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OS FEITIÇOS DO BRUXO BIOY CASARES
(( Leonor Amarante* ))

Há coisas e pessoas que enfeitiçam. Na literatura, Bioy Casares e sua obra A Invenção de Morel me envolveram de tal maneira que nunca mais outra novela latino-americana ocupou seu lugar. Desde o momento em que eu a li, tem sido a minha preferida. Como jornalista, um de meus projetos era o de entrevistar Bioy Casares. Num outono portenho, tive o privilégio de passar a tarde com ele. Seu estilo nobre e despojado emoldurava um pensamento refinado, sustentado por idéias multifacetadas, próprias de uma sólida cultura humanista. Fala mansa e gestos esparsos, Bioy não filtrou nada e nosso papo foi de livros a política, viagens a personalidades, passando pela infância, família e amigos. Como uma "foca" me deixei enfeitiçar.

Passados mais de dez anos, ainda hoje A Invenção de Morel me leva a "sonhar" com uma máquina fantástica, uma engenhoca qualquer que me fizesse reviver alguns momentos mágicos de minha vida. A trama lúdica desse nouveau-roman latino-americano ocupa posição de ponta e pode ser considerado um dos marco zero da realidade virtual. Muito mais que uma mera obra de ficção-científica, o texto formalmente simples, mas que trabalha conceitos sofisticados, movimenta diferentes planos do real, formando um bem arranjado calesdoscópio. Ainda como antena de seu tempo, Bioy Casares também previu a violência das metrópoles em A Guerra dos Porcos, a matança de idosos em Buenos Aires. Tudo escrito numa elegante máquina Royal preta, da década de 20.

Parceiro de Jorge Luis Borges, com quem viveu desde os tempos de colégio, Bioy foi seu prefaciador e interlocutor preferidos. Durante vários anos eles se encontravam diariamente para passar a vida a limpo, alinhavar idéias de um novo livro ou simplesmente jogar conversa fora. Autor de mais de 20 títulos, ele é considerado um mestre da prosa narrativa. Discreto, mas cultivando um fino humor, Bioy reuniu em Diccionario del Argentino Exquisito um glossário de termos insólitos do idioma espanhol, idéia antiga dos tempos em que freqüentava os cafés de Buenos Aires, onde invariavelmente impactava as mulheres na época.

Com raras traduções em português, a obra de Bioy não é tão conhecida no Brasil, tanto que sua primeira visita ao País só aconteceu em 1995, quando sua saúde já declinava e o charme do passado esmaecera. De qualquer forma, sua personalidade marcante nos lembrou que ainda tinha poderes de um brujo.


* Leonor Amarante é jornalista, crítica e curadora de arte, autora de As Bienais de São Paulo.
 
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