| João Cabral de Melo Neto |
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POETA DO RIGOR por Reynaldo Damazio O poeta João Cabral de Melo Neto, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, morreu no dia 9 de outubro, praticamente cego. Triste ironia para um poeta que amava a pintura e cuja poesia explora os recursos da imagem. A obsessão construtiva fez da poesia de João Cabral um caminho singular, incomum, na literatura brasileira deste século. Poesia rigorosa, cerebral e construtiva, como o trabalho de um "engenheiro" da composição. Nascido em Pernambuco (1920), passou parte da infância vivendo em engenhos de cana-de-açúcar, experiência que marcou profundamente sua visão de mundo e sua percepção estética. Estudou em Recife com os Irmãos Maristas, mas não teve curso superior, embora considerasse o que aprendeu no convívio com Willy Lewin e posteriormente com Joaquim Cardozo o equivalente a uma Faculdade.Publicou seu primeiro livro em 1942, Pedra do Sono, em que apresenta uma estruturação radical da linguagem, estilo que destoava do contexto conservador da poesia que se consagraria como a chamada "Geração de 45". Justamente em 1945 lança O Engenheiro e ingressa na carreira diplomática. O primeiro posto no exterior foi em Barcelona, contato essencial para a formação de sua obra literária. Na Espanha, teve grande atuação como agitador cultural, entrando em contato com artistas plásticos e poetas importantes, chegando a editar numa prensa caseira livros de poesia. Trabalhou também nos Estados Unidos, Espanha e Ásia. Com a publicação de O Engenheiro, João Cabral começa a produzir uma poesia marcadamente auto-reflexiva, onde a metalinguagem (poema que fala do próprio poema, ou da realização do poema) se torna a base estrutural dos textos. Esse processo se agudiza com o livro Psicologia da Composição, de 1947. Nele, os pemas "Fábula de Anfion" e "Antiode" marcam o ponto culminante da radicalidade construtiva do poeta, que passa a compor "uma espécie de sistema de composição", nas palavras do poeta Duda Machado. Ainda segundo Machado, "este sistema compõe-se da estrofe de quatro versos, do predomínio de rimas toantes, da métrica com tendência ao verso de oito sílabas, do desdobramento contínuo de uma imagem em outra, pela análise da imagem anterior, até o surgimento de uma imagem capaz de máxima aproximação ao objeto". A partir desse momento, o poeta consolida seu nome ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes – geração que desde os anos 30 representaria o segundo momento do modernismo brasileiro, inaugurado com a Semana de Arte de 1922. Com o poema O cão sem plumas (1950), a preocupação com a temática social aparece com mais intensidade na poesia cabralina. A pobreza crônica e a aridez do cenário nordestino são filtrados pelo rigor e pela construção, a palavra é trabalhada à exaustão, em seus múltiplos aspectos semânticos. Se no início o trabalho poético de João Cabral refletia nítidas influências do surrealismo e de processos cubistas; com o tempo, o autor passa a estabelecer uma poesia de rigorosa objetividade. Verdadeiros estudos poéticos da paisagem, criando uma linguagem especial, anti-lírica por excelência. Seguem-se os livros O Rio (1953), Duas Águas (1956), Quaderna e Dois Parlamentos (1960). Em 1961, reúne Quaderna e Dois Parlamentos a uma nova antologia de poemas – Serial – com o título de Terceira Feira. Em todos, o poeta aprofunda a relação entre a dura estruturação formal e as questões da realidade social. Para muitos esse equilíbrio está melhor resolvido no poema dramático Morte e Vida Severina, de 1966, cuja encenação em pleno período de recrudescimento do regime militar causou problemas para o elenco. Embora o autor tenha dito que considerava este um de seus textos mais fracos, o poema que fala dos dilemas da seca e da migração no Nordeste acabou se tornando popular, com adaptações para o teatro e a televisão. Em 1969, João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Nas décadas de 70 e 80 produz obras importantes, como Museu de Tudo (1975), A Escola das Facas (1979), Agrestes (1985) e Crime da Calle Relator (1987). Aposenta-se do Itamaraty em 1990, quando lança Sevilha Andando. A partir de 1992, começa a sofrer de cegueira progressiva e não consegue mais ler. Em 1994 é publicada sua Obra Completa. Sua poesia, embora rica de referências e formalmente complexa, afasta-se das formas eruditas e aproxima-se das raízes populares, especialmente com o recurso às quadras, trovas e literatura de cordel. A obra de João Cabral é uma das mais radicais na elaboração de uma linguagem poética inovadora e crítico-criativa. Seus poemas parecem compor sutis partituras, misturando elementos do cancioneiro ibérico e do romanceiro nordestino, num trabalho intermitente de elaboração e reelaboração. Nas palavras de outro poeta, Augusto de Campos, "a poesia-crítica de João Cabral, poesia de protesto ético e poético, começa por desmistificar o próprio conceito de poesia". Poema de João Cabral de Melo Neto do livro Agrestes, 1981-1985 O Último Poema Não sei quem me manda a poesia nem se Quem disso a chamaria. Mas quem quer que seja, quem for esse Quem (eu mesmo, meu suor?), seja mulher, paisagem ou o não de que há preencher os vãos, fazer, por exemplo, a muleta que faz andar minha alma esquerda, ao Quem que se dá à inglória pena peço: que meu último poema mande-o ainda em poema perverso, de antilira, feito em antiverso. Poema inédito de Frederico Barbosa, em homenagem a João Cabral, um dia depois da sua morte... Pior do que a morte O pior é que dizem: rezou. Ele que sempre foi contra, do contra, ateu, agora que zerou, creu? Ele que sabia que a vida é coisa de sempre não. Sem fórmulas fáceis, nem saídas para a dor de cabeça de pensar de ser sem crer. Ele que sabia que não há aspirina contra o bolor. Logo dirão que se inspirou, e compôs de improviso um soneto vendido, dos que sempre enfrentou. Dirão ainda que se converteu e defendeu a vida devota, a pacificação bovina, a prédica dos pastores. ( Verbo e verba: pragas velhas. ) E que se arrependeu do pecado de ser exato, claro e enjoado. Vida, te escrevo merda. Às vezes fezes, mas sempre merda. Fingida flor, feliz cogumelo, caga e mela. Sempre severa e cega merda. Triste é depender de relatos carolas, acadêmicos, cartolas. Triste é depender da leitura alheia, fáceis falácias: farsas. Triste é depender dos olhos dos outros, de voz de falsas sereias. Triste é não poder mais se defender. Mas um aqui, João, incerto, grita e insiste em não crer na sua crença repentina, que a morte (sua) desminta a obra (sua) vida. Um aqui, João, o tem por certo: é mais díficil o não crer, não ceder, não descer, não conceder. Não. Não, não orou. Comentário crítico de Flora Süssekind, in A voz e a série Sette Letras/UFMG, 1998 "É freqüente um movimento apreciativo de exclusão quando se trata de classificar a poesia de João Cabral de Melo Neto no interior da literatura brasileira. Um lugar bastante honroso, mas à parte, é o que se costuma oferecer ao seu rigor construtivo, posição corroborada, em geral, pela referência ao fato de o poeta ter passado grande parte de sua vida, como diplomata, no exterior. Não há dúvida, por outro lado, que a densidade alcançada pelo sistema expressivo cabralino resulta, em parte, da reelaboração crítica, nele operada, de elementos fundamentais da poesia narrativa colonial e da literatura brasileira moderna. Tais como, no repertório colonial, o aproveitamento de tema histórico (vide o Auto do Frade), como na Prosopopéia, de Bento Teixeira, por exemplo, ou preocupação descritivo-geográfica (lembre-se O Rio) próxima à de textos como "À Ilha de Maré", de Botelho de Oliveira. Ou, pensando na poesia moderna, a dicção simples de Manuel Bandeira, as marcas da prosa no verso, características de Carlos Drummond de Andrade, a compreensão da poesia como construção, como em Joaquim Cardozo, a plasticidade de imagens de Murilo Mendes." |
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