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Entrevista com o jornalista Manuel da Costa Pinto PDF Imprimir E-mail
ImageO jornalista Manuel da Costa Pinto edita a conceituada revista literária Cult, que apresenta artigos e resenhas sobre livros, entrevistas, dossiês sobre escritores brasileiros e estrangeiros, textos inéditos de prosa e poesia. Com periodicidade mensal, a revista chega ao 34º número com excelente acolhida do público e da crítica, comprovando que um produto de boa qualidade sobre literatura pode conquistar seu espaço num mercado de tiragens tão acanhadas como o brasileiro.

Manuel trabalhou na Folha de São Paulo, na Editora da Universidade de São Paulo e no Jornal da USP. Foi editor da coleção de livros de bolso Canto Literário, publicando textos de Boccaccio, Montesquieu, Machado de Assis, Guy de Maupassant, Plutarco e Marcel Proust. É autor do livro Albert Camus - um elogio do ensaio (Ateliê Editorial, 1999, São Paulo, 200 pp.), sua tese de mestrado apresentada na USP. Também selecionou e traduziu ensaios de Camus, em parceria com Cristina Murachco, para a coletânea A inteligência e o cadafalso (Record, 1999, Rio de Janeiro140 pp.). Nesta entrevista para o WEBLIVROS!, Manuel fala de literatura, da imprensa, do mercado literário, da Bienal do Livro de São Paulo e da cultura brasileira.

WEBLIVROS!: Qual é a função de um revista literária como a Cult num país de tão poucos leitores e de índices assustadores de analfabetismo como o Brasil?

Manuel da Costa Pinto: A revista tem duas funções básicas: ampliar, naqueles leitores que já lidam cotidianamente com a literatura, o repertório de autores e obras, e apresentar, àqueles que não lêem habitualmente, o mundo literário. Quando eu peço uma resenha ou ensaio a um colaborador, sempre digo que gostaria que o texto fosse ao mesmo tempo informativo (apresentando o tema ou autor para o leigo) e profundo (apresentando uma visão nova do tema para aqueles que já o conhecem). Ou seja, uma revista literária tem de suprir uma dupla carência: a falta de publicações na área de literatura e, num âmbito muito maior, as lacunas da formação educacional brasileira.

WEBLIVROS!: Como você avalia a qualidade do tratamento dado à cultura, especialmente à literatura, pela imprensa brasileira?

Manuel: De modo geral, acho que a imprensa cultural brasileira tem uma qualidade excelente – embora haja poucos veículos. O "Mais!" da Folha de S.Paulo e o "Suplemento Cultural" de O Estado de S.Paulo são sem dúvida os mais importantes cadernos culturais do país, e isso talvez seja o indício de uma excessiva centralização (quem lida com cultura sabe que, fora de SP, as pessoas compram a Folha aos domingos por causa do "Mais!"). Há outros exemplos de bom jornalismo cultural, como o Suplemento Literário da Secretaria da Cultura de Minas Gerais ou cadernos como o "Idéias", do Jornal do Brasil, "Prosa e Verso", de O Globo, ou ainda a revista Bravo!. Em geral não são veículos dedicados exclusivamente à literatura, mas à cultura e espetáculos. As publicações voltadas só para a literatura têm necessariamente uma abrangência menor. É o caso de revistas literárias como Ficções e Inimigo Rumor (do Rio de Janeiro), Dimensão (de Uberaba) ou Medusa (de Curitiba) – que trazem sobretudo espaços para textos de criação, com inéditos de autores consagrados e de autores estreantes. Finalmente há um nicho que a CULT ocupa e que eu chamaria de "cultura literária" ou "livresca", ou seja, a literatura propriamente dita e outras formas de literatura não-ficcional veiculadas em livro (crítica literária, filosofia, crítica de artes plásticas, ensaio filosófico, história), que nós divulgamos na forma de resenhas de livros dessas áreas, entrevistas com autores ou dossiês temáticos sobre um autor ou tema.

WEBLIVROS!: Quais foram as principais dificuldades e os melhores resultados nestes quase três anos de existência da revista Cult?

Manuel: A principal dificuldade é (e continua sendo) atrair anunciantes. A existência da CULT só é possível graças à estrutura da Lemos Editorial, uma editora voltada para publicações científicas na área de medicina (revistas, livros, separatas, atas de congresso). Foi essa estrutura que permitiu a continuidade da revista até que conseguíssemos ganhar a confiança do mercado, atraindo anunciantes (que, mesmo assim, são em número pequeno, se compararmos com revistas de temática mais genérica). O anunciante não quer associar seu nome a uma revista de curta duração e por isso espera que a revista se consolide no mercado. Essa consolidação exige, porém, um investimento a longo prazo. Os melhores resultados foram obtidos com números da revista que abordavam clássicos da literatura de língua portuguesa como Machado de Assis (CULT 24, nosso número mais vendido) e Fernando Pessoa (CULT 18). Mas há coisas surpreendentes, como o número sobre Umberto Eco (CULT 20), que foi um sucesso estrondoso para nós, ou o número sobre Borges (CULT 25), que certamente foi alavancado pela grande visibilidade dada ao escritor argentino no mês de seu centenário.Outra grande e agradável supresa foi o sucesso das seções "Criação" (para autores estreantes) e "Gaveta de Guardados" (para inéditos de escritores consagrados). Tenho recebido uma quantidade inimaginável de originais – o que prova que a literatura é um canal de expressão considerável para um grande número de pessoas.

WEBLIVROS!: O mercado de livros no Brasil é bastante acanhado, se levarmos em conta as tiragens e as vendas em relação ao potencial de consumidores. No entanto, há uma proliferação de pequenas editoras e de edições independentes, principalmente de poesia. Seria um sintoma de efervescência ou a literatura segue caminhos alternativos?

Manuel: Embora as tiragens ainda sejam pequenas, o custo de produção de um livro é cada vez mais baixo. Resultado: há um grande número de pequenas editoras que publicam pouco e que se soma a um pequeno número de grandes editoras que publicam muito Além disso, tal situação incentiva as parcerias entre editora e autor. Muitas editoras fazem os livros de tal forma que os próprios autores paguem parte dos custos. Isso seria impensável há dez anos, quando os custos do livro eram muito altos. Acho que tornou-se mais fácil publicar, ainda que o mercado não responda a essa oferta. Há portanto uma efervescência editorial (quantitativa), que não deve ser confundida com uma efervescência literária (qualitativa).

WEBLIVROS!: O advento da Internet, na sua opinião, é benéfico ao livro, ou estamos diante de uma transição nos hábitos de leitura e que, inclusive, terá repercussão na própria linguagem literária?

Manuel: A Internet amplia os espaços, sem prejudicar os meios já existentes. O cinema não matou o teatro, a TV não matou o rádio e a Internet ou o e-book não vão matar o livro. Tenho certeza de que vamos conviver tranquilamente com os dois suportes: livro em papel e textos virtuais. Ambos têm formas diferentes de leitura, o livro se presta mais para a fruição, enquanto o texto virtual (na Internet ou em e-book) é ótimo para quem pesquisa (facilitando a localização de frases e termos dentro de livros volumosos). Quanto à linguagem, a literatura oscila constantemente entre a mímese da realidade e o desvio da realidade, entre a representação do existente e sua subversão. A Internet é mais um objeto do mundo, uma instância da realidade, que a literatura vai ora assimilar (mimetizando sua instantaneidade, sua virtualidade), ora rejeitar (criticando seu caráter não-mediado, não reflexivo, a potencialidade irracional da técnica).

WEBLIVROS!: Como jornalista da cultura e editor, que novos autores você destacaria na literatura brasileira de hoje?

Manuel: Vou considerar os anos 90 para cá. No romance, destacaria Fernando Bonassi (o romance Subúrbio é a melhor coisa que se produziu no Brasil nos anos 90), Cristovão Tezza (que já tem vários romances, mas só agora começa a ser lido de modo mais amplo) e Bernardo Carvalho. No conto, João Inácio Padilha e Nelson de Oliveira. Na poesia, Paulo Ferraz, Heitor Ferraz (nenhum parentesco entre ambos), Donizete Galvão, Frederico Barbosa, Ruy Proença e Fabio Weintraub.

WEBLIVROS!: Qual sua avaliação da XVI Bienal Internacional do Livro de São Paulo?

Manuel: Pessoalmente, acho a Bienal um evento cada vez menos importante, cada vez mais desestimulante. É um playground cheirando a comida e cheio de pessoas que estão ali atrás de livros de auto-ajuda e de religião. Nada a ver com a literatura. É uma freqüência impulsionada apenas pela mídia televisiva. Tanto faz que ali sejam vendidos livros ou eletrodomésticos, roupas ou berinjelas. A Bienal não tem política cultural. Há uma série de encontros importantes com escritores e intelectuais que ficam confinados em salinhas escondidas do público, ao passo que os melhores espaços são ocupados por editoras com um catálogo pífio e com uma programação cultural ridícula. Os lançamentos importantes, portanto, estariam sendo feitos independentemente da Bienal. Um livro como a correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, por exemplo, está sendo considerado lançamento de Bienal pela Edusp, mas já tinha sido lançado antes. É isso que acontece: as editoras até aproveitam o barco, mas não investem num livro apenas para a Bienal, pois o público dessas editoras talvez nem vá ao evento, que além disso ocorre num lugar horroroso como o Expo Center Norte.

WEBLIVROS!: Você acredita que a boa literatura terá alguma chance na luta com a onda da auto-ajuda, ou esta é mais uma moda passageira que será substituída em breve por outra fórmula de marketing; e a batalha prosseguirá sem conclusão?

Manuel: Acho que são duas coisas diferentes. Livros de auto-ajuda não são literatura. São uma manifestação de histeria coletiva sobre um suporte de papel. Não é diferente do lixo televisivo. Não é literatura. Infelizmente, a alta cultura é um domínio restrito. Veja o que acontece com as artes plásticas. O máximo que o grande público consegue atingir é Picasso. Mas aconteceu muita coisa depois disso, muita coisa que o público não consegue nem sequer entender que seja arte, mas que irá assimilar daqui a cinquenta anos. É o mesmo com a literatura: a produção contemporânea tem um público restrito e só terá mais leitores num futuro remoto. Daqui a cem anos, Paulo Coelho estará completamente esquecido e Raduan Nassar será um pouco mais lido.

WEBLIVROS!: Que autores foram decisivos em sua formação e por quê?

Manuel: Pela ordem de aparição deles no mundo: Montaigne, Pascal, Stendhal, Dostoiévski, Fernando Pessoa, Camus e Cioran. Em todos eles há um conteúdo reflexivo, filosófico, que se equilibra com a forma literária. Interessa-me neles essa irresolução, essa oscilação entre o desejo de compreender filosoficamente o mundo e a constatação de que o mundo é opaco, incompreensível e, portanto, só representável em termos ficcionais, literários.

WEBLIVROS!: Existem planos de renovação na revista Cult que você poderia comentar?

Manuel: Daremos cada vez mais espaço para as seções de inéditos. Além disso, acabamos de lançar um concurso literário chamado Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, abrangendo os gêneros romance, conto e poesia. O concurso tem a ambição de descobrir e consagrar novos talentos literários, premiando os vencedores com a publicação em livro de sua obra. As inscrições vão até 30 de outubro de 2000 e o leitor encontrará nas edições da CULT um encarte com o regulamento e a ficha de inscrição.

 
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