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Ferreira Gullar PDF Imprimir E-mail
Meio século de poesia
por Reynaldo Damazio

José Ribamar Ferreira, nome de batismo de Ferreira Gullar, está completando 70 anos de vida e 50 de carreira literária. Crítico polêmico e poeta inquieto - para quem o poema nasce do espanto diante da realidade - seus textos literários, teatrais ou de crítica mantêm uma profunda coerência com sua postura criativa e combativa. A reedição de sua obra completa, Toda poesia, que além de revista e ampliada traz um CD com leituras do autor, permite ao leitor acompanhar com imenso prazer a grandeza de sua contribuição para a literatura brasileira deste século.

Ferreira GullarO poeta, crítico de arte e dramaturgo Ferreira Gullar nasceu em São Luís do Maranhão, em 10 de setembro de 1932. Atualmente vive no Rio de Janeiro. Começou sua atuação profissional, ainda jovem, na imprensa. A estréia na literatura aconteceu em 1949, com o livro Um pouco acima do chão. Participou do movimento Concreto e depois desligou-se, por discordâncias estéticas e ideológicas, fundando o Neoconcretismo, com poetas e artistas plásticos do Rio de Janeiro. São deste período os livros A luta corporal (1954-56), um dos mais importantes de sua obra, além de ser um dos mais elogiados e comentados de sua geração, e Poemas (1958).

Na década de 60 foi obrigado a viver no exílio (União Soviética, Chile, Peru e Argentina) por sua atuação política contra o regime militar. Essa experiência está registrada no relato autobiográfico Rabo do foguete - Memórias do exílio, publicado no ano passado. Durante o exílio também escreveu o Poema sujo (lançado em 1976), texto longo que mescla elementos da memória, da infância, da realidade do país e apresenta um embate feroz com a linguagem poética. Este livro difícil e fragmentado tornou-se um grande sucesso e consagrou o autor.

Escreveu Dentro da noite veloz (1975) e Poema sujo (1976), dois livros que trazem a riqueza do experimentalismo com a linguagem em tensa simbiose com traços autobiográficos e de questionamento existencial. Em 1987 publica Barulho, quando acredita ter chegado a um impasse criativo

Ferreira Gullar também tem atuado intensamente na crítica de arte, produzindo ensaios essenciais para a compreensão das tendências contemporâneas. Entre os textos nesta área, destacam-se: Teoria do não-objeto (1959); Vanguarda e subdesenvolvimento (1969); Etapas da arte contemporânea (1985); Argumentação contra a morte da arte (1993). Além disso, faz parte da equipe de roteiristas de minisséries da Rede Globo de Televisão.

Em 1997 lançou o livro Cidades inventadas, reunindo 23 narrativas breves sobre cidades que vinham surgindo na cabeça do poeta desde 1955, com ilustração de Rubem Grilo.

Ferreira Gullar publica o livro de poemas Várias vozes, em 1999, reunindo a produção dos últimos doze anos e demonstrando que mantém a força da linguagem que recorta as cenas do cotidiano com reflexões agudas, traçando imagens ao mesmo tempo delicadas e provocadoras.

POEMA DE FERREIRA GULLAR - MUITAS VOZES

Mau despertar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorrem
uns restos de treva.
 
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