Entrevista
Heitor Ferraz | Heitor Ferraz |
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FINO OLHAR SOBRE O COTIDIANO Heitor Ferraz é poeta, jornalista e editor. Nasceu na França, em 1964, e passou a infância em São José dos Campos, mudando-se para São Paulo em 1975, onde vive até hoje. Autor de "Resumo do dia" (Ateliê, São Paulo, 1996), "A mesma noite" (Sette Letras, Rio de Janeiro, 1997) e "Goethe nos olhos do lagarto" (Moby Dick, Rio de Janeiro, 2001). Atualmente, Heitor Ferraz é bolsista da Fundação Vitae, com projeto de criação poética. Seus poemas são elaborados com rigor e delicadeza, traduzidos em refinadas observações do cotidiano, de cenas surpreendidas na banalidade e re-elaboradas por imagens fortes, certeiras. Poemas que desvendam a sensibilidade possível no cenário urbano bestializado.
Heitor Ferraz: A lista talvez seja um pouco grande, até hoje continuo recebendo novas influências, repensando minha poesia a cada momento, pois ainda não me considero formado - se é que algum dia me considerarei assim. Mas o primeiro poeta que me fascinou profundamente foi o Fernando Pessoa e, dele, li todos os heterônimos, variando fases em que gostava mais de um que de outro. Depois vieram as referências hoje mais fortes em minha poesia: Drummond, Bandeira, Cabral, Dante Milano, Gullar e Chico Alvim. Bom, mas esta é uma pequena lista, como disse, porque sempre me vejo lendo outros poetas e sei que há muito ainda que aprender com eles. WL: Você acredita em inspiração ou este conceito está banido da poesia contemporânea? Alguns poetas preferem falar em insight, outros em duro exercício com a linguagem. Como você define seu processo criativo? HF: Cheguei a não acreditar em inspiração, mas percebi que esse discurso não passava de puro esnobismo, vontade tola de se diferenciar, de se dizer que é mais cerebral. Hoje tenho claro para mim que sem inspiração não faria nenhuma poema. Tentei vários poemas a seco, alguns funcionaram, mas outros ficaram aquém do desejado. Cada um chama a inspiração de um jeito. A definição mais divertida que eu conheço era a do João Pacífico, um compositor popular, já falecido, autor da famosa "toada histórica" Cabocla Teresa. Ele dizia que era o Pai Jacó que baixava na casa dele, uma modesta casa na Vila Mariana. E a música surgia. No meu caso, posso ter uma idéia, mas ela só se concretiza quando de fato me sinto com vontade, gana mesmo, para fazer o poema. O poema que me dá mais prazer em fazer é esse que vem de uma fagulha, de uma idéia que rapidamente encontra forma e ritmo no papel. Sinto uma alegria enorme ao terminá-los. Quando não escrevo, vou me sentindo meio sem graça, meio sem ter o que dizer. Não creio que seja preciso dizer que depois disso vem o crivo da gaveta, a leitura crítica dos amigos, a minha auto-crítica, as dúvidas. Se o poema passar por esse vestibular todo, considero-o pronto. Antes disso é pura gestação. WL: Alguns de seus poemas têm traços marcantes de prosa. Existe mesmo a fronteira entre prosa e verso? HF: Não é de hoje que a poesia e a prosa se misturam. Mas há diferença entre prosa e poesia, e também entre elementos prosaicos e prosa. A minha poesia é carregada de elementos prosaicos. Acho que não tem nada a ver com a prosa, já que não sei construir personagens e nem sou bom em armar enredos. Meus poemas, então, são bastante prosaicos, tratando de assuntos prosaicos, sem grandes vôos, infelizmente para mim. WL: Tanto em seu livro de estréia, "Resumo do Dia", como no segundo, "A Mesma Noite", percebe-se uma forte presença de cenas urbanas, flagrantes de pequenas situações cotidianas que muitas vezes escapam ao olhar apressado e desavisado. Esse é um tema recorrente em sua obra, por alguma razão especial, ou se trata de obsessão? HF: De fato, as cidades aparecem com grande freqüência nos meus poemas. E não é só São Paulo, mas pequenas e médias cidades, como Prados, Atibaia, São José dos Campos e até mesmo um vilarejo do sul da França, chamado Fitou, onde passei uma semana. Sem esnobismo, Fitou, que tem um ótimo vinho, só entrou mesmo por que, quando estava lá, fumando um cigarro na rua (pois dentro da casa não podia), aconteceu de ela me recordar Prados, apesar de todas as diferenças entre elas. Bom, as cidades entram, pois é onde me acontece viver, como diria Mário de Andrade. Neste ponto, minha poesia é de fato calcada em minhas experiências e não nego de forma alguma isso. Minha experiência está calcada na experiência da cidade, de viver na cidade. WL: Os seus livros seguem algum "projeto" literário que conduz a feitura, organização e seleção dos poemas; ou são os textos que determinam a organização do livro? HF: No meu caso, são os textos que determinam o livro. Claro que há sempre um projeto. Todo poeta tem uma idéia do que está fazendo. Quando falo que são os textos que determinam é porque percebo que um determinado tom domina minha produção durante certa época. E esse mesmo tom acaba dando uma unidade aos poemas. Hoje, por exemplo, me encontro numa bela enrascada. Tenho alguns poemas que deveriam figurar talvez em "A Mesma Noite". Eu gosto deles, mas percebo que não se casam com o tom dos poemas que estou fazendo agora. Ainda não sei o que farei com eles, por enquanto estão na gaveta. WL: Qual sua opinião sobre a relação entre literatura e Internet? Como se dá o diálogo entre o texto impresso e o universo virtual? HF: Acho que a Internet é um ótimo caminho para se divulgar a poesia e sempre me surpreendo com a quantidade de sites interessantes que topo pela frente. WL: O poeta moderno deve também ser um crítico literário, ou essa tendência é resultado de opção profissional? HF: Acho que todos os leitores são críticos de literatura. Ou seja, qualquer um que leia um livro tem uma opinião formada sobre esse livro. Claro que a crítica literário não se resume a simples opinião do texto, entram mil outros fatores (e cada crítico segue uma linha própria para entender determinado livro). Mas formar uma opinião e colocá-la no papel é uma forma de reflexão sobre o que se leu e sobre a própria literatura. Eu não me considero um crítico literário, mas alguém que gosta de comentar o livro que leu. No caso específico da poesia, a análise de um poema ou da obra de um poeta me ajuda a compreender o que eu mesmo estou fazendo. É simples: qualquer atividade humana é um aprendizado. A poesia não é diferente. E para escrevê-la, ter domínio do que se está fazendo, passa pela leitura de outros escritores e também da crítica literária. Certamente você me perguntou isso pois vira-e-mexe estou fazendo resenhas para jornal. Além de ser jornalista, esta é uma atividade que gosto de fazer, mesmo quando o livro não me agrada. WL: Além de poeta, você também é jornalista e editor. Como convivem as três atividades? HF: Quem sofre mais é a poesia, pois nem sempre sobra tempo para me dedicar inteiramente às minhas leituras e aos poemas. Confesso que muitas vezes fico angustiado com isso, mas gosto da minha profissão, de ser jornalista e de estar trabalhando atualmente numa editora. Acho que escolhi esse caminho justamente por gostar de poesia, é uma maneira de me manter diariamente plugado à palavra. WL: Você concorda que existe um certo "boom" de livros de poesia e de novos poetas ocorrendo sorrateiro no mercado, ou se trata de "fogo de palha", sem grande importância literária? Há sinal de bons autores no horizonte? HF: Tenho, sim, lido bons autores, como Marcos Siscar, Dora Ribeiro, Aníbal Cristobo e tantos outros. Sempre se publicou muita poesia no Brasil. Claro que há livros bons e livros ruins. Não é nenhum sintoma de nossa época, sempre existiu. A única coisa que me incomoda mesmo é o cara que publica e começa a aporrinhar deus e o mundo atrás de resenha em jornal. Chega a ser patético. Se quer publicar, se está com comichão, publique, mas seja responsável, agüente o tranco do silêncio da crítica, não fique mendigando um espaço efêmero em jornal e em revista. |
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