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MEDICINA EM NOVA CHAVE
Por Reynaldo Damazio
O livro de Paulo Henrique Martins Contra a desumanização da medicina: crítica sociológica das práticas médicas modernas (Petrópolis: Editora Vozes, 2003, tel. 24-2233-9000) apresenta um estudo muito bem fundamentado, além de escrito com clareza e elegância, sobre a crise do discurso hegemônico da medicina no mundo contemporâneo. Recorrendo ao paradigma da “dádiva” do sociólogo francês Marcel Mauss (1872-1950), Martins defende uma reinterpretação do papel da medicina, mais próximo do seu conteúdo histórico humanista, que considera o ser humano como uma totalidade. Nesse sentido, o autor faz uma crítica da instrumentalização e da mercantilização do saber médico, incorporando os saberes ditos alternativos. Nesta entrevista exclusiva para Weblivros, o autor discorre sobre as questões fundamentais apontadas em seu livro e sobre o papel da sociologia na reflexão sobre as ciências exatas e biológicas. Sociólogo com doutorado e pós-doutorado na França, Martins é professor adjunto no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco.
Weblivros: Seu livro aponta uma crise aguda da medicina no mundo contemporâneo. Quais são as principais características dessa crise?
Paulo Henrique Martins: Para sermos rigorosos não se trata de uma crise da medicina moderna propriamente dita, mas de uma crise do discurso hegemônico, o da biomedicina ou o do método anátomo-clínico, cujo aparecimento como dispositivo institucional e de poder, Michel Foucault descreveu com muita sensibilidade no seu famoso Nascimento da clínica. Alias, o que procuro, no fundo, tratar neste livro é um tema que Foucault, caso estivesse vivo, relataria com muito mais competência: A Morte da Clínica. A crise de hegemonia desse discurso resulta da incapacidade da nosologia inspirada no sistema alopático dar conta da complexidade do mal-estar contemporâneo. Isto é, o discurso alopático se fundou numa metáfora de guerra pela qual a doença era vista como um inimigo externo que se infiltrava no organismo-máquina humano e cuja eliminação necessitava da competência de um especialista externo, o médico. Mas para que este paradigma de inspiração bélica, próprio da expansão colonial européia, pudesse ter êxito como técnica cientifica, foi necessário a invenção e formalização jurídica de um sistema de classificação das doenças que permitisse ao especialista distinguir o inimigo, para combatê-lo eficazmente a partir de fora do organismo; neste modelo o paciente não possui nenhuma expressão como sujeito da ação. Acontece que, hoje, as pessoas não estão mais aceitando com facilidade se submeterem ao ritual da “maquinização do corpo” e querem participar ativamente do processo de medicalização: discutindo, olhando, sendo escutado, trocando idéias, participando etc. Ou seja, existe atualmente uma exigência coletiva, às vezes difusa, às vezes explícita, a respeito da legitimação de um outro olhar sobre o sentido da medicina, um olhar que resgate a interatividade. A conseqüência imediata da crise do discurso bioorgânico hegemônico é o ressurgimento de uma série de outros discursos médicos que tinham sido reprimidos nos dois últimos séculos como, por exemplo, as medicinas doméstica e xamânica. Mas o processo de mundialização cultural também faz renascer antigas tradições como as medicinas orientalistas, sobretudo indianas e chinesas, que agora são ressignificadas mediante novos discursos mais apropriados aos tempos pós-modernos (que se abrem para a pluralidade de disciplinas e para a hibridização de saberes). Do mesmo modo, deve-se lembrar as reações importantes em curso a partir de profissionais da medicina oficial, entre os quais podemos lembrar aqueles da saúde coletiva, da epidemiologia e da psicossomática, que buscam introduzir uma visão mais ampla da saúde que não se reduza à questão da doença, e que possa integrar outras dimensões da natureza humana como as dinâmicas emocional e psicológica.
WL: Como é possível, na sua opinião, retomar o caráter humanista da medicina num contexto de conhecimento fragmentado e de graves fraturas sociais?
P.H.M.: Não se trata na verdade de retomar o caráter humanista da medicina. No meu entender a medicina é por origem, e desde sempre, uma disciplina humanista. O curador – xamã, medicine-man, curandeiro, médico, psicólogo etc. - sempre foi considerado como um personagem mítico na história humana: por fazer a ponte entre o mundo material e o mundo mágico, entre o aparentemente certo – a vida - e o reconhecidamente incerto – a morte. Desde sempre, e ainda hoje, ao se procurar um médico, as pessoas não estão apenas buscando um técnico, um especialista, mas um personagem dotado de poderes especiais e capaz de preencher dois tipos de expectativas: a maximização da esperança de vida e a minimização do receio da morte. O médico, pois, no plano do simbólico aparece como aquele personagem a quem a pessoa em sofrimento acredita que ao entregar em confiança os seus temores e fragilidades, receberá em retorno uma dádiva de vida (concretizada através de uma palavra amiga, um gesto afetuoso, um medicamento ou uma intervenção cirúrgica). Se as pessoas duvidarem das boas intenções do médico elas não o procuram. Qualquer pesquisa elementar sobre as representações dos pacientes demonstra que o critério da confiança é fundamental para assegurar a credibilidade da relação médico-paciente. No momento, presente, porém, algo de muito grave está acontecendo na estrutura dessa relação. As inúmeras denúncias de erros médicos associadas à indiferença de muitos profissionais com o sofrimento dos enfermos vem contribuindo para minar esta confiança estruturante da prática médica. As faculdades de medicina estão contribuindo para esse contexto depressivo. Elas estão deixando de se constituir em centros de formação de curadores para se tornarem departamentos de engenharia (bem qualificados para diplomarem engenheiros de órgãos, mas pouco aptos para estimularem a vocação do médico-curador). Aqui, entramos necessariamente na discussão de um fator que está agravando a crise do discurso hegemônico e vem gerando uma rápida desumanização de amplas parcelas do campo médico: trata-se da penetração do capitalismo especulativo no setor da medicina (laboratórios multinacionais, grandes firmas de equipamentos médicos, corporações profissionais, burguesia médica ascendente), cujo resultado principal e mais nefasto é o de provocar mudanças perigosas nas atitudes e valores presentes nas instituições e entre profissionais do campo médico. Isto é, a penetração de uma lógica utilitarista fundada no cálculo econômico, na produtividade e na especialização técnica, vem contribuindo para afastar mais ainda o médico dos pacientes que o procuram. A alegação é de que “time is money” e, logo, é necessário encurtar o tempo dedicado aos enfermos ou meros cidadãos apreensivos. A diminuição do tempo de escuta reforça o papel do diagnóstico formal fundado numa nosologia clássica e a-temporal que é inadequada para se diagnosticar as novas doenças de caráter psicossomático da contemporaneidade. A crença ingênua da medicina oficial neste tipo de método de classificação de doenças termina menosprezando o valor da experiência gerada pelo contato direto e pelo acolhimento do sofrimento do outro (o que era o grande trunfo do médico de família que os planos de saúde desprezam). A incapacidade crescente da medicina alopática especializada, submetida ao critério da produtividade econômica, de perceber o verdadeiro sintoma da maioria das doenças atuais, gera uma crescente síndrome de abandono e de rejeição por parte dos pacientes (agravando, por conseguinte, a expansão do quadro de neuroses sociais). Do mesmo modo, a organização dos orçamentos públicos e dos hospitais em função de critérios de produtividade gera distorções eticamente inaceitáveis como o de se recusar certos pacientes cujos tratamentos são mais onerosos (os idosos, por exemplo) em benefício de outros pacientes (portadores de pequenas lesões, por exemplo), que possam melhorar os indicadores da equação “maior número de pacientes X menor custo de atendimento”. Felizmente, no Brasil, o SUS vem se constituindo numa reação exemplar contra esse processo de desumanização em larga escala. Apesar das limitações financeiras evidentes desse programa, ele constitui uma das inovações mais bem sucedidas de uma medicina pública que busca assegurar os valores democráticos da universalidade, equidade e integralidade. Sem ele, sem dúvidas, a cidadania no Brasil estaria em condições bem mais precárias.
WL: Com o "boom" das terapias alternativas, em que medida tais práticas representam de fato uma opção para a "desumanização" da medicina, ou são mero reflexo da diversificação mercadológica capitalista, que se traduz no modismo?
P.H.M.: Na verdade, temos aqui duas coisas distintas embora interligadas. Uma delas é a crise do discurso hegemônico, o da clínica moderna de bases bio-orgânicas, que tem mais de dois séculos. A outra coisa é a penetração do capitalismo especulativo, inspirado na medicina privada e mercantil norte-americana, que vem ganhando força há duas décadas. O “boom” das terapias alternativas resulta da crise do discurso médico hegemônico e de sua incapacidade de dar conta da complexidade do fenômeno do mal-estar social contemporâneo (e dos sintomas físicos, emocionais e psíquicos deste mal-estar). Por seu lado, a penetração do capitalismo especulativo no campo médico vem acentuando de forma acelerada e muitas vezes tecnicamente desnecessária a divisão funcional do trabalho. Este novo ritmo da divisão do trabalho médico se expressa pelo aumento do número de disciplinas especializadas, sendo essa especialização incessante uma exigência fundamental para que a acumulação do capitalismo médico possa prosseguir, avançando mais profundamente no retalhamento simbólico do corpo humano. Ao mesmo tempo, gera artificialmente novas doenças que são fundamentais para que a máquina lucrativa continue a funcionar. Aqui surge uma questão paradoxal, a saber: em princípio, as terapias alternativas surgiram como uma manifestação de tradições médicas recalcadas pela medicina oficial, que se colocava como a única científica. As demais (inclusive a homeopatia, que nasce historicamente junto com a alopatia) passaram a ser estigmatizadas como irracionalistas e não-científicas. Nesta perspectiva, diríamos que o “retorno do recalcado” na medicina moderna, representado pelas terapias alternativas, deve ser celebrado como uma experiência política interessante de pluralização e de democratização do sistema da saúde como um todo. Mas, na prática, vem se verificando um fato perigoso: a reapropriação dessas práticas e técnicas pelo capitalismo ascendente, levando a que muitos profissionais alternativos passem a incorporar valores produtivistas nas suas atividades profissionais (que reforçam a indiferença do profissional com relação à dinâmica do sofrimento humano). Felizmente, aqui também podem ser relacionados muitos profissionais que não aceitam passivamente esta desumanização das práticas ditas alternativas.
WL: Gostaria que você explicasse brevemente a questão da dádiva, extraída de Marcel Mauss, e qual a importância deste conceito para se entender a função social da medicina.
P.H.M.: Dádiva não é caridade ou milagre, como se pensa, em geral, no Brasil. Embora a caridade e a esmola, por exemplo, sejam um tipo de dádiva, a cristã, na verdade a dádiva é um sistema mais complexo de trocas de bens, serviços e gentilezas ou desafios que está na origem de todo vínculo social. O paradigma da dádiva parte de um princípio oposto ao do utilitarismo, a saber: a natureza do ser humano não é a de um egoísta sempre a calcular o que vai ganhar ou perder, mas a de um ser doador, de ser um ente voltado por natureza para se relacionar, isto é, para sair de si em direção ao outro. A dádiva se materializa num ciclo de reciprocidades que apresenta três movimentos: o de dar, o de receber e o de retribuir. O que prova ser o argumento anti-utilitarista e humanista da dádiva mais forte do que o utilitarista individualista? Do ponto de vista teórico, o fato de que o ser humano tem uma natureza essencialmente social e não individual (à parte do grupo) e que por ser social o ser humano apenas pode viver em grupo. A individualidade é apenas uma forma de manifestação, pois, de um fenômeno essencialmente coletivo. Do ponto de vista prático, o fato de que a ideologia utilitarista e individualista tem produzido estragos importantes nos sistemas sociais e institucionais, gerando crescente exclusão e anomia social. O resgate da lógica de reciprocidade do grupo significa a possibilidade de reconstrução do vínculo social. Do mesmo modo, é importante não identificar a dádiva com mera generosidade. Se a generosidade pode revelar uma certa manifestação da dádiva, esta não se reduz àquela. A dádiva é um fato paradoxal mais complexo no qual a gratuidade convive com a obrigação e o interesse com o desinteresse. A obra clássica sobre o assunto é o Ensaio sobre a dádiva de Marcel Mauss, um dos fundadores da sociologia francesa. Este livro é particularmente interessante por descrever um tipo de dádiva muito recorrente nas sociedades tradicionais, a dádiva da rivalidade. Mas no Brasil, a Editora Vozes vem apoiando pioneiramente a difusão do debate, podendo aqui ser relacionado dois livros publicados recentemente: o de Alain Caillé, fundador do MAUSS (Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais) e grande especialista no assunto e intitulado Antropologia do Dom: o terceiro paradigma. Também gostaria de relacionar a coletânea que organizei sob os auspícios da Vozes e intitulada A dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social. A discussão da dádiva é, por outro lado, fundamental para se pensar a re-humanização da medicina. No meu livro, trato da dádiva médica que permite compreender as implicações simbólicas antes mesmo de práticas do processo de cura.
WL: Seu livro propõe a retomada da medicina como um fenômeno social e como um conhecimento global do ser humano. Como romper as poderosas barreiras dos interesses econômicos e mesmo ideológicos, que vinculam o uso da técnica ao lucro, instrumentalizando e compartimentando o conhecimento médico?
P.H.M.: Seria ingênuo responder a esta pergunta com algum chavão do tipo: “as novas medicinas estão afirmando uma barreira de resistência contra a desumanização do campo médico sob os auspícios do capitalismo médico”. No meu livro procuro ser comedido a respeito de qualquer previsão sobre os desdobramentos da situação presente. Mas parto de dois pontos iniciais: um deles diz respeito ao fato de existir uma complexidade tecnológica inevitável e que não pode ser desconhecida por ninguém (inclusive pelos terapeutas alternativos que se beneficiam dos avanços técnicos). Assim, as mudanças em curso no campo médico devem ser necessariamente compreendidas dentro de um movimento de mudanças de paradigmas científicos. O outro ponto tem a ver com o fato de que os rumos dessas mudanças no campo médico mundializado não levam necessariamente à democratização das práticas médicas. Esta, aliás, foi uma das ingenuidades de muitos dos autores da Nova Era: o de acreditar que a inovação tecnológica traria automaticamente a democratização da medicina contemporânea. No livro proponho existir duas saídas no horizonte mais imediato. Pela primeira, veremos o surgimento de uma poderosa corporação médica que vai canalizar todos os ganhos tecnológicos em função da ampliação da acumulação capitalista no setor, agravando as condições já precárias da cidadania dos mais desfavorecidos e, também, da classe médica impotente face aos aumentos incessantes dos serviços e produtos médicos. Pela segunda saída, podemos vislumbrar uma reação importante dentro e fora do campo médico, envolvendo profissionais, pacientes, cidadãos, mídia, intelectuais, políticos etc., inconformados com a desumanização e dispostos a lutar pela publicização do debate acerca dos pressupostos da produção e da distribuição dos bens simbólicos e materiais do campo médico (preço de serviços e de medicamentos, formas de participação nas discussões sobre investimentos hospitalares, criação de mecanismos de participação etc.).
WL: O ideal de entender o homem como totalidade, vivendo em harmonia consigo mesmo e com o meio ambiente, não estaria banido do mundo contemporâneo? Ou esta seria uma nova utopia para os tempos sombrios em que vivemos?
P.H.M.: O clima niilista dos tempos contemporâneos não deve necessariamente ser visto como a afirmação da profecia apocalíptica do evangelho de São João. A tragédia contemporânea, prematuramente vislumbrada por Nietzsche deve, também, ser compreendida como um despertar do homem para suas potencialidades objetivas e sobretudo subjetivas. Não falo daquela potencialidade limitada à “vontade de potência”, mas a de uma abertura extraordinária do entendimento humano com relação ao seu potencial criativo e transformador. Isto ocorre na medida em que a modernidade técnica é revista e criticada, permitindo emergir um pensamento complexo, como propõe Edgar Morin, que não se limita aos frutos materiais da racionalidade técnica e instrumental, mas que se abre para a incorporação de uma razão sensível e emocional. Razão que é estratégica para guiar a construção de um novo sentido coletivo e prazeroso para a humanidade. Aqui, mais uma vez temos que aprender algo com Marcel Mauss, que já nos inícios do século XX escreveu um texto sobre a magia, no qual explica que a primeira técnica desenvolvida pelo homem foi a arte mágica. Ou seja, desde os primórdios que a razão técnica se inspira na magia da vida, magia que significa a capacidade do ser humano imaginar e criar incessantemente.
WL: A crise da medicina não seria também, em escala ampla, uma crise do próprio conhecimento científico, ou de paradigmas, como se costuma definir?
P.H.M.: Como dissemos acima, está ocorrendo efetivamente uma mudança de paradigmas, obrigando a introdução de novos conhecimentos médicos que eram terminantemente proibidos de serem pronunciados por serem identificados com o charlatanismo. Um exemplo típico disso que dissemos é o da acupuntura. Como se sabe esta disciplina de origem chinesa se funda num princípio científico diferente da alopatia. Enquanto esta última foi estruturada a partir do princípio das causalidades mecânicas e das funções orgânicas, a acupuntura se funda na idéia de sistemas energéticos. Até o século XX, porém, pouco se conhecia no Ocidente sobre o assunto de energias sutis. Foi necessário o surgimento de figuras como Einstein para deflagrar uma inovação científica de peso no campo científico, obrigando a abertura deste para o acolhimento de novas teorias de bases sistêmicas como a energética. Aos poucos, as pesquisas contemporâneas no Ocidente sobre átomos e energias foram se institucionalizando e obrigando os cientistas a reverem suas crenças teóricas. E, naturalmente, a acupuntura passa a ser aceita sem maiores resistências...outras virão atrás...
WL: Quais as principais contribuições da sociologia para a compreensão e o aperfeiçoamento das ciências ditas exatas e biológicas?
P.H.M.: Durante os séculos XIX e XX, a sociologia procurou construir um discurso cientificista que pretendia se legitimar em leis positivas e empiricamente verificáveis. Tal tentativa sempre se mostrou problemática na medida em que o objeto da sociologia, a sociedade humana, não pode ser compartimentada num laboratório para ser objeto de verificação. Ao contrário, é próprio da natureza humana a incerteza e a indeterminação. A necessidade de compreensão mais profunda dos processos estruturadores da sociedade humana que se desenhavam além das crenças positivistas, já estava presente, porém, nos grandes clássicos da sociologia. Quando Marx fala da luta do homem como motor da história, quando Weber sublinha a importância da intersubjetividade e das ações mutuamente significativas ou quando Durkheim enfatiza as grandes crenças coletivas, eles estavam apontando para uma direção de pesquisa que veio se revelar muito fértil no século XX: aquela dos estudos sobre o simbolismo humano e sobre a subjetividade social. Ao longo das décadas, no último século, a valorização das implicações subjetivas da ação humana nas ciências sociais foram reforçadas com o apoio da psicanálise, da lingüística e da semiótica. Descobre-se, progressivamente, que a sociedade humana se constitui num sistema complexo de signos e símbolos que atravessam todas as instituições sociais e culturais, sem exceção. Assim, o que a sociologia tem de melhor a oferecer às ciências ditas exatas e biológicas é esta compreensão humanista mais abrangente da vida social. A sociologia tem que produzir conhecimentos que contribuam para o entendimento de que tudo produzido pelo homem tem valor intrinsecamente social e, por isso, deve ter como prioridade o próprio ser humano. Mas nem sempre este entendimento é evidente. Nos nossos estudos sobre a medicina, temos verificado que muitos médicos vêem com ceticismo o interesse do sociólogo estudar as práticas médicas, como se o debate sobre este assunto fosse exclusividade dos profissionais da área. Aqui, a sociologia pode oferecer uma boa ajuda, demonstrando as falácias dos argumentos corporativistas e a necessidade de enfatizar o caráter social (e político) de todas as instituições culturais e sociais.
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