| João Inácio Padilha |
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FLOREZINHAS (( João Inácio Padilha )) Meu colega tinha os olhos no arbusto, um arbusto que havia ali. Na beira da estrada, entre tanto mato e tantas árvores, e entre tantas marias-sem-vergonha que em surtos descomedidos brotavam em tudo quanto era canto, na beira da estrada meu colega escolheu aquele arbusto para observar. E o observava fixa-mente, com um olhar vacum. Meu colega escolheu aquele arbusto e não outro, por um motivo que naquele momento eu não podia explicar. Explica Vossa Senhoria a preferência da vaca (animal que não sabe distinguir, entre os componentes do verde pasto, quais os bons e quais os maus), explica Vossa Senhoria a preferência da vaca por um tufo de capim em detrimento de outros? Meu colega saiu da viatura já de olho naquele arbusto, coisa que não notei de imediato, pois só notava que ele vinha coçando a testa franzida. Vi que estava nervoso, e o vi circundando o arbusto numa lenta e pesada caminhada em espiral, digo, sem direção aparente, em rodeios, espiralada. Ia chegando perto do arbusto, sempre coçando a testa franzida, apertando os olhos, estava mesmo preocupado. Nada disse ao meu colega, fui em frente, deixei-o franzido lá atrás, me meti no mato para investigar. Meu colega tinha crianças na escola, pagava aluguel, a mulher parece que deixara o emprego, Vossa Senhoria há de compreender. Vossa Senhoria, que tão bem sabe como os assalariados franzimos a testa quando essas árduas realida-des vêm visitar esse setor de nossas cabeças, Vossa Senhoria há de compreender. Meu colega, depois de tanto espiralar, deteve o passo, finalmente, diante do arbusto. Foi o que eu vi assim de longe. E vi que ele não franzia mais. Na direção do tal arbusto, o inexpressivo, chapado olhar de vaca. Faz parte, vem depois do franzimento da preocupada testa - é o momento da impotência, do não haver nada que se possa fazer. Ah, os espíritos desamparados. Lá de longe, eu o via, assim vaca, e se não o chamei foi porque virtualmente, digo, efetivamente não há nada para dizer nessas horas, e tudo bem, podia eu fazer o trabalho sozinho, sem problema. Mesmo porque estava achando que era denúncia falsa, não havia ali pista alguma, nenhuma evidência, nenhum mato esmagado, nenhum sinal de luta, nenhuma pegada fresca, apesar da lama (tinha chovido, como sabe Vossa Senhoria, duas ou três noites atrás). Meu colega fitava o arbusto porque há momentos nesta vida em que, no fundo do coração, o próprio elemento em carne e osso se sente meio arbusto, Vossa Senhoria há de compreender. E se me concede Vossa Senhoria a liberda-de de estender-me neste particular, acrescentarei que também eu, semelhante-mente ao meu colega, senti-me arbusto, quando assisti pessoalmente ao desfecho do infausto episódio desta manhã. Meu colega, naquela primeira hora do dia - e aqui terá Vossa Senhoria meu completo relato dos acontecimentos desta manhã - meu colega encontrava-se, naquela primeira hora, ao meu lado, na delegacia, quando recebi o telefonema com a denúncia anônima. Mas eu não atinara para a palidez que julgo possa ter-lhe apossado, no momento em que repeti em voz alta, ecoando as palavras do meu informante anônimo, a localização exata da ocorrência - quilômetro tal da rodovia tal, bem em frente a uma placa de sinalização indicando pista escorregadia, a qual fica a cerca de dez metros de vistosa bananeira, antes de uma curva à esquerda. Dados precisos, não havia como errar. Dados demasiadamente precisos, terá conjeturado meu colega, sem que eu disso desconfiasse. Esclareço a Vossa Senhoria que apenas quando desliguei o telefone, reparei finalmente, em seu semblante, uma expressão como de desalento. Transmiti-lhe o teor do telefonema, "Vamos lá", eu lhe disse, e já de pé, metendo a arma no coldre preso na parte posterior direita do cinto da calça, como é de meu hábito portá-la, sob o paletó ou, o calor exigindo, sob a fralda da camisa, notei finalmente que aquele não era o dia do meu colega. Meu colega demorou-se, demorou-se. Sentado estava, sentado ficou. Não dissera uma palavra sobre a denúncia, um mínimo comentário que fosse, apesar de estar ciente de que poderíamos estar na iminência de descobrir mais um cadáver feminino entre os tantos que vinham aterrorizando as famílias de nossa cidade, mormente na jurisdição deste distrito policial. Que mau gênio tinha o meu colega. Ao erguer-se finalmente, revelou ele tão claro mau humor, ímpetos de tão injustificada agressividade... Foi saindo da sala a passos largos com a arma na mão, segurando na outra o paletó que quase se arrastava pelo chão. Passou por mim, tocou em mim, um pequeno encontrão, sem nem pedir desculpa. Não está nos seus melhores dias, relevei. Ô geniozinho difícil. Meu colega, no longo trajeto até nosso destino, não me dirigiu a palavra nem uma vez. Desisti, logo nos primeiros minutos, de conversar com ele. Quando já nos aproximávamos do local, percebi que seu comportamento algo arrogante começava a dar lugar ao tal nervosismo franzido, e eu diria mais: a um certo desespero mal escamoteado. Foi então que fiz uma tentativa de puxar conversa, um tanto por compaixão, um tanto por solidariedade. Sou bastante religioso, como suponho deva ser do conhecimento de Vossa Senhoria, e creio fervorosamente no poder da palavra amiga. Assim tenho pautado minha vida, e sinto que é meu dever (é dever de todos nós) estender a mão a um semelhante em seus momentos de aflição. Disse-lhe, amavelmente: "Abre seu coração, colega. Vejo que tens pro-blemas, quem sabe eu possa ajudar." Meu colega voltou-me uns olhos arregalados, uns olhos em fogo, de estupefação e assombro. Oh, coração atormentado. Pela boca, emitiu um suspiro vulcânico, digo, um princípio de riso sarcástico. Não disse uma palavra, e eu tampouco. Deixei-o como estava, havendo deliberado que em certas circunstâncias mais convém seja o ombro amigo recolhido enquanto se diluem, espontaneamente, no outro, os miasmas da alma em desespero. Notei que meu colega, ao surgir-nos à vista um motel de beira de estrada, dirigiu àquele estabelecimento uma atenção invulgar, virando a cabeça enquanto por ele passávamos, para não perder a visão que tanto lhe interessava. Íamos chegando ao destino. Sim, chegamos. Ali estava, claramente, a cena tal como havia sido descrita por meu informante anônimo: o quilômetro tal da rodovia tal, a placa de sinalização, pista escorregadia, a vistosa bananeira, a curva adiante. Meu colega, do fundo do peito, deixou extravasar um longo e veemente gemido. Vio tateando a arma. Julguei que ele enxergara, naquele ponto de que nos acercávamos, alguma movimentação suspeita. Sobressaltei-me, "o que foi?", eu disse. Cheguei a dar pequena guinada para a esquerda, logo corrigida. Meu colega, à maneira de acalmar-me, apenas cruzou os braços, dissimulou tranqüilidade, e foi então que lhe ressurgiram os fundos franzimentos na testa. Eu o observava à sorrelfa. Seguindo os sábios ensinamentos de Vossa Senhoria, parei a viatura a uma certa distância do nosso destino, como convém em diligências dessa natureza, haja visto o risco de destruição de provas pela ação dos pneus no local a ser investigado. Saí, bati a porta e fui andando, percebendo, contudo, que meu colega permanecia onde estava. Meu colega saiu finalmente, veio andando em minha direção. Aguardei-o, na presunção de com ele pôr-me de acordo a respeito dos procedimentos de busca. Mas não ousei falar-lhe. Veio caminhando espiraladamente, como acima descrevi, já de olho no arbusto. Olhei, eu também, para o arbusto. Um arbusto, decidi, e nada mais. E parti em frente. Fiz uma investigação minuciosa no terreno, esteja Vossa Senhoria seguro. Busquei, durante uns bons trinta minutos, os mais remotos indícios. Meu colega, durante aqueles trinta minutos, sempre de olho no arbusto, parecia raciocinar. Isso, raciocinar. Devia estar estudando, assim supus, todas as probabilidades do comportamento de um assassino que, naquele local, em noturnas e chuvosas circunstâncias, estivesse empenhado em ocultar um cadáver. O arbusto não era nada, assim supus, era apenas o repouso da vista enquanto o cérebro se entregava a inteligentes maquinações. Naquele bovino olhar do meu colega, assim supus, havia uma promessa de lucidez que muito conforto me proporcionou. Eu fazia o trabalho de campo, com muito orgulho e o habitual zelo a respeito do qual estará Vossa Senhoria suficientemente inteirado; e ele fazia a retaguarda mental. Uma boa dupla teríamos formado, assim supus, caso tivéssemos tido a ventura de mais amiúde trabalharmos juntos. Meu colega (mas como saber o que se passa na mente alheia?) podia, contudo, não estar exercendo suas faculdades de raciocínio detetivesco. Podia, por exemplo - é a hipótese que me ocorreu - ter alcançado um desses estados contemplativos de imaculável pureza. Sua exclusiva atenção ao arbusto transportava-o ao arbusto, do qual ele passava a fazer parte, como se de mais uma de suas ramificações se tratasse. Vossa Senhoria saberá relevar-me a ousadia de afirmar que os pés do meu colega, cravados na terra, pareciam ter criado raízes que se misturavam inextricavelmente às do arbusto. Firme como o arbusto, imóvel como o arbusto, ele era tão arbusto que eu nem me preocupei em vistoriar o próprio - procedimento que equivaleria a investigar a pessoa do meu colega, como se dele alimentasse qualquer tipo de suspeita. Colega e arbusto eram um conjunto só, e eu passei diversas vezes por essa formidável entidade vegetal, circundei-a por todos os lados. Mas só tinha olhos, nesses momentos, para a contemplação maravilhada da atitude do meu colega. Meu colega me atraía. Havia nele um, digamos assim, sortilégio que se me impregnava o espírito a cada vez que o enxergava e o via tão absorto arbusto. Poderia mesmo dizer que sua impassibilidade, tão vaca, tão boi capado, tão ruminante e ao mesmo tempo tão intrinsecamente vegetal, me hipnotizava. Comecei a temer a hipótese de, sob involuntária hipnose, passar a ser, eu também, uma ramificação a mais do mesmo arbusto. Mas quando era iminente esse transe, eu me esforçava para voltar à realidade. Sacudia a cabeça, concentrava-me na missão que nos levara àquele local - havia, possivelmente, um cadáver por ali, cumpria buscá-lo. Safei-me da hipnose graças à minha elevada noção do dever, traço que em mim, estou seguro, meus superiores têm sabido reconhecer, não obstante as freqüentes recriminações e as palavras duras com que Vossa Senhoria me tem habitualmente brindado, muito certamente na nobre intenção de sempre incentivar o contínuo aprimoramento profissional deste seu grato servidor. Meu colega, após longa imobilidade perante o arbusto intemporal, finalmente virou-se para mim e pronunciou estas palavras: "Vamos embora?" Assim, interrogativamente, não imperativamente. Olhei-o incrédulo, perscrutando no seu rosto a confirmação de que se extinguira em seu espírito a índole vegetal que o acometera tão prolongadamente. Consultei seu olhar, e julgo ter ele percebido o significado da dúvida que, mudo, eu procurava exprimir. E foi então que o vi andando. Depois da longa imobilidade, andava com seus próprios pés. Seguiu em direção à viatura. Fui atrás. Meu colega tomou seu assento, eu tomei o meu, de motorista. Pus a viatura em movimento. E eis que no trajeto de volta, e não vencidos nem dois quilômetros, se tanto, surge, de uma curva, uma dessas caminhonetas de reportagem, pertencente a um dos órgãos da nossa imprensa diária. Meu colega, alvoroçado, no que muito me surpreendeu, pediu-me, digo, ordenou, pois autoritário era o tom de sua voz: "Volta! Volta! Faz a volta! Vai atrás daquela reportagem!" Obedeci, fiz a manobra e parti no encalço da aludida viatura. Estava parada no local onde há pouco estivéramos. Um repórter, com bloco e caneta na mão, e um fotógrafo, com câmera e demais apetrechos do ofício, já se aproximavam do arbusto. Meu colega, no momento em que eu aplicava o freio de mão, já partia açodadamente em direção aos jornalistas, que chegaram a levar um susto ao surpreender semblante e modos tão, digamos assim, pouco cordiais, para não dizer rudes e algo sórdidos. "O que vocês estão fazendo aqui?", interpelou ele. O repórter teve a ousadia de perguntar: "Quem é o senhor?" ao que meu colega, visivelmente contrariado, respondeu, quase aos gritos: "Aqui, quem faz perguntas sou eu!" O repórter encolheu-se - "Polícia, né?" e pediu licença para explicar o motivo da reportagem que lhe incumbia fazer. Esclareceu que a redação recebera telefonema anônimo dando conta da existência de um cadáver que teria sido ocultado naquele terreno, durante a madrugada. Concluí, intuitivamente, digo, indutivamente, que o informante daquele órgão de imprensa fora o mesmo que o meu. Meu colega estava transtornado com a presença dos jornalistas, especialmente do repórter, a quem exigiu documento de identificação e credenciais patronais e sindicais que o habilitassem oficialmente para o legítimo exercício da profissão. Interpelou-o com ríspidas maneiras, advertiu-o de que não permitiria a interferência da imprensa na investigação policial em que estava empenhado. Distraiu-se, por esse motivo, do arbusto tão detidamente observado em nossa primeira visitação ao local. Estava de costas para aquela protuberância vegetal, não percebeu, de imediato, que o fotógrafo dela se acercava, não previu a possibilidade de o elemento exclamar, como efetivamente, digo, fatalmente exclamou: "Achei um cadáver!" Meu colega, no que de momento julguei ser reflexo de defesa ante grito proveniente do local sob investigação, puxou a arma. Apontou-a na direção do arbusto e logo passou a girar o braço para abranger, em sua mira, não só o fotógrafo mas também o repórter e o motorista da viatura de reportagem, este último retornando do mato, onde havia estado a urinar. "Calma!" interveio o repórter. "Ei! calma aí!" ecoou o fotógrafo. "Vai devagar!" reboou o motorista, ainda fechando a braguilha. Meu colega disse assim, aos gritos, enérgico: "Todos dentro do mato! Ali! Dentro do mato! Você também, seu merda!" "Seu merda" era eu. E lá fomos, com as mãos para o alto, meu colega berrando por trás: "Junto dessa árvore, todo o mundo!" Tivemos que passar pelo arbusto, e foi então que vimos -(eu vi, o repórter, o motorista, o fotógrafo, todos vimos): o cadáver em pessoa. "Eis então que achaste o cadáver, colega. Meus parabéns!" exultei, alegremente. "Mas por que não mo disseste antes?" perguntei, intrigado, após refletir um pouco. Meu colega, contudo, só tinha comigo injustificáveis palavras rudes - "Cala a boca, seu palerma!" Muito desagradável. Vossa Senhoria há de compreender quão abalado me sinto. Como é do pleno conhecimento de Vossa Senhoria, meu colega, no momento em que estávamos os quatro reunidos um ao lado do outro junto à árvore por ele indigitada, num gesto de feroz insensatez, digo, de insensata ferocidade pôs-se a atentar contra nossa integridade física. Disparou tiros, tendo matado o motorista, um espesso e vigoroso senhor em pleno apogeu de seus 60 anos, pai de um moço no Exército, e o fotógrafo, tão jovem ainda, tão cheio de vida, vaidoso, garboso, musculoso. Pela graça de Deus, escapamos o repórter e eu, muito embora ainda se tema pela vida do primeiro: levou, o pobre rapaz, um tiro no estômago, está em estado gravíssimo, quanto sangue não terá perdido. Rezo por ele. Quanto a mim, que não merecia tanto, aqui estou, ainda no leito do hospital, prestes a receber alta do ferimento que recebi no braço. Poupou-me, o carrasco. Vossa Senhoria me obsequiaria com permitir-me anexar, a este relatório, a pétala de uma maria-sem-vergonha, essa flor faceira das mil travessurinhas, que colhi após testemunhar, impotente, a morte do meu colega. Meu colega estava de costas para mim, de cara para o arbusto, digo, de cara para a jovem que ele próprio matara na chuvosa noite anterior. Eu podia ver, de longe, uma pálida mão ainda jovem, pousada sobre a terra como se repousas-se sobre lençóis após o orgasmo, se me permite tal imagem. O choro do assassino, o gesto de levar o cano à têmpora... Oh! coração atormentado. Fechei os olhos quando soou o estampido. Junto ao seu corpo, colhi rubra e viçosa maria-sem-vergonha, cuja pétala, tinta com o sangue do malvado, destaquei para anexar ao presente relatório, seguro de que Vossa Senhoria bem compreenderá o simbolismo deste singelo gesto. Havia outras ao lado, maculadas pelo mesmo sangue vil. Ó florezinhas do mato, por que dessa cor vos tingistes, se já tão vermelhas sois? |
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