| Horacio Costa |
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Horácio Costa por Nelson de Oliveira A arte começa justamente no momento em que a filosofia já não nos consola mais. Por mais que eu concorde com esse dito de Schelling, difícil deixar de pensar em Quadragésimo (Ateliê Editorial, 160 páginas. R$ 15,00), novo livro de Horácio Costa, poeta brasileiro radicado no México, como algo desvinculado das grandes correntes filosóficas. Categorias como "sujeito", "objeto", "consciência", "representação", "fato" e "conceito", consolidadas por uma tradição que teve início na Grécia Antiga, emergem a todo o instante nos poemas aqui reunidos. São trinta poemas — alguns em português, alguns em inglês, alguns ainda em português, inglês, francês, espanhol, alemão e grego —, distribuídos em cinco sessões (Aniversários, Musas, Terras, Ares e Lugares), sendo o mais antigo de 88. A mistura de línguas e de personagens reais e fictícias é o que dá unidade a esses textos escritos no decorrer da última década. Neles aparecem figuras tão díspares quanto Marat, o rei Minos, a mulher de Lot, Wang Wei (pintor na China Imperial) e o gigante Atlas. Tal ecletismo tem como objetivo reinstaurar, na lengalenga de nosso cotidiano, o tempo mitológico, mais rico e intempestivo. Afinal, os dias heróicos não foram só os da Torre de Babel, mas também os da Revolução Francesa; por isso, tanto a Torre quanto a Revolução vêem-se subitamente reunidas, quase contra a própria vontade, num único espaço: o delimitado pelos versos.As páginas mais bem realizadas do livro nos oferecem colagens de textos de outros autores, de citações de obras de arte e de manifestos políticos, como é o caso, por exemplo, do poema que empresta o nome à coletânea. Os versos iniciais do Quadragésimo ("E como eu caminhasse solitário / por uma mesma estrada pedregosa") vêm diretamente do belíssimo A máquina do mundo, de Drummond ("E como eu palmilhasse vagamente / uma estrada de Minas, pedregosa"). Se por um lado o original (na verdade, uma bem-realizada paródia de Camões) tornou-se, com o tempo, um dos poemas mais deslumbrantes da língua portuguesa, por outro a "cópia" — atenção às aspas — não deixa nada a desejar. Vai fundo no duelo entre razão e percepção, entre entidade que pensa e entidade pensada, ao nos apresentar um peregrino numa estrada deserta — metáfora da condição humana na Terra, adotada por Dante na Divina comédia —, cujos cinco sentidos, ampliadíssimos, captam e reinterpretam a natureza circundante como só mesmo Platão e Kant o fizeram, antes dele. O método compositivo de Horácio Costa, nesse e na maioria dos poemas de Quadragésimo, origina-se de intrincadas questões existenciais. Que é o homem? Em tese, o homem, ser descontínuo, é tudo o que não é a natureza, cosmo milimetricamente arquitetado. Mas em que momento termina a natureza e o humano começa, jamais ficou claro durante séculos e séculos de perquirições filosóficas. Por isso a colagem de referências, como única possibilidade de autoconhecimento. Por esse motivo a reunião do polo sofisticado e do vulgar num mesmo campo semântico: "The practical poet thinks in Greek with the help of a good software dictionary / The practical poet goes trekking in mountains dragons of fire / And he never mixes up his credit cards in the breast pocket of his Argentinian leather jacket" (The practical poet). Outro exemplo: no poema Musa em Cancún, há a descontinuidade de duas linguagens caras a nós, a verbal e a pictórica, que correm paralelamente, desafiando o leitor a reuni-las, se puder, num todo coeso. O ponto de partida do poema é prosaico: o narrador, deitado na areia branca de uma praia, quer olhar o sol mas não pode. Uma folha de palmeira impede-lhe a visão. Na página ao lado, há uma reprodução do quadro A lição de anatomia, de Rembrandt, que é, na verdade, a abertura de outro poema que irá dissecar aspectos da história particular das personagens do próprio quadro. A fim de impor ordem na desordem aparente, deve o leitor descobrir que relação há entre o sujeito deitado na praia, a pintura holandesa e o doutor Tulp, personagem central da Lição. Na falta de conceitos claros que possam unir tais elementos — vácuo sem o qual não haveria poesia no poema —, mais uma vez caberá ao leitor, e tão-só a ele, criar para si os pontos de equilíbrio que julgar necessários. Arte e religião. Filosofia e cultura de massas. Efemérides particulares e História. É do entrechoque das águas que surge, por um átimo, a tão procurada resposta ao irrespondível: "Que é o homem?". Até mesmo o leitor menos atento irá perceber, durante a leitura de Ela novela, O lobo-criança, The way to be e dos demais poemas de Quadragésimo, que há muita, muitíssima prosa em todos eles. O que durante muito tempo foi encarado com desprezo — o prosaísmo no mito e na poesia — provou, mais uma vez, ter imenso valor. Em seu terceiro livro, Horácio Costa nos apresenta verdadeiros microcontos versificados, que servem, no mínimo, se é que poesia tem de servir para alguma coisa, justamente para pôr em cheque o próprio conceito de "prosaico", constituindo-se tal rebaixamento o mecanismo que eleva as colagens e ziguezagues deste poeta a patameres nunca dantes navegados. Nelson de Oliveira é escritor, autor de Treze (Ciência do Acidente) e Subsolo infinito (Companhia das Letras). |
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