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TORDESILHAS: encontro de poéticas ibero e latino-americanas PDF Imprimir E-mail
gabriela.jpgEntrevistas com poetas que participaram do evento em São Paulo
Por: Gabriela Cuzzuol

Ao lado, foto da poeta Maria Eugenia Lopez


Virna Teixeira nasceu em 1971, é brasileira e médica. João Miguel Henriques é de 1978, português e professor María Eugenia Lopez é argentina, "da safra de 1977" e professora. A princípio, não muito em comum. O que os "liga", no entanto, é a predileção por uma mesma forma de arte: a poesia.

Influenciados por elementos diferentes e possuidores de históricos distintas, tanto João quanto Virna e María Eugenia escrevem, publicam e organizam eventos relacionados ao tema.

Entre os dias 1 e 4 de novembro, os três poetas se encontraram no projeto Tordesilhas, realizado em São Paulo, que trouxe ao país artistas de diversos países de língua portuguesa e espanhola.

Na entrevista abaixo, especial para Weblivros, Virna João Henriques e María Eugenia mostram, sob uma perspectiva poético-literária, opiniões distintas, que de forma particular ajudam a traçar um panorama da poesia que vem sendo feita "nos tempos nossos":

WEBLIVROS: A interatividade entre poesia ibero-americana é uma realidade prática ou teoria pura?
Virna: Acho que a poesia ibero-americana sempre esteve próxima, enquanto a latino-americana precisa de expansão. Analisando historicamente, houve casos isolados de interações entre poetas, o que não significa que não tenha havido intercâmbio. O contato maior sempre foi com Portugal. Agora, porém, está mais forte. O acesso foi facilitado pela Internet, blogs, sites, que facilitam o diálogo e revelam leitores potenciais.

João Henriques: Eu não acho que haja muita interatividade, não. É mais uma coisa de relações pessoais; se eu tenho um amigo poeta brasileiro, irei lê-lo e assim terei maior contato com a poesia brasileira...

María Eugenia: Depende do poeta, é uma escolha pessoal. Durante festivais você percebe a interação com mais facilidade. Conheci aqui vários poetas que passarei a ler. Às vezes o acesso às publicações internacionais é complicado; conseguir traduções de contemporâneos não é fácil . Mas eu acho que o poeta tem que se forçar a tal. Não dá para se fechar....

WEBLIVROS: O trabalho de vocês tem influência direta de poetas brasileiros?

João Henriques:
Não muita.

María Eugenia:
Meu trabalho não tem influência direta de poesia. Sou influenciada por várias coisas: cinema, imagens, "comics", imagens do dia-a-dia... Poetas influenciam, sim, mas de forma indireta.


WEBLIVROS:
Uma "descoberta literária nova", da qual realmente gostem, passa a influenciar a criação literária imediatamente?

Virna: Depende do impacto. Minha escrita tem muitas influências que não são poesia. Às vezes vou a exposição de arte e aquela tela me impacta de forma profunda, isso pode se manifestar na poesia, o que não quer dizer que eu vá escrever um texto exatamente sobre a tela. Agora, eu também filtro as influências. Não entra tudo o que eu gosto.

João Henriques: Pode ser que sim, mas não é um processo imediato.


WEBLIVROS: O que é mais importante na criação poética: a forma ou o conteúdo? É o "como", ou "o que se diz"?

João Henriques: Os dois. Eu gosto muito de linguagem, então minha poesia acaba sendo um pouco formal. Por outro lado, acho que "falaciar" (sic) bem o poema é importante para sua composição... Ou seja, assim abdico um pouco da forma em função do conteúdo. Na minha poesia entram vários temas que não têm diretamente a ver comigo. Às vezes uso coisas de outras pessoas, situações que não têm vínculo direto comigo.

María Eugenia: A poesia me diz coisas, então tanto um quanto o outro não podem ser desconsiderados.

WEBLIVROS: A poesia portuguesa contemporânea aborda questões sociais?

João Henriques: Não muito.As questões sociais estão sempre presentes na poesia, mas hoje é de outra forma. Não creio que seja aquela coisa "engajada" que era antigamente, hoje as pessoas pensam mais no "eu". Creio que as pessoas fizeram outras opções, resolveram falar de outras coisas. Mas ali, há um trabalho em cima das situações do cotidiano, ou seja, um reflexo da realidade, porque as pessoas não vivem isoladas. Isso se reflete na poesia.

WEBLIVROS: A Argentina passou recentemente por um momento político conturbado. Isso tem sido manifestado na poesia produzida depois deste momento?

María Eugenia: Creio que a poesia já é política por si só. Ela não tem a obrigatoriedade de tratar de política. Mas a produção argentina está inserida no mundo e é, sim, crítica. Na minha opinião, é bem realista, tratando de coisas muito atuais, de "limites". Acho que a poesia se coloca na "borda" das situações e faz criticas, sim.

WEBLIVROS: María Eugenia, você participou de oficinas em penitenciárias de La Plata. Foi uma forma de divulgar seu trabalho como poeta, ou algo feito por razões pessoais?

María Eugenia: Nas oficinas das quais participei, incentivávamos as pessoas a escrever e ler as próprias poesias, ou seja, não havia muito acesso às nossas coisas. Não estávamos lá como "poetas", mas como pessoas incentivando as outras pessoas. Fiz isso por achar válido e interessante. Aquele foi um trabalho com dependentes químicos, nós os estimulávamos a produzir arte como uma forma de terapia. Gostei muito daquele trabalho e acho que valeu a pena.

WEBLIVROS: O público de poesia contemporânea ainda é formado por acadêmicos e escritores?

María Eugenia: Na Argentina o público ainda é restrito.

João Henriques: Em Portugal o público em geral não consome muita poesia não. Os jornais até que divulgam, mas é pouco, não há muito interesse por parte das pessoas, é complicado. Ainda há sim, aquela coisa de que leitor de poesia ainda é o poeta, ainda existe um círculo.

Virna: Acho que o público ainda é restrito, mas isso está mudando. Há muitos jovens fazendo poesia, freqüentando eventos, publicando, organizando evento. A freqüência dos jovens é uma constante

WEBLIVROS: O que você acha que pode ser feito para ampliar o acesso das pessoas comuns à poesia?

Virna: Várias coisas, como aumentar o acesso às publicações, divulgação de eventos de poesia, aumento do espaço concedido pela mídia, e aí vai crescendo. Desde o aumento do espaço para resenhas até a melhora nas condições de educação. Em alguns jornais norte-americanos você tem um espaço (ainda que pequeno) dedicado à agenda de eventos literários. Aqui não vemos esse tipo de coisa, então, falta acesso.


Gabriela Cuzzuol é jornalista, pós-graduanda em jornalismo cultural pela PUC-SP e professora de literatura pela Universidade Federal do Espírito Santo. Especial para Weblivros.

 
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