|
Tarso de Melo nasceu em 1977; é poeta e advogado. Foi editor da revista Monturo e atualmente edita, com Eduardo Sterzi, a revista Cacto . Autor dos livros A lapso , Um mundo só para cada par (com Fabiano Calixto e Kleber Mantovani), Carbono e Plano de fuga e outros poemas . No prelo, Lugar algum , resultado da Bolsa Vitae conquistada em 2005. Sua militância literária inclui também ensaios de crítica e a coordenação de um núcleo de leitura de poesia em Santo André, entre outras atividades. A poesia de Tarso realiza uma profunda investigação das incompletudes, misérias e contradições do homem na metrópole deteriorada. Restos de uma cidadania em frangalhos, de um projeto de civilização falido, cuja linguagem patina entre as falsidades ideológicas e os apelos publicitários. A poesia de Tarso também investiga a linguagem, mas sem as certezas e os horizontes programáticos, porque a linguagem em seus poemas traz a precariedade do humano, com suas dores e dúvidas abissais. Nesta entrevista exclusiva, ele fala de formação, do contexto literário brasileiro e de suas inquietações como poeta e cidadão.
Reynaldo Damazio
WEBLIVROS: Percebe-se na trajetória que vai do livro A lapso até o recente Planos de fuga e outros poemas que sobressai nos textos uma linha de investigação urbana, em que certo desencanto lírico é posto em atrito com a paisagem decadente e desumana da cidade. Esse pode ser considerado o eixo de seu trabalho poético?
TARSO DE MELO: Acredito que sim, mas como algo que tenho feito ganhar mais espaço nos meus poemas. Ou seja, o urbano em A lapso era ainda muito secundário e, a partir de Deserto (que lancei como plaquete e depois deu base a Carbono ), vem em cheio para o primeiro plano, o que se acentua nos poemas que compõem Planos de fuga e ainda mais no livro em que trabalho atualmente, Lugar algum . Acho que isso se deve a um incômodo particular, pessoal, que sinto com relação à forma como vivemos numa cidade como São Paulo ou Santo André ou São Bernardo do Campo. Cada vez mais, as estratégias do cotidiano são no sentido de evitar a cidade, ou seja, os locais realmente públicos (que são substituídos por coletividades aparentes, como shoppings, condomínios etc.), e, a meu ver, isso dá margem para construções ideológicas desastrosas do ponto de vista da organização coletiva de nossas vidas, quer dizer, da parte que nos toca e que não poderemos resolver sozinhos, que faz parte necessariamente de uma esfera comum às demais pessoas. Meus poemas, assim, imagino que se situem na investigação dessa zona de atrito entre intimidade e publicidade, enfim, entre eu e os outros (brincando com Rimbaud: onde termina o “eu” e começa o “outro”?). Em A lapso , o pêndulo puxava mais para a esfera da intimidade, das coisas pessoais, das próprias idéias, leituras. Mas gradualmente tenho conseguido apreender o quanto há de enganoso nessa tentativa de separação da vida própria e da vida com os outros: escrever sobre aspectos bastante íntimos meus é um modo de reagir ao mundo. E agora tenho feito o possível para falar mais diretamente das coisas que estão do lado de fora de minha casa, para entender como é inevitável que eu as traga para dentro.
WB: Ao lado dessa preocupação cidadã com as ruínas do "eu" e da metrópole, há também um subjacente questionamento metalingüístico nos poemas?
T.M.: Todo poema que escrevo incorpora, de certo modo, uma tentativa de resposta à pergunta “por que escrevo poesia?” e isso implica sempre o questionamento da forma como quero, como aceito, como devo escrever. Desse modo, os poemas todos são crivados de alguma metalinguagem, de algum pensamento a respeito deles mesmos (enquanto unidade) e a respeito da poesia (como modo de manifestação pessoal que cada um deles ajuda a construir), ainda que, recentemente, a menos que eu me engane, não tenha feito poemas tematizando propriamente o fazer poético.
WB: Que poetas foram decisivos na sua formação e que poetas deveriam, hoje, ser lidos e comentados? T.M.: A porta pela qual entrei, de vez, na leitura de poesia é a mesma pela qual, nos últimos cinqüenta anos no Brasil, a maioria dos poetas entrou: a produção poética, ensaística e tradutória do trio que criou a poesia concreta. Mas o que acho importante notar é que isso, no meu caso, se deu no início da década de 90, ou seja, quando as produções de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari já haviam incorporado uma diversidade muito grande e muito ampliada com relação aos traços iniciais do movimento nos anos 50. E foi essa minha ração poética por muito tempo, junto com autores que, de algum modo, também eram referidos ao concretismo, como Paulo Leminski e outros poetas dos anos 70, 80 e 90. Mas agora percebo que, no meio daquelas leituras, não havia, por exemplo, algo que depois se tornou essencial para mim, que é a obra dos poetas modernos brasileiros. O que entrava dessa poesia brasileira na poesia concreta não era, justamente, aquilo que depois se tornaria objeto do meu mais profundo apreço, como Murilo Mendes (por inteiro) ou Drummond (também por inteiro). E acho que minha poesia traduz muito dessa admiração que tenho por poetas muito diversos, mais do que isso, por poemas muito diversos. Atualmente, após ter entrado em contato com alguns contemporâneos portugueses (inicialmente nas páginas da revista Inimigo Rumor e depois, tanto quanto pude, com os livros desses autores), posso dizer que minha grande “influência” atual está em poetas como Manuel António Pina e Ruy Belo, que tenho lido insistentemente, com muita admiração, por assim dizer, pelos resultados e pelos procedimentos. Mas tenho certeza de que isso é mutável, enquanto houver poetas por ler. E sempre haverá.
WB: Existe leitor de poesia no Brasil, naquele sentido de um público formado, segundo o sistema literário definido por Antonio Candido, ou os leitores de poesia são os próprios poetas? Qual o papel das revistas literárias, como a Cacto que você edita com Eduardo Sterzi, entre tantas outras em circulação, nesse circuito de poetas e leitores?
T.M.: Acho muito complicado perceber, entre nós, a existência de um “público formado” compondo um sistema com a literatura contemporânea, mas acho igualmente difícil acreditar que os únicos leitores de poesia são os poetas (ou pior, como sempre ouvimos, que há menos leitores de poesia do que poetas, o que supõe haver poetas que não lêem poesia: sei que há os que lêem muito pouco e/ou muito mal, mas acho que são pouquíssimos os que nada lêem). Há milhares de pedras no caminho que vai da edição de poesia ao público; muitas vezes, antes de ser um leitor especializado em poesia, a pessoa se torna um especialista em procurar pelos livros, porque nós mesmos, que estamos sempre por perto desse movimento editorial, temos dificuldade para encontrar o que está publicado. Isso vale para as publicações do poetas menos conhecidos, mas também vale para a obra de alguns dos principais poetas de nossa literatura, porque são pouquíssimas as livrarias que se preocupam em manter um acervo razoável de poesia. Se tomarmos o exemplo das grandes redes de livrarias, é comum você procurar, por exemplo, por um Drummond que está, sabidamente, em catálogo e não encontrar. Desse modo, acaba ficando restrita, de fato, a circulação da poesia àqueles que vão atrás dos livros, como universitários e escritores. Mas, por outro lado, não sabemos exatamente tudo sobre a vida dos livros que são editados: não é tão raro que tentemos comprar algum livro de poemas e ele esteja esgotado.
Quanto ao papel das revistas literárias, como a Cacto , penso que elas cumprem justamente essa função de aproximar as pessoas da literatura (porque oferecem no varejo aquilo que os mais interessados vão buscar depois no atacado) e, dentro da literatura, de aproximar autores, apresentar tendências, frisar a convivência entre autores mais velhos e outros mais jovens, de modo a captar, com mais dinamismo do que os livros conseguem ter, o retrato da literatura num determinado momento. As revistas, inclusive, são capazes, ao mesmo tempo, de construir uma imagem geracional e de dinamitar imagens restritas a respeito dessas gerações, que tentam fazer crer que as linhas não se encontram no tempo. As revistas conseguem mostrar o funcionamento das diversas trocas – mão dupla, mesmo – que existem entre autores de gerações que se sucedem, aparentemente muito distantes. Eu, particularmente, edito revistas porque adoro ler e devo muito às revistas que li e leio.
WB: O que se salva e o que se perde na crítica literária e no jornalismo cultural em atividade no Brasil?
T.M.: Tomando a liberdade de estender as concepções de crítica literária e de jornalismo cultural até um ponto comum, mais abrangente, em que constituam faces do mesmo fenômeno (que vai incluir desde a crítica e do jornalismo propriamente ditos até as traduções, revistas e antologias que circulam por aqui), acho que nesse campo há muita coisa interessante sendo feita. Vejo com muito entusiasmo a continuidade da nossa tradição de tradutores de poesia, por exemplo, de poetas jovens traduzindo ao mesmo tempo clássicos e contemporâneos de várias línguas (boa parte dos quais tivemos o prazer de publicar na Cacto ). Do mesmo modo, é interessante a forma como aparecem, aqui e ali, novas publicações com novos autores escrevendo sobre literatura contemporânea: alguns numa linhagem mais crítica e acadêmica, outros mais jornalísticos, uns que também são autores de poesia e prosa, outros que são “apenas” críticos e jornalistas culturais. Há, claro, nesse largo campo alguns que se destacam pela qualidade técnica de seus trabalhos, mas acho que o principal a chamar atenção aqui é o fato de que todos esses esforços juntos acabam criando uma certa cobrança recíproca que tende a resultar num avanço geral da qualidade do que cerca nossa vida literária. O que disse até aqui, não sem algum otimismo, acredito que seja a parte que se salva. Quanto à parte que se perde, não posso deixar de constatar que para cada boa intenção nesse meio, há sempre outra na mão contrária – no traçado das revistas, no recorte das antologias, no acento das traduções, nas escolhas das críticas, no enfoque do jornalismo cultural. Resiste, ainda, um clima de emulação, de rivalidade, até de hostilidade em alguns casos, que prejudica o quadro otimista.
WB: O poeta deve refletir sobre poesia e literatura, no sentido ensaístico? Qual a relação entre pensamento e intuição no fazer poético?
T.M.: Não diria que deve produzir ensaios críticos e teóricos, como se isso fosse algo indispensável para sua própria poesia, mas que o poeta deve zelar (conhecendo, estudando, analisando) por uma capacidade de reflexão bastante incisiva sobre a literatura (a sua e, principalmente, a dos outros) e sobre quanto mais puder, disso não tenho dúvida. A despeito de raríssimas exceções de artistas que não conhecem arte, acredito que, no geral, qualquer intuição artística de uma cabeça completamente desarmada de conhecimento artístico tende a ser tola, superficial, repetitiva. Ou seja, ainda que não haja uma regra a respeito de quais conhecimentos são indispensáveis para fazer literatura (talvez um mínimo: o da língua), acredito que o conhecimento de literatura, o reconhecimento das qualidades literárias desse ou daquele texto e o pensamento inquieto sobre os demais escritos e escritores são indispensáveis para qualquer escritor. Não acho, contudo, que um autor somente consiga escrever boas coisas após esgotar, sistematicamente, a tarefa de ler um por um de seus predecessores (o que é algo impensável), mas acho que deve ter sempre o compromisso de pensar sobre o que escreve considerando que veio depois de muita gente. Se contrair ou não quaisquer dívidas com a tradição, que seja conscientemente. Da mesma forma, conhecendo quem o precedeu (ao menos, por assim dizer, os mais evidentes), o escritor evita o fiasco de se imaginar inventor dos inventos dos outros – porque ninguém vai acreditar que ele não conhecia o que já era conhecido por muitos. Nessa linha, é inevitável que eu conclua que não há literatura sem reflexão sobre a literatura, seja essa reflexão ensaística (em sentido estrito, crítico e teórico), ou apenas um constante tormento diante do que é e do que pode ser a literatura (a sua e, sempre, a dos outros).
WB: Você se sente, como escritor, pertencente a alguma tradição literária? Há consciência geracional na literatura brasileira contemporânea?
T.M.: Quando falei acima de uma das coisas que mais me atraem nas revistas literárias, toquei no assunto da tradição, de como as revistas desestabilizam essas imagens mais estáticas da literatura. E penso a respeito de mim mesmo mais num horizonte como o formado nas revistas (em que se entrecruzam diversas camadas históricas, não em simples linha de sucessão, mas em atrito, troca, trânsito, numa dimensão que é também transnacional), do que no da historiografia literária. É claro que identifico, entre os poetas de uma faixa etária mais ou menos próxima à minha (estou quase com trinta anos), vários que se relacionam de modo semelhante com autores “marcantes” das fases imediatamente anteriores e com certas características da poesia contemporânea, e poderia procurar aí um traço que nos identificasse como geração, mas acho que seria reduzir demais a questão, querendo definir a teia inteira destacando apenas dois ou três de seus fios. Isso pode ser mais útil para a sistematização, mas estou mais interessado na problematização. E acho que é daí que tenho condições de tirar melhor alimento para meus próprios poemas.
WB: Que contribuição a poesia pode oferecer para a compreensão do homem e do mundo contemporâneos?
T.M.: Esta é outra questão que tento responder a cada poema que escrevo, mas que, a cada poema, parece ainda mais gigantesca e opressora. Incontornável, irresistível, mas irrespondível (ou sempre insuficientemente respondível). Aqui, sem ser em forma de poema, eu me arriscaria apenas a dizer que ela serve para mostrar ao homem que ele não compreende tudo a respeito do mundo e de si mesmo. Muito menos da poesia.
|