Entrevista
Frederico Barbosa | Frederico Barbosa |
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O POETA CONTRA A CORRENTE
WEBLIVROS!: Seu terceiro livro de poemas, Contracorrente, apresenta desde o título uma postura crítica, tanto em relação à linguagem poética como à poesia feita hoje no Brasil? Qual sua opinião sobre a poesia brasileira contemporânea? Estamos num beco sem saída? Frederico Barbosa: A postura crítica é fundamental. Só com uma postura realmente crítica, não preconceituosa ou sectária é que se pode discutir qualquer coisa, até poesia. Creio até que seja importante ser radical. Ter posições firmes, claras e precisas. E nunca ter medo ou pudor de externá-las. Mas posições estéticas, éticas e mesmo políticas. Não é essa a regra Brasil. A maior parte dos críticos e escritores (artistas em geral) movem-se, opinam, escolhem e se aliam guiados por objetivos particulares e mesquinhos. As opiniões não se formam através do debate, conformam-se aos interesses pessoais. Essa é uma das razões para a falência da crítica e da discussão sobre poesia e arte no Brasil. É uma das razões para o afastamento do público e para a descrença generalizada em qualquer julgamento de valor, visto sempre com as devidas e justas reservas. Mas creio que, quando você usa o termo "postura crítica", na realidade se refere ao pessimismo e ao ceticismo que permeiam Contracorrente. Até mesmo uma certa revolta contra o estado das coisas na poesia brasileira daquele momento. O livro se abre com um "manifesto", o poema Poesia e Porrada, dedicado ao meu grande amigo, excelente crítico e professor e poeta de primeira, José de Paula Ramos Jr.. Nele, digo que pouca coisa, na época em que foi escrito (1999), me tocava na poesia brasileira contemporânea. Não me referia, está claro, à poesia brasileira contemporânea feita por escritores de outras gerações, como Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Jomard Muniz de Britto, Affonso Ávila, e outros poucos, já com mais de 60 anos, que continuam produzindo poemas da mais alta qualidade. Falava da poesia da minha geração, dos que apareceram nos anos 80 e 90, que estão agora entre os 35 e os 50 anos. Nessa minha geração o que predomina é o retrocesso, o receio de levar adiante as inovações radicais das gerações anteriores. Abandonou-se tanto a experimentação inventiva e rigorosa dos concretos, quanto o ímpeto de denúncia e protesto dos "engajados", quanto a espontaneidade espirituosa e por vezes também engenhosa e inventiva dos "marginais". Restou-nos uma poesia por vezes empolada, meramente descritiva e incapaz de emocionar, instigar ou provocar. Restou-nos o gesso e o tolo elogio do silêncio. Os piores são os oportunistas patológicos, que lançam, como Sandy e Júnior, carreiras internacionais picaretas e, juízes sem juízo, procuram atacar com porradas tudo o que lhes pareça uma ameaça à sua pretensa genialidade. Ou seja, um ambiente podre. Nesse ambiente, preferi calar-me durante sete longos anos. Não cria que nada que eu viesse a dizer fosse ouvido. Cansei de jogar pérolas que, antes de chegar a ouvidos interessados e interessantes, eram devoradas e silenciadas pelos porcos. Quando resolvi voltar, irritado com o triunfo de tanta bobagem, escrevi os versos de Poesia e Porrada: E agora que impera o chato pé no gesso dispenso a pose polida Mas aconteceu, desde a publicação de Contracorrente, algo que não esperava e que muito me animou. Descobri uma série de poetas, muitos deles inéditos, que estão fazendo um trabalho muito interessante: vigoroso e rigoroso. Longe da mídia dominante, alguns sem a menor perspectiva de publicação. São vários e não quero citar nomes, pois posso esquecer de algum, mas há gente muito boa ainda inédita ou muito pouco conhecida aqui em São Paulo, no Rio, em Santo André, na Paraíba, em Minas, em Recife e até em Arcoverde PE. Acho agora, portanto, que há saída sim, mas há (e sempre houve) as barreiras da burrice, do conservadorismo e da obtusidade generalizada a se enfrentar. Espero continuar tendo forças e alguma companhia para fazê-lo. WEBLIVROS!: O livro Louco no oco sem beiras é formado por um longo poema, dividido em fragmentos, que fala de uma crise pessoal (vide o subtítulo Anatomia da depressão), mas também de uma crise mais ampla, talvez de ordem ética. Como se conjugam as crises do poeta e do cidadão Frederico Barbosa nas tramas do poema? Frederico Barbosa: Não vejo diferença entre o poeta e o cidadão. A crise que descrevi era minha, mas é lógico que é uma crise generalizada. Quantos não sentem o que descrevi no livro? Sei que inúmeros. Espero que a leitura do livro possa ajudar muita gente a procurar lutar, como faço, contra a depressão, contra o "oco sem beiras" que nos rodeia. O termo "oco sem beiras" é de João Guimarães Rosa, como se vê na epígrafe do livro, do conto "Soroco, sua mãe, sua filha". Curioso é que, ao lado dos temas da loucura e da solidão, sobressai-se no conto o tema da solidariedade. Talvez seja esse o caminho. O do final do conto: "A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga." WEBLIVROS!: Você sofre da "angústia da influência" de que fala o crítico norte-americano Harold Bloom? Qual sua relação, como criador, com a tradição literária? Frederico Barbosa: Não creio sofrer de nenhuma "angústia" quanto às influências. Tenho várias, é claro, e não me sinto mal por isso nem procuro destruir meus ídolos. São inúmeros, de Homero a Antonio Risério. Passando por Sófocles, Beckett, Camus, e um sem número de escritores, pintores, cineastas, jogadores de futebol, compositores, cantores, todos artistas maravilhosos. Mas é claro que, sempre que falam em "influência", quanto à minha poesia, pensam na minha relação com a poesia concreta. Vivo repetindo, embora desagrade a tantos, que a poesia concreta foi a maior revolução na poesia mundial ocorrida na segunda metade do século XX. Além disso, foi a única proposta estética jamais surgida no Brasil e único momento em que esse país esteve na vanguarda da arte (qualquer arte!) no mundo. O Brasil é um país muito engraçado... fica vibrando quando um filmezinho de terceira concorre ao Oscar e esquece que temos, aqui, vivos e atuantes, três dos poetas mais importantes na história da literatura mundial: Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Eles são a nossa glória máxima na arte. Digo mais: não tenho a menor dúvida de que Augusto de Campos é hoje o maior e mais importante poeta vivo não só da língua portuguesa, mas de todo o mundo. Preciso responder se tenho influência? Mas é claro que procuro fazer a minha poesia, usando qualquer recurso disponível... sonoro, visual, concreto, o que seja... A grande lição da poesia concreta foi abrir as portas a todas as possibilidades criativas que se possa utilizar... sempre com rigor e técnica apurada. É o que eu busco. Muitos poetas foram influenciados pela poesia concreta, chegaram até a copiar, como sósias, muita coisa e depois, buscando a facilidade e o "sucesso" barato, viraram as costas aos seus inventores e quiseram "matar o pai"... Poucos tentam fazer seu trabalho procurando ser inovadores mas conscientes dessa herança maravilhosa. Arnaldo Antunes, Antonio Risério, Carlos Ávila... e outros poucos, muito poucos. Acho que isso significa ter uma relação madura e segura com a influência: assumi-la e reelaborá-la. É o que procuro fazer. Ainda há João Cabral, que é influência fenomenal, e Sebastião Uchoa Leite, poeta de primeira e que sempre foi uma espécie de guia, desde a adolescência. E meu pai, João Alexandre Barbosa. E quem não diz que o pai foi importante? Mas, no meu caso, ter como pai um dos melhores críticos literários e um dos mais brilhantes professores de literatura que esse país já teve foi e é um privilégio que não se pode desconsiderar. Não que eu seja melhor ou pior poeta por isso, mas certamente aprendi, pelo menos, a ter enorme prazer em ler e escrever poesia. WEBLIVROS!: Comparando-se seus dois recentes com Rarefato e Nada feito nada, percebe-se uma certa "soltura" formal, que não significa descaso para a construção dos poemas, mas que aponta para uma abertura maior às impurezas do mundo. Os poemas jogam mais com o coloquialismo; as cenas urbanas ganham espaço; o formato dos textos se torna irregular, com diferenças bruscas. Essa trajetória é intencional? Frederico Barbosa: Nos meus sete anos de silêncio, entre Nada Feito Nada e Contracorrente, pensei muito sobre como continuar a escrever. Sempre cri que o que importa mesmo na poesia é a forma. Não a fôrma, prisão, mas a estrutura orgânica do texto. O que importa é como se diz e não o que se diz. Mas demorei muito para concluir o óbvio. Se o que importa é a forma, o vigor da composição, por que não unir à preocupação estrutural a busca de um conteúdo que tenha impacto e fale das coisas que, de fato, preocupam e afligem as pessoas hoje? Já cansei de poetas ditos refinados que fazem uma poesia frouxa, cheia de artifício e que nada dizem do nosso tempo. Que ficam fazendo firula para descrever um peixe no prato ou uma visão besta de um quadro, ou de flores e corolas nos bairros nobres de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Masturbação inócua. Voltando ao que respondi à sua primeira pergunta, o que pretendo é unir a experimentação inventiva e rigorosa dos concretos ao ímpeto de denúncia e protesto dos "engajados" e a o que há de engenhoso e inventivo dos "marginais". É possível conseguir tudo isso ao mesmo tempo? Leminski de certa forma conseguiu, eu estou tentando de forma diferente... WEBLIVROS!: Você acredita que o poeta moderno deve ter um projeto estético? Que projeto orienta seu trabalho? Frederico Barbosa: Não creio que "deva". Talvez "possa" ter. Se eu tenho algum projeto, já o expus na resposta anterior. É unir rigor, vigor e ardor. Mas talvez o projeto maior eu tenha aprendido com Torquato Neto: "desafinar o coro dos contentes", ou, como eu mesmo traduzi em Contracorrente, "incomodar os acomodados de todos os lados". WEBLIVROS!: A poesia ainda representa um modo singular de dizer a realidade, ou tornou-se voz perdida entre tantos ruídos midiáticos? Frederico Barbosa: Quando representou "um modo singular de dizer a realidade"? Talvez tenha deixado de representar isso com Homero. É voz perdida há muito tempo. Leia-se o Epílogo de Os Lusíadas... Camões já reclamava. Mas acho que pode até atingir um número muito maior de leitores do que atinge hoje. Eu dou aulas à noite. Grande parte dos meus alunos moram na Zona Leste. Muitos fazem um esforço sobre-humano para estudar. Eu os admiro demais. Durante os meus anos de silêncio, passava para alguns o Nada Feito Nada e o Rarefato. Poucos entendiam qualquer coisa. Resolvi que, a partir de agora, escreveria para que eles entendessem, não para ser entendido por pessoas que tiveram todas as oportunidades de se educar, como eu. Sem relaxar no rigor da experimentação formal, falar do nosso dia a dia infernal. E me lembro sempre de Antônio Vieira. "Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: - estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem." É o que gostaria que a minha poesia fosse: "estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem." Mas aí está outro problema. Para que todos a vissem, seria preciso que a poesia fosse mais divulgada nesse país. Tenho certeza de que se muitas pessoas tivesse acesso ao meu novo livro, Louco no Oco sem Beiras, certamente várias se interessariam. Mas as livrarias não compram poesia, os jornais se dedicam a escrever sobre best-sellers, ninguém acredita na poesia. Precisamos nos unir, poetas de todas as frentes, para tentar abrir uma brecha na muralha da indiferença e chegar aos leitores. Uma coisa que o Ulisses Tavares me escreveu, quando do lançamento do livro novo, muito me comoveu: "na praia estreita da poesia, a vitória de um é, por extensão, a de todos". É esse espírito solidário que precisamos ter... ir com o outro até "aonde que vai aquela cantiga"... WEBLIVROS!: Como você situa sua obra no cenário da literatura brasileira atual? Frederico Barbosa: Não sei. É melhor deixar para os outros definirem isso. Mas acho que eu faço uma poesia honesta que, pelo menos, provoca e toca. E que, creio, deveria ao menos ser lida. |
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