Entrevista
Marçal Aquino | Marçal Aquino |
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ESPERANÇA CONTRA A BARBÁRIE
Weblivros: Vc publicou livros de poesia no começo de sua carreira literária. Como se deu a passagem para a prosa? Vc ainda escreve poemas? Marçal Aquino: Publiquei, de forma independente, um tira-gosto poético em 84 - "A depilação da noiva no dia do casamento" - e no ano seguinte uma coletânea, "Por bares nunca dantes naufragados" (RG Editores, Campinas, 85). Escrevi ainda um terceiro volume de poemas, "Postais do paraíso", que continuará inédito. Esse livro recebeu o Grande Prêmio Minas de Cultura em 91, mas não deixei que fosse publicado. Porque o livro é fruto exato da transição que eu fazia da poesia para a prosa, num momento em que ficou claro para mim que aquilo que eu chamava de poesia era, na verdade, prosa. Imagine: meus poemas tinham personagens e até mesmo tramas. A prosa era a minha praia. Tanto que cheguei a transformar um poema desse último volume num conto, que foi publicado no livro "As fomes de setembro" (91). Parei de vez com a poesia. Parei por respeito à poesia e aos poetas que respeito. De vez em quando, alguns de meus contos acabam se desenhando, do ponto de vista da forma, quase como poemas. Mas não é poesia. É prosa. Tudo isso, porém, não me impede de continuar a dar atenção especial, como leitor, à poesia. Acho que qualquer prosador que se preze precisa ir à poesia. É lá a oficina onde se gesta a linguagem. WL: Seu livro de contos mais recente, "Faroestes", apresenta textos muito próximos da linguagem da crônica policial, mas também há momentos de certa ambiguidade lírica. Vc se considera um escritor realista? M.A.: Costumo dizer que sou um escritor realista, quase hiper-realista, que tem as ruas e as pessoas do dia-a-dia como grande matriz literária. Me interessam esse espaço e essas gentes capazes de tanta miséria e maravilha - e estou sempre consciente de que a realidade é sempre muito mais forte do que qualquer ficção, por mais delirante que seja. Como eu andava pensando em investigar algumas formas de violência - infelizmente, um componente importante no cotidiano de uma cidade como São Paulo -, concentrei em "Faroestes" o que chamo de contos criminais. Não são "contos policiais" na medida em que não se apropriam de nenhum padrão clássico (a história de detetive do noir americano, por exemplo), preferindo refletir sobre o humano a partir de personagens e tramas vinculados a vários níveis de submundo. Esse lirismo que se manifesta na minha prosa, creio, é uma tentativa de estabelecer um contraponto com a brutalidade que aparece nos textos. Mas também pode ter a ver com o fascínio que a poesia exerceu e exerce sobre mim. WL: Sua prosa pode ser relacionada a uma linhagem que inclui autores como Dalton Trevisan, João Antonio e Rubem Fonseca. Por outro lado, vc se declara leitor de Machado de Assis, Graciliano Ramos e do mexicano Juan Rulfo, três grandes mestres estilistas, lapidadores do texto e praticantes de uma escrita enxuta. Como vc estabelece seu quadro de referências pessoais nesse amplo contexto literário? M.A.: Leio de tudo, sempre. Em princípio, na prosa, me interessa qualquer tipo de procedimento literário. Mas tenho meus favoritos, meus queridos mestres, gente que releio de tempos em tempos - Machado, Graciliano e Rulfo são três exemplos. Com certa freqüência, vejo gente apontar como influências em meus textos Hemingway, Sam Shepard, John Cheever. Aqui, detecto uma coisa intrigante: na segunda vez que alguém falou em Hemingway, fui ler o cara, os contos sobretudo, que eu não conhecia. Foi um caso curioso de "influência antecipada". Estou longe de ser um estilista. Minha ambição não vai além de contar uma boa história, do modo mais conciso possível. Talvez venha daí essa discrepância literária. Uns falam em estilo. Mas pode muito bem ser limitação minha. WL: Os contos de "Faroestes" falam de um mundo desencantado, traço inequívoco da modernidade, e de personagens sem grande relevo, que muitas vezes só emergem do anonimato para a tragédia. Normalmente a tragédia urbana que apenas os transforma em dados estatísticos. No entanto, percebe-se uma imensa generosidade amorosa do narrador, sorrateira, como a querer extrair dali algum traço de beleza e humanidade. A literatrua ainda pode oferecer alguma resistência à barbárie? M.A.: A literatura, assim como toda forma de arte, é a grande esperança contra a barbárie. A arte, que deve sempre causar algum tipo de desconforto, serve pra que não nos esqueçamos nunca de que somos humanos. Se, ao escrever, eu olhasse para a realidade sem nenhum tipo de filtro, certamente não estaria fazendo literatura, mas jornalismo. E isso não iria me interessar. Acho que também está ligado ao meu processo de criação. Veja: nunca sei muita coisa sobre o que vou contar no momento em que começo a escrever. Investigo, avanço, e vou "me contando" aquela história. Daí que meu olhar sempre busca detalhes subjacentes, que acabam por dar uma dimensão mais ampla aos personagens. WL: Como surgiu a atividade de roteirista de cinema? Vc a encara como extensão de seu trabalho literário? Como foi a experiência do filme "O Invasor", dirigido por Beto Brant? M.A.: Sempre gostei de cinema, desde menino. E vi muito filme. Só que nunca pensei em trabalhar com isso - meu interesse exclusivo é a literatura; todo o resto é acessório. O que aconteceu: em 91, o Beto Brant leu um conto do As fomes de setembro e me procurou pra comprar os direitos - ele planejava fazer um curta. Ficamos amigos e estabelecemos um diálogo muito rico em torno de cinema. Foi natural, portanto, que conversássemos quando ele procurava um roteiro para seu primeiro longa. Mostrei o conto "Matadores" e demos início a uma parceria que já rendeu três filmes (além de "Os Matadores", o Beto dirigiou "Ação entre Amigos" e "O Invasor", que partiram de histórias minhas). Fazer roteiro é uma coisa que não tem nada a ver com a literatura. Como se sabe, são linguagens bem distintas. Continuo, porém, sempre escritor. Quer um indício? Quando alguma história me ocorre, penso: isso daria um bom conto ou uma boa novela; nunca penso que daria um bom roteiro. Mais tarde, a partir do interesse do Beto, parto para a etapa de escrita do roteiro. "O Invasor" tem uma história cheia de incidentes. Comecei a escrever essa novela no final de 97 e, no ano seguinte, tinha um terço do texto. Foi quando o Beto leu e quis fazer um roteiro. Interrompi o livro e trabalhamos nisso nos dois anos seguintes. Quando o roteiro ficou pronto, eu desisti do livro - tinha resolvido todas as pendências de trama no roteiro e não via graça em reproduzi-las em literatura. Me desliguei emocionalmente do livro. Tanto que escrevi três outros livros nesse intervalo. Só retomei a novela em 2001 e me deu um trabalho danado concluí-la. Fiz isso graças aos estímulos do Beto para lançarmos um livro vinculado ao filme. "O Invasor", que sai neste mês de abril pela Geração Editorial, é um livro híbrido: tem a novela, o roteiro e um caderno de fotos (stills) do filme. Por sinal, mantive o roteiro tal qual ele foi feito - não introduzi nenhuma das modificações que aconteceram no momento da filmagem. Assim, o leitor terá condições de acompanhar com precisão de detalhes o que acontece no processo de transposição de um livro para um roteiro e do roteiro para um filme. WL: Nota-se uma forte tendência entre os jovens escritores brasileiros, especialmente contistas, de retratar a realidade com um certo brutalismo, incorporando a violência e o erotismo de modo muitas vezes simplista, decorativo. Será que essa relação com uma temática tão explorada pela mídia, a ponto de ter se tornado objeto de consumo de massa, não se configura apenas como reflexo do real, ou há uma contrapartida crítica, dialética? M.A.: De fato, há uma forte presença do real nos contos que uma nova geração de escritores vem publicando. Daí, a violência com elemento comum (o erotismo, segundo entendo, aparece em menor grau). Só que cada um desses escritores têm sua maneira de retratar essa violência e esse cotidiano. Talvez haja uma parcela de contrapartida crítica nesse processo. Mas acho que está acima disso, ao menos na pretensão dos escritores. É literatura. WL: Além de escritor, vc também é jornalista. Em que medida o trabalho jornalístico repercute em sua obra? M.A.: A prática do jornalismo, ao contrário das queixas de vários escritores-jornalistas, acabou beneficiando minha literatura. Eu sempre busquei a concisão no que escrevo, e no jornalismo essa é uma regra de ouro. Serviu sempre como treino. Além disso, a experiência como repórter educou minha maneira de olhar o cotidiano. São ferramentas importantes no modo como escrevo. WL: Por falar em imprensa, o que vc acha do jornalismo cultural praticado hoje no Brasil? Muita gente reclama do baixo nível da imprensa, mas também são poucos os leitores no país, se levarmos em conta o potencial de mercado, especialmente os das chamadas "grandes obras". A mídia é também responsável pela formação de leitores, ou funciona apenas como espelho das demandas mercadológicas? M.A.: Este nem é o pior momento do jornalismo cultural brasileiro, embora espaços importantes continuem a ser fechados (recentemente, por exemplo, o Jornal da Tarde extinguiu seu "Caderno de Sábado"). Há, é claro, o problema crônico do número de leitores no Brasil - é só pensar nas tiragens dos livros em relação ao contingente populacional. Lê-se muito no Brasil, mas quase nunca literatura. Outro dia, conversando com o Fernando Paixão, poeta e diretor editorial da Ática, falamos sobre a perda da importância social que se abateu sobre a literatura. É assustador. Graças à verdadeira revolução tecnológica ainda em curso, há uma série de outros apelos muito mais sedutores para corações e mentes do que o livro. (Agora sabems que a televisão nem era a inimiga mais letal da literatura, como já se pensou.) E a mídia acaba por refletir isso, ainda que haja espaços e cabeças envolvidas num trabalho de resistência. No que acredito: vão sempre existir leitores e profissionais de mídia, não sei em que quantidade, que devotarão um amor absoluto à literatura e aos livros. Talvez vire uma espécie de seita, não sei. O fato é que existirá gente interessada. E é isso que vai valer a pena. É com essa gente que nós, escritores, vamos dialogar. |
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