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Ricardo Piglia PDF Imprimir E-mail

Dinheiro Queimado, último romance de Ricardo Piglia, lançado no Brasil no ano passado, baseia-se em uma história real ocorrida entre 27 de setembro e 6 de novembro de 1965, quando a quadrilha formada por Malito, Gaucho Dorda, Cuervo Mereles e Nene Brignone assalta um banco em San Fernando, província de Buenos Aires, e foge para Montevidéu, de onde pretende alcançar o Brasil. A entrevista que se segue foi realizada por Maria Antonieta Pereira, quando Ricardo Piglia esteve em Belo Horizonte para o lançamento do livro, em agosto de 1998.

piglia.jpgWEBLIVROS!: Você concorda que Dinheiro queimado é uma mudança no seu jeito de narrar, na medida em que troca os debates típicos dos intelectuais de oposição, reunidos em ambientes fechados como bares e jornais, pela narração vertiginosa de assalto, fuga, resistência, tiroteio e multidão na rua?

PIGLIA: Sim, trata-se de algo deliberado, no sentido de que se pode escrever de pontos de vista diferentes e que a continuidade de uma obra se faz de uma maneira aberta. Eu observo muito os escritores que trabalham com variações de um mesmo tom narrativo, de uma mesma temática, como Onetti e Saer, que têm uma continuidade muito visível. Porém, eu estou mais próximo de escritores como Manuel Puig ou, num exemplo máximo, como James Joyce, que têm a pulsão de modificar o sistema narrativo, a técnica narrativa. Inclusive eu vejo também muitas diferenças entre Respiração artificial e A cidade ausente e, evidentemente, entre A cidade ausente e Dinheiro queimado. Em que consiste para mim a diferença? Consiste em que trabalho com personagens que são intelectuais: isso é o ponto de partida básico da diferença, na medida em que começo a elaborar um romance a partir de personagens absolutamente diferentes, que têm uma problemática completamente diferente - e não digo que não haja aí nenhuma ligação com outras obras, como o personagem Emilio Renzi, que aparece quase como uma citação. E mudar o material narrativo modifica também a perspectiva e todo o estilo. Então tratou-se, para mim, basicamente, de tornar a decisão de não escrever sobre intelectuais, mas sim de escrever uma história com personagens que vêm de outro universo. Isso demandou uma decisão lingüística, uma decisão estilística do ponto de vista narrativo. Entretanto, Dinheiro queimado tem algo em comum com meus outros textos num projeto geral: é o jogo que sempre me intriga, que é a relação entre ficção e não-ficção. A questão de como trabalhar com os fatos reais é algo que já está em "Mata-Hari 55", conto de A invasão. O que acontece é que aqui essa indecisão entre ficção e realidade é trabalhada de outra forma. Não se trata tanto de produzir um efeito ficcional, mas sim de produzir um efeito de realidade.

WEBLIVROS!: No livro de contos La Argentina en pedazos, você declara o seguinte: "O dinheiro, podia dizer Arlt, é o melhor romancista do mundo: converte em destino a vida dos homens. Em seus romances, o dinheiro aparece como causa e efeito da ficção." Poderíamos ler Dinheiro queimado também a partir dessa chave?

PIGLIA: Sim. Eu acredito que, em Dinheiro queimado e já presente no título, o dinheiro funciona como o destino: o sentido grego do destino é a causa de tudo e ao mesmo tempo é a desgraça. O dinheiro é o mal: o mal puro, não? O dinheiro é aquilo que é considerado no imaginário medieval como o demônio, a encarnação do mal. E o dinheiro também funciona como um enigma. Nesse sentido, eu diria que é um romance sobre o dinheiro porque é um romance sobre o mal em seu sentido mais puro. Não porque os personagens o encarnem em si mesmos, mas porque essa relação com o mal e com o dinheiro cruza suas vidas.

WEBLIVROS!: Sua narrativa dialoga com escritores ou relatos brasileiros?

PIGLIA: Há vários escritores brasileiros que me interessam. Rubem Fonseca é um deles. Admiro incondicionalmente Clarice Lispector, como umas das grandes escritoras deste século. E me interessa um escritor de que me sinto muito próximo, que é Osman Lins. E também me sinto absolutamente deslumbrado com a obra de Guimarães Rosa. Clarice Lispector, Osman Lins e Guimarães Rosa são escritores brasileiros que leio na mesma série em que leio Roberto Arlt, Borges e Onetti. Lembro-me de que encomendei certa vez a um amigo, que me trouxe do Brasil Grande serão: veredas, em português, que eu li com um dicionário ao lado e me demorei cerca de seis meses. Porque eu não sabia que esse português, do sertão, era assim tão diferente. A fascinação que eu sentia por esse livro era a fascinação pela língua, pela distância.

WEBLIVROS!: No mundo globalizado da oralidade e da imagem, o livro tende a desaparecer ou passará por uma transformação radical? Qual será o futuro do texto escrito e da narrativa ficcional?

PIGLIA: Eu penso que a narrativa persiste e que, no jogo da chamada cultura mundial, há intenção de se impor uma cultura, a norte-americana, que funciona como uma espécie de cultura única. No marco dessa cultura mundial, cada vez mais, têm peso as culturas locais. Paradoxalmente, à medida que o conceito de nação está em crise, me parece que agora são os universos regionais os que estão em diálogo direto com a cultura internacional. Guimarães Rosa podia ser um exemplo disso: alguém que trabalha com uma cultura muito particular, como a do sertão, e ao mesmo tempo se conecta com Joyce, numa passagem direta do local ao internacional. Me parece que esse é um processo que vai se aprofundar e talvez as culturas nacionais comecem a ser questionadas como espaço de mediação entre a região e o mundo.
 
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