Entrevista
Carlos Moraes | Carlos Moraes |
|
|
|
|
Entrevista com Carlos Moraes
WEBLIVROS!: Seu livro Como Ser Feliz sem Dar Certo é feito de pequenas narrativas, crônicas, poemas em prosa, casos autobiográficos, reflexões. Como você o definiria? Carlos Moraes: Como um livro generoso. Tem, de fato, muitos gêneros. Uma história eu sinto mais conto, outra mais crônica, outra mais poesia e, à certa altura, a coisa vira um romance, as quase memórias de Vitorino, o Inviável. Eu diria: são vozes. Daí o o belo trecho do poeta Ferreira Gullar na epígrafe. Vivemos todos nós cheios de vozes... WEBLIVROS!: O mercado editorial brasileiro vive, hoje, sob o modismo da auto-ajuda. Seria esse fenômeno um sintoma perigoso de nossa cultura? Podemos dizer que seu livro é uma espécie de "antídoto" a essa "febre"? Carlos Moraes: Ler um livro é sempre uma bênção, mesmo um livro de auto-ajuda. Ler tentando entender-se melhor é sempre precioso, sagrado, isso de ficar quieto, centralizar-se, tentar chegar àquele pontinho de luz onde nos arriscamos a ver melhor nossa própria face e, se bobeia, a de Deus. Então, Como Ser Feliz sem Dar Certo não é contra o Paulo Coelho, o Dalai Lama e muito menos contra a Luciana Gimenes. O problema com as regras e métodos de crescimento e salvação é que eles de nada valem sem uma mudança de espírito, de olhar. Um filho duma puta que treina técnicas de respiração vai apenas ser um filho duma puta que respira melhor. Esses dias eu tava relendo o evangelho e vi, deliciado, como Cristo gozava com os fariseus, os grandes depositários, na época, da salvação que consistia em seguir, rigorosamente, as regras. Meu livrino não chega, na sua modéstia, a ser um antídoto. Ele gostaria é de dar uma anistia pra quem lê muito livro de auto-ajuda e continua na mesma. Aí ele, humildemente pergunta: que tal tentar ser feliz - na mesma? WEBLIVROS!: Fale um pouco sobre a interessantíssima teoria da "salvação pela bobagem". Carlos Moraes: Pois ela é a seguinte: se você humildemente admite seu lado de sombras, se a partir dessa aceitação se torna mais misericordioso consigo e com os outros, e mais generoso e mais solidário, vai ver que tudo salva - até uma bobagem. Vai ficar mais aberto à graça de Deus, que é misteriosa, e à graça da vida, que irrompe onde menos se espera. A salvação muito solenizada e organizada por uma igreja ou uma ideologia a primeira coisa que faz é sair por aí matando, na fogueira ou no campo de concentração, os que dela discordam. O fanático, como digo, é um idealista sem sentido de bobagem. O que a teologia da bobagem mais prega é a humildade e o humor aos salvadores. Igrejas e ideologias são frestas preciosas de luz, mas não portas escancaradas para o mistério da vida e a noite de Deus. Então, gente, calma lá. Você pode, como manda o evangelho, ajudar o pobre, confortar o doente, vestir o nu e alimentar o faminto. Desde que você saiba que você também é o pobre, o nu, o doente e o faminto. Então você pode fazer muito, mas não é grande coisa. Essa é a essência do bobagismo. WEBLIVROS!: Você foi padre até os 30 anos de idade, tendo sofrido processo durante o regime militar, depois tornou-se jornalista. Como é que o escritor Carlos Moraes entra nessa história? Carlos Moraes: Não entra. Ou entra meio na marra. Nunca me assumo, me organizo como escritor. Depois de uns infanto-juvenis aí, fiquei mais de 15 anos só no jornalismo. E só voltei para dizer o quê? Bobagens. Será que não é melhor continuar quieto? WEBLIVROS!: Ainda existe espaço e tempo para um bom livro e uma leitura tranquila no cotidiano de aceleração da mídia eletrônica em que vivemos? Carlos Moraes: São duas coisas diferentes. Quando uma novidade chega, parece que vai salvar tudo. Bobagem. Vocês, é porque são jovens, podem acreditar no absolutismo das novas máquinas. Já eu sou do tempo da salvação pelo liquidificador. Quando, no começo dos anos 50, o liquidificador chegou lá em Bagé, parece que ia resolver tudo. Todas as vitaminas e todos os dramas da alimentação humana. Aos poucos se viu que ele não só não continha tudo como prejudicava a dentição e sujava demasiadamente a cozinha. Foi a última máquina que me enganou. A mídia eletrônica, como o liquidificador, vai ter o seu lugar, mas o livro é eterno. |
| < Anterior | Seguinte > |
|---|
| Outros critérios: confrontos com a arte do século XX, de Leo Steinberg é lançado no Brasil. | |
| Ler mais... |
| A Livraria Cultura estréia uma parceria inédita com o Google, que permite que os usuários façam degustação das obras antes de finalizar as compras feitas no site. | |
| Ler mais... |
|
|