Skip to content

Narrow screen resolution Wide screen resolution Auto adjust screen size Increase font size Decrease font size Default font size default color brick color green color
Início seta Entrevista seta Hilda Hilst
Hilda Hilst PDF Imprimir E-mail

A LÍNGUA AFIADA DE HILDA HILST
por Fabio Weintraub e Sérgio Cohn

Hilda Hilst
J. Toledo
Hilda Hilst (1930-2004) participa daquele grupo de escritores cuja reputação antecede a obra. Autora prolífica e versátil, capaz de atingir, como observou o crítico Anatol Rosenfeld, níveis de excelência em todos os gêneros a que se atreveu (poesia, prosa, dramaturgia), a verdade é que ainda hoje - após cinqüenta anos de trabalho literário, mais de trinta títulos publicados, prêmios, traduções para outros idiomas - seus textos são menos conhecidos que a "personagem" H.H. As peculiaridades biográficas exploradas em várias entrevistas que a autora concedeu ultimamente (o enlouquecimento do pai, as peripécias amorosas da jovem Hilda, a reclusão monástica na Casa do Sol, as experiências com discos voadores, os mais de setenta cachorros que ela cria, as preferências etílicas, as queixas contra os editores, as dívidas de IPTU...), galvanizadas pelo carisma hilstiano, mais a sua recusa obstinada em falar de literatura - "Acho desagradável ter que falar sobre minha obra (...) Não sou crítica", diz ela - se encarregaram de consolidar o "mito", desviando a atenção da obra para a personalidade criadora.

WEBLIVROS!: Você viu o artigo dedicado a você no último livro do José Castello, Inventário de sombras (Rio de Janeiro: Record, 1999)? Nesse artigo, ele aponta como contraditório o seu desejo de aceitação por parte do público considerando a sua recusa a qualquer tipo de concessão às formalidades literárias, a qualquer tipo de mistificação, e o fato de você sempre ter se mantido "livre para fracassar", como dizia o Bataille.

Hilda Hilst: É o potlacht: o "poder de perder". Não é que eu queira uma aceitação do público. Mas quando a gente vai chegando à velhice como eu, com 70 anos, dá uma pena de ninguém ler uma obra que eu acho maravilhosa. Fico besta de ver como as pessoas não entendem o que escrevi. Recuso-me a dar explicações. Falam coisas absurdas, que a minha obra não tem pontuação, não tem isso, não tem aquilo... Acho desagradável ter que falar sobre a minha obra, é muito difícil. Sei escrever. Fiz todo tipo de texto possível e parece que ninguém entendeu. Não sou crítica. Mandam mil livros pra eu ler e comentar, é muito difícil. Além disso, acho que as pessoas têm medo de mim. Ligam pra cá e ficam dizendo: "É a Hilda? Não acredito que é a senhora. Não pode ser. Quero falar com a Hilda Hilst!" (risos). A turma da Unicamp me convidou para ser paraninfa de todas as turmas num determinado ano. Você acredita que eu fui e ninguém veio falar comigo? Ficaram a 50 metros de mim.

WEBLIVROS!: Sobre sua relação com os bichos, Alcir Pécora escreveu certa vez que a presença dos bichos e da loucura ao longo da sua obra constitui sinal de uma utopia, de uma vida fora da lei; bichos e dementes subtraídos ao pacto civilizatório. O que você acha disso?

Hilda Hilst: Sim, é verdade. Os loucos se prendem a essa coisa que já contei várias vezes, à figura do meu pai. Que era um homem lindo, deslumbrante, e acabou louco. Eu achava lindo ser louco. Daí toda a minha obra ser uma homenagem à loucura. Gostaria muito que, no futuro, a minha casa fosse transformada numa fundação chamada Apolônio de Almeida Prado Hilst. E num centro de estudos psíquicos sobre a ressurreição da carne e a imortalidade da alma. Estou pensando em como fazer tudo isso. Pode ser que eu seja louca também. (risos)

WEBLIVROS!: Você tem medo disso?

Hilda Hilst: No começo eu tinha. Muito medo de ficar igual ao meu pai. Minha mãe então inventava mil histórias. Falava que ela havia traído meu pai, que eu não era filha dele... Tudo muito confuso. Ela inventava um cara, um joalheiro que morava em Jaú. De quem eu seria filha. Comecei a ficar obcecada atrás desse joalheiro. Um loiro dos olhos azuis. Até que ela me confessou que era mentira, que ela havia inventado tudo para eu não sentir mais medo. Eu tinha tanto amor pela idéia do meu pai... Por causa disso, sempre tive medo de ter filhos também. Os médicos sempre dizem que a loucura acontece na segunda geração. O filho de uma pessoa louca, paranóica, pode ser normal, mas o neto terá grandes chances de ser louco. Por isso nunca quis ter filhos. Não tenho afinidade com crianças. Elas não me entendem e eu não as entendo. Ficam olhando pra mim, esquisitíssimas. Tenho muito medo de crianças. Um médico me disse que é porque eu também sou criança; criança tem medo de criança (risos). Essas coisas: vem a mãe e pede para o filho: "Olha como a tia é bonita!". Daí vem o menino e diz: "Eu não acho, ela é feia.". Eu ficava discutindo com a criança: "Por que você me acha feia?" Sempre tive um diálogo desagradável com crianças (risos).

WEBLIVROS!: Mas construiu uma personagem criança, a Lory Lambi, simplesmente adorável. (risos)

Hilda Hilst: Eu queria muito fazer um livro pra crianças com a história do cu do sapo Liu-Liu (incluída em O caderno rosa de Lory Lambi). Um sapo que queria tomar sol no cu. As crianças iam adorar. É tão bonita a história, seria divertido. Podia virar um livro grande, com ilustrações do Angeli, do Ziraldo ou do Millôr. Os desenhos podiam também ser do Jaguar, que ilustrou as Bufólicas. Mas ninguém punha no jornal. Ele me ligava contando: "Hilda, dizem que nós somos dois velhos indecentes".

WEBLIVROS!: Há uma passagem no Estar sendo. Ter sido em que você descreve uma cena de felação com uma puta banguela. O personagem até diz que foi a melhor chupada da vida dele, que a boca da fulana era uma pelúcia, que deveria haver um bordel especializado em felação, só com mulheres banguelas. Há também a crônica sobre "O bambu peregrino", em Cascos & carícias, na qual você fala das mulheres que quebram os dentes como uma espécie de mimo para os maridos. Há realmente várias ocorrências desse motivo odontológico na sua obra...

Hilda Hilst: É verdade. Acho que eu tenho pavor dessa coisa de perder os dentes, que eu associo muito à idéia da morte. Por isso estou aflita pra ir ao dentista. Mas são deslumbrantes as vantagens de ser banguela. O chato é que a gente não pode rir nunca. Só que, no meu caso, a perda dos dentes veio um pouco tarde: agora eu não chupo mais o pau de ninguém. Há vinte anos não vejo um pau. Até falei pra Marilene Felinto de um amigo meu que estava tomando banho aqui em casa. Entrei por engano no banheiro e, quando vi o pau dele, comecei a rir sem parar e fui hospitalizada. "Meu deus, é por causa disso que se briga tanto neste mundo?", pensei. Ri tanto que fiquei com falta de ar. Tenho bronquite asmática. Tiveram que me hospitalizar, de tanto que eu ri... Essa coisa do sexo fica tão desimportante depois que a gente envelhece. Fica cômico também, não dá mais pra levar a sério. Então, a gente só pode rir com esse negócio de foder. Perde-se também aquilo que o Flaubert chamava de alacridade, isso que a pessoa sente quando está gostando de alguém. Uma alegria que não se pode explicar. Pra mim ficou tudo esquisito agora. Posso achar a pessoa muito bonita, mas não tenho mais atração por nenhum homem. Nem por mulher. Por mulher seria ótimo. Parece que a Simone de Beauvoir ficou lésbica na velhice. Essa chance eu não tenho. Sempre tive medo da buceta, um medo mortal. É uma coisa tão escura, tão funda, a gente nunca sabe o que tem lá dentro, se tem um gato morto ou sei lá o quê. Tenho medo da minha buceta, medo pânico. Ela me assusta terrivelmente agora. Nem olho. Fico pensando: "Meu Deus, o que será que vem por aí?" (risos). Tenho medo de pôr o dedo lá dentro. Fico enojada e com medo. Não sei o que pode aparecer. Como é que homem pode gostar de mulher? Acho uma coisa impressionante.

WEBLIVROS!: O Jung também fala na vagina dentada...

Hilda Hilst: É a porta de iniciação do herói. Tenho pavor da vagina dentata. No Estar sendo também há a história do cara que inventou de ter dentes na bunda. As pessoas são mesmo muito loucas. É difícil eu achar alguém pra conversar. Tenho empregados ótimos, só que não falam. Eu não converso com eles porque têm uma linguagem... Por exemplo, o Chico nasceu em Natal. Ele fala tudo diferente, com termos deslumbrantes que eu não conheço. Por exemplo, coriza, aquilo de o nariz ficar pingando, ele chama de estalicídio. Tem no dicionário. Então ele, que é analfabeto, está me ensinando. "Estalicídio", pensei, "onde é que esse homem foi descobrir isso?".

WEBLIVROS!: Paulo Coelho pediu para você fazer o prefácio ao primeiro livro dele, sobre vampiros?

Hilda Hilst: Eu havia acabado de entrar na Universidade, nesse programa do artista residente. Eu não podia fazer uma coisa dessas. Falei que não podia falar sobre gélidos vampiros; não conheço vampiros. O Pinotti ia me pôr pra fora. Era um livro cheio de detalhes, falava até da temperatura do sêmen do vampiro, que era frio (risos). Era um livro que o Paulo Coelho fez em parceria com outra pessoa, cujo nome agora me foge, que foi quem me telefonou pedindo o prefácio. Perguntou se eu não queria dar uma conferência na Unicamp falando desse livro, do sêmen dos vampiros. Eu me cago de medo com filme de vampiro. (os cachorros param, olham um canto vazio da sala) Às vezes olham para os lados, a gente nunca sabe o que é. Eles sentem mais do que nós... Estou esperando a visita dos Ets, porque há muitos anos atrás eu vi um disco voador aqui. Em 66. Não havia nada aqui, ainda era a fazenda da minha mãe. Uma fazenda de gado e café. Mudei para cá no dia 24 de junho de 1966, dia de São João. Nessa época eu vivia com o Dante Casarini, com quem acabei por casar. Casei porque minha mãe me enchia muito, depois de velha ela ficou puritana. Então eu chamei um juiz de paz e casei. Um dia eu estava sentada aqui, lendo um texto de dois americanos sobre a sociedade capitalista. Estava muito interessada nas empresas, até fiz uma peça chamada A empresa (ou a possessa). Queria saber qual era o tipo de pessoas que as empresas contratavam. Normalmente a pessoa não pode ser muito criativa, deve ser uma pessoa média. Eu estava lendo sobre tudo isso e o Dante dormindo. Dormia profundamente. Daí eu ouvi, nitidamente, a seguinte frase: "Se você não sair agora, não vai dar mais tempo". Achei que estava tendo uma alucinação auditiva. Uma voz de homem, normal, que após um minuto repetiu a frase. Então eu me levantei e saí e fiquei perto da janela que hoje fica em frente ao meu escritório. Vi como primeiro como se fosse uma lua, uma lua alaranjada com luzes amarelas e vermelhas. Era a lua e não era. Andei uns seis metros (naquela época não havia nada além dessa casa e da casa de minha mãe, a uns 500 metros) e aquela coisa que parecia a lua se metamorfoseou num disco voador. Uma pirâmide em cima com luzes amarelas e vermelhas embaixo. Fiquei olhando para aquilo, o coração disparado. Era do tamanho da minha casa. Aí eu saí ventando pra chamar o Dante. "Dante, Dante, acorda, vem ver um disco voador!", eu gritava. Ele quase morreu do coração. Quando saiu, não havia mais nada. Botaram ele pra dormir para que eu visse o disco sozinha. O Dante ficou apavorado com o disco, eu, maravilhada. Antes de o disco desaparecer, ficou envolto numa luz de mercúrio. Não vi ninguém, só uma série de janelas. Eu não bebia nessa época. Durante os primeiros sete anos em que vivemos aqui, eu e o Dante não bebemos nada. Se fosse agora, vocês podiam achar que era coisa de bêbada. Foi a coisa mais deslumbrante que vi na minha vida. Tudo sem nenhum barulho, nada. Depois disso, tive mais duas visões. A primeira foi com o Dante também. Eu estaca obcecada com essa história de disco voador e ele resolveu me levar ao cinema, para me distrair. Quando fui entrar no carro, vi uma estrela azul, azul. Eu falei: "Dante, é besteira ir ao cinema. De repente, eles podem voltar". Eu mal acabei de falar e a estrela azul desceu, ficou aqui perto desse muro, uma enorme bola azul. A terceira vez foi no meu quarto. Vi uma luz diferente. A gente só usava lampião aqui. Minha mãe não deixou eu puxar luz elétrica pra minha casa (ela estava brigada comigo porque queria que eu casasse). Vi uma luz dentro do quarto, andando pra lá e pra cá... Tive nesta casa experiências fantásticas.

WEBLIVROS!: Você tem interesse pela literatura mística mais hermética?

Hilda Hilst: Tenho interesse pela literatura visionária. Há uma santa sobre quem li muito, Santa Ângela de Foligni. É uma santa que perdeu, em poucos meses, o marido, os filhos e a mãe. Depois ela entrou pra ordem de São Francisco. Li uma coisa dela que me assustou horrivelmente. Ela dizia que teve uma visão de Deus em plena majestade. Era "uma luz tão intensa", ela escreveu, que lá não havia "nem sombra de amor". Fiquei gelada quando li.

WEBLIVROS!: ... e Santa Margarida Maria Alacoque?

Hilda Hilst: Nossa senhora! Era aquela que bebia água em que se banhavam os leprosos. Isso me assustava quando eu era criança. As freiras me mandavam ler sobre a vida dessa santa. Eu vomitava sem parar.

Fabio Weintraub - poeta e editor. Autor de Sistema de Erros (SP: Arte Pau-Brasil, 1996) e Novo endereço (SP: Nankin, 2002), vencedor do prêmio Casa de Las Américas, de Cuba. Atua como editor-assistente na editora Ática. É também editor da revista Rodapé.

Sérgio Cohn - poeta e editor do selo Azougue. Autor de "Lábio dos Afogados" (Nankin Editorial) e "Horizonte de Eventos" (Azougue Editorial, 2002)

OBRAS DE HILDA HILST
Poesia
· Presságio - SP: Revista dos Tribunais,1950.
· Balada de Alzira - SP: Edições Alarico,1951.
· Balada do festival - RJ: Jornal de Letras,1955.
· Roteiro do silêncio - SP: Anhambi, 1959.
· Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959. SP: Massao Ohno, 1961.
· Ode Fragmentária - SP: Anhambi, 1961.
· Sete cantos do poeta para o anjo - SP: Massao Ohno, 1962

 
< Anterior   Seguinte >
 

Notícias

Outros critérios: confrontos com a arte do século XX, de Leo Steinberg é lançado no Brasil.
Ler mais...
 
A Livraria Cultura estréia uma parceria inédita com o Google, que permite que os usuários façam degustação das obras antes de finalizar as compras feitas no site.
Ler mais...