| Joan Maragall |
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JOAN MARAGALL Joan Maragall i Gorina nasceu em Barcelona, em 10 de outubro de 1860, e faleceu na mesma cidade, em 20 de dezembro de 1911. Com Verdaguer e outros poetas, Maragall faz parte dos escritores que promoveram a assim chamada ''Renascença'' da língua catalã a partir de meados do século XIX, depois de vários séculos proibida como idioma pelo Estado espanhol, como assinala João Cabral de Melo Neto. Ainda que tenha se formado em Direito em 1884, sua principal atividade foi a colaboração sistemática em inúmeros jornais e revistas da Catalunha, dentre os quais: Lo Gai Saber, La Renaixença, L'Avenç, El Poble Català, Joventud e Diario de Barcelona. Admirador desde a juventude da obra de Goethe, dele traduziu muitos poemas, além de Ifigênia em Táuride. Traduziu ainda os Hinos à noite, de Novalis, e fragmentos de Assim falou Zaratrusta, de Nietzsche. Somente em 1895 Maragall publicou seu primeiro livro de poemas, intitulado Poesies. Ainda em vida publicou apenas mais quatro livros de poesia: Vision & cants (1900), Les disperses (1904), Enllà (1906) e Seqüències (1911). Publicou também textos em prosa, como La paraula (1904) e Elogi de la poesia (1909), dentre outros. A primeira edição de suas obras completas é de 1912-1913, em 11 volumes. Elas voltaram a ser editadas pelo menos mais três vezes, em formatos variados. Há ainda alguns volumes de correspondência, como as cartas trocadas com Miguel de Unamuno, Manuel Gálvez e Felip Pedrell. Maragall foi membro da Real Academia de Belas-Letras de Barcelona. Na vasta bibliografia sobre o escritor, destacam-se estudos como os de Dámaso Alonso, Carles Riba, Gaziel, Josep Romeu, Joan Teixidor, Juan Triadú, Miguel de Unamuno e Eduard Valentí i Fiol. Tomei contato com a poesia de Maragall por acaso, através de uma antologia de poesia catalã que me foi emprestada por Sérgio Alcides, onde figurava o poema ''La vaca cega''. Fui tocado imediatamente pela força do poema, por seu equilíbrio difícil, a um só tempo, entre uma dicção clássica e um pathos romântico. Só muito mais tarde vim a saber, lendo a introdução de Antoni Comas a uma edição em dois volumes da obra poética de Maragall, que a publicação deste poema, em 1893, na revista L'Avenç, porta-voz do movimento modernista na Catalunha, consagrou-o definitivamente como poeta. A seguir, apresento duas traduções do texto. A primeira é, digamos, literal, tenta reconstituir com fidelidade o significado estrito do texto. A segunda é uma tentativa de reconstituição da métrica (versos decassílabos) e do ritmo (em geral, com acento na sexta sílaba) do original. Ambas valem como ensaios a uma possível tradução mais conclusiva deste poema. Ronald Polito, de Fuchu-shi, Japão, especial para Weblivros. LA VACA CEGA Joan Maragall Topant de cap en una i altra soca, avançant d'esma pel camí de l'aigua, se'n ve la vaca tota sola. És cega. D'un cop de roc llançat amb massa traça, el vailet va buidar-li un ull, i en l'altre se li ha posat un tel: la vaca és cega. Va a abeurar-se en la fon com ans solia, mes no amb el ferm posat d'altres vegades ni amb ses companyes, no: ve tota sola. Ses companyes, pels cingles, per les comes, pel silenci dels prats i en la ribera, fan dringar l'esquellot, mentres pasturen l'herba fresca a l'atzar... Ella cauria. Topa de morro en l'esmolada pica i recula afrontada... Però torna, i abaixa el cap a l'aigua, i beu calmosa. Beu poc, sens gaire set. Després aixeca al cel, enorme, l'embanyada testa amb un gran gesto tràgic; parpelleja damunt les mortes nines, i se'n torna orfe de llum sota del sol que crema, vacillant pels camins inoblidables, brandant llànguidament la llarga cua. A VACA CEGA Topando de cabeça num toco e noutro, investindo a esmo no caminho da água, descendo vem a vaca sozinha. É cega. Com uma pedrada lançada com muita pontaria, um menino vazou-lhe um olho, e o outro foi coberto por uma casca: a vaca é cega. Foi beber na fonte como antes costumava ir, mas não com o porte firme das outras vezes nem com suas companheiras, não: vai sozinha. Suas companheiras, pelas encostas, pelos cumes, pelo silêncio dos prados e pela ribeira, fazem tilintar o chocalho, enquanto pastam a relva fresca ao léu... Ela cairia. Topa de cara na garrocha afiada e recua afrontada... Mas volta, e baixa a cabeça até a água, e bebe calma. Bebe pouco, sem muita sede. Depois levanta ao céu, enorme, a corneada testa com um grande gesto trágico; pestaneja sobre as meninas mortas, e volta órfã de luz sob o sol que queima, vacilante pelos caminhos inolvidáveis, balançando languidamente a longa cauda. A VACA CEGA Topando a cara num e noutro toco, seguindo a esmo no caminho d'água, descendo vem a vaca só. É cega. Com uma pedra que lançou certeira, um menino vazou-lhe um olho, e o outro cobriu-se de uma casca: a vaca é cega. Foi beber água como antes ia, não com o porte firme de outras vezes, nem com as companheiras, não: vai só. As companheiras, por abismos, cumes, no silêncio dos prados, na ribeira, tilintam o chocalho, enquanto pastam ao léu a relva... Ela cairia. Topa de cara na garrocha aguda e recua afrontada... Porém volta, e baixa até a água, e bebe calma. Pouco, sem muita sede. Depois ergue ao céu, enorme, a corneada testa num grande gesto trágico; e pisca sobre as meninas mortas, então volta órfã de luz embaixo do sol quente, vacilante na estrada inolvidável, brandindo debilmente a longa cauda. Traduções de Ronald Polito |
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