os poderes da sombra e os da luz. Tolkien alia com extrema habilidade e criatividade elementos da mitologia celta com os da greco-latina. Além disso, o autor acrescenta fortes doses de lendas medievais e do romanceiro de cavalaria. Também é fácil identificar a presença marcante das fábulas nórdicas de duendes e gnomos. Mas o resultado nunca é uma mera paródia. Ao contrário, sua ficção nos oferece um mundo próprio, perfeitamente organizado, com uma coerência impressionante. Os elementos se combinam e se completam em múltiplas direções, convergindo para aventuras emocionantes. Há momentos de forte tensão, outros comoventes. Viagens por terras estranhas, guerras épicas, traições, episódios de amor e de sofrimento - pequenas aventuras se entrecruzam em grandes ciclos históricos, colocando em relação e conflito seres humanos e divindades, como em Homero. Há até quem classifique sua obra como ficção de terror. O certo é que não se trata de mera literatura infanto-juvenil, ou fantástica. Com o sucesso obtido com a publicação do primeiro livro do "O senhor dos anéis", Tolkien teve que antecipar a edição dos volumes dois e três da trilogia, saga que levou doze anos para escrever, por pressão do editor e dos leitores, que ficaram ansiosos por acompanhar os desdobramentos da misteriosa demanda do jovem hobbit Frodo. Adotada pelos jovens contestadores da geração hippie nos anos 60, possivelmente por sua sugestão psicodélica, a trilogia se tornou um sucesso estrondoso e espantou o próprio autor, que insistia em não ver relação entre sua obra e a contracultura. "O Silmarillion", por sua vez, tem um certo tom didático e sua construção não é tão fluida como os demais textos de Tolkien, mas representa uma espécie de suma teológica do complexo mundo dos hobbits. No início, o texto é um pouco árido, mas logo o leitor cai nas malhas da trama e sucumbe ao universo dos elfos, descobrindo como se deu a formação da Terra-média, as grandes guerras contra as forças de Morgoth, a desunião com os anões, ou encantando-se com a relação sempre conflituosa com os humanos. Impossível não se emocionar com a história de amor entre a elfa Lúthien e o humano Beren, que enfrentam a fúria de Morgoth para resgatar uma das silmarils; ou então com a dramática queda de Númenor, cidade paradisíaca dos humanos. Leitura para quem ainda se encanta com fábulas e sabe que a magia faz parte da realidade, ou para aqueles que descobriram a obra de Tolkien com a versão cinematográfica e estão curiosos por mais aventuras, especialmente para entender melhor a origem de tudo. Com a publicação dos "Contos Inacabados", prometida pela editora para breve, e a leitura de "O Silmarillion", os leitores e cinéfilos terão uma boa oportunidade para curtir a beleza dos textos de Tolkien, que continuarão reverberando nos corações e nas mentes de quem ama a boa literatura. :: Reynaldo Damazio |
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