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Joca Reiners Terron PDF Imprimir E-mail

UMA CHINA NA CABEÇA

Joca Reiners Terron já foi vocalista de banda de rock, publicou os livros de poemas Eletroencefalodrama (1998) e Animal anônimo (2002), os de prosa Não há nada lá (2001) e Hotel Hell (2003), e é editor da Ciência do Acidente, onde realiza ousado e criativo trabalho de design editorial. Ele tem um jeitão meio invocado, faz pose de rebelde, sua escrita é inteligente e criativa, pegando o leitor de surpresa com versos cortantes ou cenários urbanos perturbadores. O romance Não há nada lá está entre os textos mais interessantes publicados nos últimos tempos, um móbile alucinante com personagens reais, em encontros improváveis, cujo verdadeiro protagonista é o próprio livro, não apenas o que está sendo narrado, mas o objeto livro, ou sua idéia. A prosa de Joca Terron está impregnada de poesia, assim como os poemas trazem uma narratividade lisérgica que destoa dos projetos literários em curso no mercado. Nesta entrevista exclusiva, Joca fala de literatura e do meio literário, sem firulas, e dispara alguns petardos na caretice.

Por Reynaldo Damazio

WEBLIVROS: Depois de publicar dois livros de poemas, você lançou dois de prosa e tem um terceiro, de contos, no prelo. O prosador tomou o lugar do poeta, ou se trata de um desdobramento de seu trabalho como escritor?

JOCA REINERS TERRON: A última opção me parece mais confiável, já que o elemento narrativo sempre esteve presente em minha poesia. E não vejo ausência de lirismo em minhas narrativas, pelo contrário. Talvez apenas meus versos tenham espichado, sei lá. Além disto sempre tive apego pela palavra "escritor" e considerável desprezo pelas palavras "poesia" ou "poeta". Talvez devido a um tio, que sempre que se referia a um primo veado o tratava por "poetão". E eu sempre gostei de contar histórias, entende?

Outra coisa que sempre me fascinou na literatura (a ponto de virar quase obsessão) são os intervalos existentes na publicação de livros. Então, quando leio a biografia de um autor, observo o tempo que ele levou pra publicar. Uns publicam livros de três em três anos, outros de dez em dez, e há sempre os poucos que nem chegam a fazê-lo em vida. Reparou que os últimos são sempre os melhores? Eu acho que poetas e narradores publicam demais (isto obviamente me inclui). Se levam a sério demais, também. Tudo isso é muito chato. Bem, toda essa argumentação é só pra dizer que pretendo ficar muito tempo sem publicar um livro de poemas. O que não faz a menor diferença, convenhamos.

WL: Seus textos são explicitamente corrosivos, debochados e fragmentários; mas também se percebe uma preocupação com a pesquisa de linguagem, na construção de frases e imagens, na multiplicidade de recursos narrativos, como se por trás da virulência crítica e do retrato da realidade insana houvesse uma certa consciência vigilante. Como você lida com esses pólos aparentemente conflitantes?

JRT: Não faço a menor idéia. Quer dizer, desse conflito surge um certo atrito, imagino. Quando eu era poeta (e isto pode soar como uma piada) minha maior ambição sempre foi misturar Roberto Piva com Augusto de Campos. Agora estou a fim de misturar absolutamente tudo -- carrego uma espécie de China na cabeça. O problema é arrumar tempo pra escrever. E olha que essa é a única forma possível de conciliar as diferenças de uma atividade tão patética.

WL: O personagem central do romance Não há nada lá é o próprio livro, como objeto e como mito, numa demonstração evidente de que se pode fazer metalinguagem com criatividade e sem chatice. Além de escritor, você também é designer de livros. Que tipo de fetiche a literatura ainda pode exercer neste limiar de novo milênio?

JRT: A literatura e os escritores SEMPRE serão fetichizáveis. É um tipo de desencargo de consciência da sociedade, que não lê, não entende, não quer saber de literatura. E então inventa de compensar isso catapultando (de vez em quando) um escritor ao status de popstar. Um tremendo equívoco. And I don´t believe the hype, anyway. O problema é quando os caras começam a acreditar. Ou pior, sou obrigado a conviver com escritores, jornalistas, críticos e poetas geniais o tempo todo, já que trabalho como editor e criador de capas de livros. É por essas e outras que acredito ter jogado pedra na cruz em outra encarnação. Por outro lado (no que se refere ao fetiche), adolescentes sempre terão ereções e umidificações diante de um Henry Miller. E bibliófilos sempre esfregarão seus paus moles em brochuras antigas.

WL: Além da influência dos quadrinhos, do cinema, da televisão, da música pop e das artes gráficas, que referências literárias são decisivas em seu trabalho? Gostaria que você abordasse essa contaminação de gêneros, que parece crucial na literatura contemporânea.

JRT: Putz, Reynaldo, você resumiu o mundo aí. Afinal, o que mais resta, além dos quadrinhos, do cinema, da televisão, da música pop e das artes gráficas? Literatura, talvez. E os seres humanos, esses asquerosos. Eu poderia te dizer que Dom Quixote é meu livro predileto, e que a leitura recente de pós-modernos argentinos como Copi e Cesar Aira estão presentes demais em minhas perspectivas de criação literária, mas não vai dar. Eu até li o Piglia, o Saer (cheguei mesmo a traduzir uns poemas do Saer que ninguém conhece), mas acho que meu problema de misturar as coisas se deve mesmo à leitura de O mez da grippe, do Valêncio Xavier. Ainda vou processar o Valêncio por isso.

WL: Hotel Hell nasceu num blog, na Internet, mas já tinha todas as características de livro impresso, a despeito do meio virtual. Na sua opinião, qual o papel da mídia eletrônica na formação de uma nova sensibilidade literária e de um novo tipo de leitor?

JRT: O papel da Internet é divulgar o trabalho da moçada; e SEM papel. Se eu fosse um cara novo, com telefone e computador, criaria um blog pra publicar meus textos e imagens do jeito que bem entendesse. É muito melhor que publicar livro, além de ser mais barato. Do it yourself! No mais, a literatura em blog pode ser boa, assim como a literatura feita em cadernos, ou máquinas de escrever, é tudo a mesma merda. E os bons leitores pertencem a uma categoria sem divisões: podem ler de blogs a bulas, ou bíblias sem distinção de suporte. O realmente importante é que leiam. Escrever o que-onde-como-e-quando é mera consequência de uma boa leitura. Assim como de uma boa foda.

WL: Qual sua avaliação, como autor, da literatura feita hoje no Brasil? Existe renovação significativa, ou reaproveitamento de certos procedimentos herdados das vanguardas do século XX?

JRT: Acho que tudo, sempre, ainda está por ser feito. É certo que há bons autores surgindo e publicando com frequência, mas muito pouco do que tem aparecido realmente me convence. Mesmo quando a proposta é remixar as experiências da vanguarda, tudo parece ser muito clicheresco, tudo certinho e ´bem escrito` demais. Acho que falta imaginação e um pouco de delírio na nossa literatura. Mas coisas publicadas recentemente por Lourenço Mutarelli, Daniel Pellizzari, Nelson de Oliveira, João Paulo Cuenca e Edimilson de Almeida Pereira (pra citar um ótimo poeta) ou mesmo a edição de um inédito de Rosário Fusco, acabam compensando um pouco esse vazio enorme. Quanto à renovação, uma coisa é certa: não dá pra acreditar num mercado literário que tenha Marçal Aquino na plenitude de sua capacidade criativa e que não consiga torná-lo num best seller. Ou seja: enquanto o Marçal não vender 20.000 exemplares de um livro adulto eu acreditarei na existência de nosso mercado de livros tanto quanto na existência da Bulgária.

WL: Qual é a proposta editorial da Ciência do Acidente? Você concorda com a afirmação de que as pequenas editoras, como a sua, estão inovando o mercado editorial brasileiro? Qual o verdadeiro "poder de fogo" dessas editoras?

JRT: A Ciência do Acidente, apesar de ser uma editora minúscula (não é pequena nem média: é minúscula) nasceu pra publicar as coisas que gosto de ler e que não acho facilmente por aí, e com capas diferentes, mais abusadas etc. É óbvio que essa proposta editorial meio idiossincrática poderia ser mais abrangente se eu tivesse grana, mas nada nunca é perfeito. Porém é inegável que, mesmo sem estrutura alguma (de assessoria de imprensa e o resto), a Ciência do Acidente tem conseguido atrair alguma atenção. Tudo obra do acaso, acredito.

As editoras pequenas têm dado sinais de renovação política, sem dúvida. A LIBRE e a Primavera dos Livros são mostra disso. Porém, se observarmos com atenção e minúcia, há realmente muito poucas editoras fazendo um trabalho interessante e de renovação. Na verdade, boa parte dessas pequenas editoras se parecem muito entre si, com livros patrocinados pelas leis de incentivo e enfocando o Desenho de Interiores dos Banheiros do Rio de Janeiro de Machado de Assis, pra citar um tema esdrúxulo possível, e sempre com projetos gráficos do Victor Burton, o que não contribui nada pras suas respectivas identidades visuais. Esse enfoque editorial me parece limitador demais, não? Há um ranço pequeno-burguês nessas escolhas: livros de luxo, caros, com temas para públicos restritos -- bibliotecas de faculdades de Arquitetura, geralmente.

Em suma: acho que passou da hora da mobilização política no meio editorial extrapolar os limites do desenvolvimento do marketing e das vendas (uma nobre preocupação, saliente-se) e resultar em debate sério sobre a pedagogia da leitura nos ensinos fundamental e médio. Envolvendo, claro, as partes competentes do sistema da leitura no país: escritores, editores, professores, escolas e o Estado. Um quadro indicado em pesquisa recentes identifica que 75% da população é composta de analfabetos funcionais, pessoas que não conseguem compreender um texto ou se expressar através da escrita. A alteração desse índice deveria ser a principal meta dessas instituições, não é mesmo? Mas não é bem assim, os programas de aquisição de livros do governo continuam sendo regidos pela incompetência e pela falta de imaginação.

WL: Há crítica literária, hoje, no país que dê conta de analisar a produção em curso; ou existe apenas a divulgação, ainda que opinativa, das novidades?

JRT: Bem, a crítica literária das academias parece se restringir apenas aos autores defuntos, em sua maioria. Vai saber quantos projetos de mestrado sobre Machado de Assis bancados pelo CNPQ são ´desenvolvidos` neste exato momento. E com a derrocada dos cadernos de cultura, sobram os abnegados que topam escrever (de graça) sobre autores novos, em número muito superior do que os espaços existentes pra divulgação. Nos poucos cadernos e revistas dedicados exclusivamente à crítica, como Rodapé ou Sebastião, pra citar quase todos os existentes, a produção oscila entre a irregularidade na periodicidade da publicação (que compromete nossa avaliação do seu alcance crítico e também as possibilidades de intervenção no mesmo campo, já que lutam com uma demanda de publicações impossível de ser ´lida`) e a especulação literária, que busca encher a bola dos livros vendidos pelas assessorias de imprensa das editoras. É uma luta inglória para o escritor, conseguir ser lido por alguém que não seja seu parente. É por isto que eu sempre digo: pra ser escritor neste país você deve ter uma segunda profissão que te sustente e, de preferência, potencialize as suas chances de angariar alguma atenção. Roteirista de cinema, ator, dramaturgo, editor, presidiário, médico ou piloto de fórmula 1. Não basta mais ser apenas escritor, e isto é uma merda.

 
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