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Veronica Stigger abre sua caixinha de monstros A escritora gaúcha Veronica Stigger (Porto Alegre, 1973) viveu uma situação rara entre autores estreantes. Seu livro de contos O trágico e outras comédias foi lançado primeiro em Portugal, pela editora Angelus Novus, e posteriormente ganhou uma edição brasileira, pela 7Letras do Rio de Janeiro, em 2004. As narrativas são no mínimo desconcertantes. Personagens como o sujeito cujo corpo se deforma ao conversar com outras pessoas, a moça que mergulhou no próprio umbigo, a chuva inusitada de caralhos que mobiliza a população feminina da cidade, a menina que teme o dragão no corredor etc., nos levam ao passeio pelo absurdo cotidiano, numa mistura bem humorada de universos ficcionais que lembram Kafka e Beckett. A clareza e a naturalidade com que o texto flui, às vezes, deixa a impressão de que estamos lendo fábulas infantis. Só que esse fabulário é devastador, até em seus momentos mais, digamos, líricos. A seguir, Veronica fala do livro e de seus “monstros”, em conversa por email com a equipe de editores da Angelus Novus, que autorizou a reprodução da entrevista e a quem a agradecemos.
Weblivros: Aceita que se descreva O trágico e outras comédias como uma coleção de monstros? Significa isso que o monstro “está entre nós”? Os seus “monstros” servem algum daqueles propósitos “domesticadores” que tinham, por exemplo, em Lascaux? Veronica Stigger: Acho engraçado que se descrevam meus personagens como monstros, uma vez que quase todos nasceram da observação direta da realidade ou foram concebidos a partir de conversas com amigos, de histórias reais que me foram contadas ou ouvidas na fila do cinema, no ônibus, no banco. No corredor, o último conto do livro, por exemplo, foi inspirado pela frase “É noite no corredor”, dita pela filha de uma colega de mestrado, e no medo suscitado na menina por essa escuridão doméstica. Josefina originou-se de uma ida ao teatro. E "O fim" é, em certa medida, autobiográfico. É claro que não chovem caralhos nas cidades brasileiras, nem vemos por aqui gatos verdes andando nas ruas, mas é possível ligar a televisão e testemunhar o momento em que um Tarcísio revela seu grande segredo à família reunida num auditório, diante de milhões de telespectadores, em rede nacional, ou um Mário Sérgio vem a público para mostrar sua deformidade e pedir auxílio médico ou financeiro. Gosto de me imaginar uma escritora quase realista. Meus personagens poderiam ser descritos como monstros se se aceitasse que nossa realidade é monstruosa. Nesse sentido, poderíamos dizer não que o monstro está entre nós, mas que os monstros talvez sejamos nós. Não percebo como essa exposição de nossas monstruosidades possa ter um propósito domesticador. Não estou interessada em apaziguar, mas em inquietar. Web: Os monstros do seu livro são trágicos ou cômicos? Poderemos temporalizar de alguma forma as modalidades monstruosas enunciadas pelo título, fazendo recuar a primeira e avançar a segunda? Ou prefere não optar, digamos, por causa de um imperativo contemporâneo? VS: Concebo meus “monstros” como, simultaneamente, trágicos e cômicos. Não creio que, nas formas atuais de sociedade, ainda haja espaço para o estritamente trágico. O trágico e o cômico parecem caminhar juntos. De uma certa forma, já era assim nos festivais dionisíacos da Grécia antiga quando, a cada três tragédias, era apresentada uma comédia – o que pode nos levar a imaginar que o trágico e o cômico, muito mais do que opostos, talvez sejam complementares. Assim, pelo menos, entendo-os no meu livro. E acredito que o conto que dá título ao volume sintetiza e explicita esta idéia. A meu ver, meus personagens são trágicos em dois sentidos. Primeiro, porque não podem escapar a seus destinos “monstruosos”. Mário Sérgio sofrerá sempre de seu mal, Moacir continuará com sua grave enfermidade, Josefina e Sigismundo sucumbem às suas respectivas fobias etc. Segundo, porque suas “monstruosidades” criam uma relação de tensão, de conflito entre eles (os “anormais”) e a sociedade (os pretensamente normais). E o cômico talvez surja justamente daí: achamos cômico (risível, ridículo) aquilo que é estranho a nós, que não se coaduna com a nossa vida regrada, que foge aos padrões, isto é, que coloca em xeque as nossas presunções de “normalidade”. Não riríamos muito se alguém aparecesse fantasiado de galinha numa festa black-tie? Creio que por razões semelhantes rimos do destino trágico de Josefina, Mário Sérgio ou Maria Aparecida. Web: Existe uma genealogia brasileira para O trágico e outras comédias? Pode-nos falar dos seus pais, mães ou avós literários? VS: Poderá parecer pretensão minha afirmar que não acredito haver uma genealogia brasileira para O trágico. Creio que seria forçado demais tentar inseri-lo em uma ou outra tradição literária do meu país. Talvez ele se identifique, de algum modo, exatamente com aquilo que, na literatura brasileira, também sente falta de uma tradição, como Hilda Hilst. Também noto possibilidades de aproximação com alguns escritores contemporâneos, entre os quais destaco André Sant’Anna. Mas vejo O trágico mais como um corpo estranho, um objeto não-identificado no universo da literatura brasileira. Se passarmos para o campo da literatura sem limitações territoriais ou lingüísticas, imagino que poderá haver leitores que encontrem uma filiação para o caráter absurdo d’O trágico nos contos de Borges e Kakfa – dois autores que li com a máxima atenção e aos quais sempre retorno. Entretanto, para mim, apesar disso ser uma honra evidente, não creio que aí se ache a ascendência do livro. Gosto de pensar que os verdadeiros pai e avó d’O trágico são Lévi-Strauss e Jane Austen. Nada me impressionou, e me impulsionou à escrita, mais do que os relatos dos mitos dos índios sul e norte-americanos – principalmente, dos bororos em O cru e o cozido – e as narrativas “para mulheres” produzidas tanto por Austen quanto pelas irmãs Brontë. Web: No seu livro, o universo “aberrativo” parece dispensar categorizações formais. A brevidade, no entanto, parece ser um traço enunciativo dominante. Será a forma do “encontro imediato” especialmente apta para a matéria alienígena? VS: Creio que sim. Acredito que o alienígena, ou o estranho, como prefiro chamá-lo, exige a forma do “encontro imediato” por um motivo muito simples: se o encontro se alongasse, o estranho deixaria de ser o que é, acostumar-nos-íamos com sua estranheza e acabaríamos considerando-o familiar; e pior, talvez até o entendêssemos! Na minha opinião, a brevidade concentra e intensifica a estranheza, porque não permite ao leitor que se acostume a ela. A brevidade não explica, desnorteia. E é isso o que me interessa. Web: Um aspecto flagrante da sua escrita é o português básico, quer no léxico quer na sintaxe. Isso, mais a brevidade da escrita, fazem com que os seus textos coincidam, porventura involuntariamente, com a pragmática da comunicação na era da globalização: soundbytes literários ou, se preferir, bombas de fragmentação, usando e sabotando a linguagem da tribo urbana universal. Aceita esta descrição? VS: De uma certa maneira, sim. Creio que o português básico, as excessivas repetições, a linguagem quase infantil das minhas comédias refletem, em alguma medida, a linguagem das ruas, por meio da qual a matéria da maioria dos contos, como já disse, me chegou. Mas não creio que a escrita do livro possa ser compreendida somente por uma aproximação à linguagem da tribo urbana. Também vejo na linguagem básica d’O trágico uma tentativa de mimetizar a oralidade das historinhas para crianças, dos contos-de-fadas, das lendas, dos mitos. Repare que diversos dos meus contos começam por “Fulano de tal faz (ou fez ou fazia) tal coisa”, um modo tão rígido e convencionalizado quanto o “Era uma vez”. Afora isso, também acho que este tipo de linguagem básica, associada à brevidade, contribui para intensificar a estranheza. Web: Que disposição anímica lhe suscita o fato de ter o seu primeiro livro publicado por uma editora portuguesa? VS: Acho maravilhoso ter a oportunidade de publicar meu primeiro livro por uma editora portuguesa. E creio que isso só confirma a minha impressão de ser O trágico um corpo estranho na literatura brasileira. Como ele não encontra parentes no meu país, me parece natural que os editores brasileiros olhem para ele com um certo receio – e que editores estrangeiros (estranhos, alienígenas...) tenham encontrado nele algo que lhes interessasse. Mas isso não me faz perder o sono. O que me deixa extremamente feliz é ver o meu primogênito editado e, se tiver sorte, lido. |