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A difícil contenção do abraço Qué largo abrazo te daría en la penumbra de mis espinas. Federico García Lorca A geração de poetas nascidos no início da década de oitenta terá atingido a maioridade sob o signo da morte de João Cabral de Melo Neto, e conseqüentemente sob influência da delicada aporia que sua ausência e legado parecem ter inaugurado em setores variados da expressão poética nacional. Um complicado processo de apropriação tem sistematicamente buscado, para alívio da insuportável tarefa de continuar o projeto cabralino em toda sua implicação estética radical e desagregadora, confiná-lo sob o título de manifestação singularíssima e trajetória pessoal, ou então prestigiá-lo pelo modelo e pela receita, sem cogitar da difícil inserção humana que a adesão verdadeira exige. Se a radicalidade e coerência do projeto estético ("Riguroso horizonte") cunhou desde o início uma poesia agreste que contempla seu isolamento "rindo de ser sem discípula" ("A Augusto de Campos"), o que dizer da incondicional escavação humana, da imponderada filiação moral que os cemitérios rurais e urbanos disseca buscando tanto aquilo que "se perde na terra / em forma de alma, ou de nada" quanto alguma modalidade de vida, ainda aquela vida que "não ora, fala / e com palavras agudas"? A decisão estética tem radical essencialmente humano em João Cabral de Melo Neto, e esta confidência ética é a base da procura pela contundência e pela exatidão que se resolvem no fazer construtivo. O elogio de Mondrian ("No Centenário de Mondrian") é tributado à rendição de uma alma cansada de lutar contra o que é inerte, ardida de "lucidez brasa" e "atenção carne viva" por uma pintura que ensina "a moral pela vista": só essa pintura pode, com sua explosão fria, incitar a alma murcha, de indiferença ou acídia, e lançar ao fazer a alma de mãos caídas, e ao fazer-se, fazendo coisas que a desafiam. Ao direito à pesquisa formal que as vanguardas brasileiras souberam aplicar e renovar desde a reivindicação de Mário de Andrade, e que não é diferente do que incide sobre a arte abstrata, João Cabral equipara o direito do espírito ao constante desafiar-se, e parece que aqui o discurso plástico e o discurso dissertativo referidos por Antônio Houaiss em 1956 consternam-se em igual medida ante a constatação do fato ético contido nesse desafio. Cabral é responsável, entre outras coisas, pela sofisticada síntese em verso brasileiro da contenção do sentimento presente no universo espanhol (vide o poema "Alguns Toureiros", onde Manuel Rodriguez ensina a "domar a explosão") com o vestuário conceitual da idéia de "composição" tal qual formulada por Valéry, ou seja, com o requisito essencial do planejamento que torne forma e conteúdo indissociáveis - que construa o "poema" como unidade fenomenológica transparente e harmônica em que a autonomia do significante desautoriza o fetiche de uma "sintaxe" previamente "hermética" (como se "sintaxe" e "sentido" existissem apenas para atrapalhar um a vida do outro). A justificativa humana dessa construção cubista com planos e tijolos parece compartilhar sua essência com o fundamento ético do Suprematismo de Malevitch. Dizia o artista que o quadrado (objeto de sua formulação) era tanto mais humano quanto menos se achava entre as formas preferidas pela natureza. É nesta grade suprematista e árida, anti-naturalista, governada pelo "número quatro" e educada pela pedra que se dá a discussão da metáfora, essencialmente operária da varredura do real e sua dissecação pelo mecanismo poético que é mecanismo de conhecimento e participação. Em "Uma faca só lâmina", lemos que a "faca, ou qualquer metáfora, / pode ser cultivada", e certamente para servir à "fome pelas coisas / que nas facas se sente". Não há, portanto, forma de estar com Cabral sem aceitar seu desafio, sem emparelhar-se com ele na construção do edifício humano e das paisagens tipográficas. Em recente depoimento, o poeta Ferreira Gullar usou a metáfora de uma granada para se referir à poesia de João Cabral, onde a capa de ferro que a envolve, assim como o rigor formal da composição do poema, não explodirá sem a detonação da pólvora interior, ou seja, sem a genuína emoção estética, que ao "ovo de galinha" empresta o acabamento "daquelas coisas torneadas / num trabalho de toda a vida", conseguido por "mãos escultoras / escondidas na água, na brisa". Ou seja, não há rigor formal que suspenda a invenção poética, de índice humano, ou a liquidez das imagens que o "engenheiro" soube transformar em pura visibilidade, ou na mesma transparência que o poeta admirava em Le Corbusier. A influência da obra de João Cabral, que certamente não passou a ser maior por ser agora póstuma, pois que desde a "Psicologia da Composição" tem-se feito presente e incontornável (basta lembrar que Murilo Mendes "joãocabralizou-se" na sua "Convergência"), não pode restringir-se aos aspectos convenientes à pesquisa engendrada pelas vanguardas, não pode vir mutilada de sua visceral tomada de partido por uma contundência aberta ao social e ao plástico, no que eles guardam de humano. Se existe o mandamento de "despoetizar" o poema, existe também a dura tarefa de chegar-se ao que não se dá pelo aprendizado, ao que apenas se consegue pela mineração e descoberta: O que acontece é que escrever é ofício dos menos tranqüilos: se pode aprender a escrever, mas não a escrever certo livro. :: Ricardo Rizzo, Juiz de Fora, 1981, é estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor do livro Cavalo Marinho e outros poemas, Nankin Editorial (no prelo). Especial para Weblivros. |
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