Entrevista
Ademir Assunção | Ademir Assunção |
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ZONA BRANCA DA POESIA Ademir Assunção nasceu em Araraquara, em 1961. É poeta, jornalista e letrista, tendo parcerias com os músicos Itamar Assumpção, Edvaldo Santana e Madan. Publicou os livros "LSD Nô" (1994), "A máquina peluda" (1997), "Cinemitologias" (1998) e "Zona Branca" (2001). É membro do conselho editorial da revista literária Medusa, editada em Curitiba. Inconformado e provocador, Ademir traz a batida forte do rock e as visões alucinantes do ritual xamânico para a poesia, subvertendo caretices eruditas com ousadia. Nesta entrevista exclusiva, fala de seu livro mais recente, da cultura pop, de literatura, da crítica, entre outros assuntos.
Ademir Assunção - Na verdade eu não me interesso muito por aquilo que a indústria do entretenimento passou a chamar de "cultura pop". Esse conceito se transformou em um guarda-chuva para abrigar celebridades instantâneas, com os bolsos cheios de dinheiro e a cabeça vazia de idéias. Zappa não é "pop". Ao contrário: sua obra toda é uma crítica demolidora da babaquice "pop" norte-americana. A própria ópera-rock "Joe's Garage", da qual decalquei a idéia da zona branca, é uma sátira corrosiva dessa indústria de clones descartáveis. É uma sátira também da mediocridade da imprensa, da truculência bélica do Pentágono, do pedantismo universitário pseudo-erudito, do exibicionismo sexual, do catolicismo repressor. A obra de Frank Zappa é extremamente complexa. Discos como "Hot Rats", "Them or us", "Shut up 'n' play yer guitar", "The man from Utopia", "Joe's Garage", por exemplo, são obras-primas. Zappa ampliou tanto as fronteiras do rock'n'roll quanto da música de concerto contemporânea. Compôs para a Orquestra Sinfônica de Londres, cujo concerto foi regido por ninguém menos que Pierre Boulez. Seus últimos trabalhos, inclusive, foram escritos para orquestra: "Civilization Phaze III" e "Yellow Shark". São obras contemporâneas que podem ser colocadas ao lado das composições de Varése, Stockhausen, Ligeti, Bério, Bartók e Webern. Com uma diferença: em vez de estar ancorado em uma tradição européia, ele traz toda a irreverência e o frescor de uma nova cultura. Há muita confusão em torno da cultura ou das culturas produzidas pelo mundo contemporâneo. E um pouco de desinformação. Muitos desconhecem que há verdadeiras obras-primas nas histórias em quadrinhos, por exemplo. "V de Vingança", "Moonshadow", "Orquídea Negra", "Sandman" são fantásticos. Essas manifestações artísticas todas me interessam, tanto quanto me interesso por Kafka, Pound, Dante, Borges e Rimbaud. Portanto, são muitas as referências na minha poesia, na minha escrita e na minha visão de mundo. Mas meu critério seletivo se assemelha ao que Nietszche escreveu, e que usei como epígrafe em uma das sessões do "Zona Branca": "De tudo o que se escreve aprecio somente aquilo que é escrito com o próprio sangue". WB - Como você explica no livro, "zona branca" é um tipo de presídio de segurança máxima, localizado fora do espaço-tempo para abrigar rebeldes e dissidentes. Isso seria uma metáfora para a poesia? Na sua opinião, qual o espaço ocupado pela poesia hoje, num ambiente cultural bárbaro e caótico? A. A. - É uma metáfora não só para a poesia mas para a arte em geral. Não devemos nos iludir: as esferas de poder político e social não gostam dos artistas. Artistas causam problemas. Questionam, criticam, ironizam, desequilibram os jogos de poder. Como poeta, tenho nas mãos uma instrumento capaz de causar alterações perceptivas. Primeiro, em mim mesmo. Então, batalho para que a poesia contamine mais pessoas. O espaço que a poesia ocupa é exatamente aquele que os poetas conseguem fazer com que ela ocupe. Tenho muitos amigos e amigas mais jovens, que desconheciam poesia. Quanto leram Rimbaud, Ginsberg, Cruz e Souza, Leminski, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, enlouqueceram, se apaixonaram por poesia. Qualquer pessoa que tenha sangue quente correndo nas veias cai de quatro ao ler um poema como "O Assinalado", de Cruz e Souza. Penso que os poetas devem abandonar os guetos acadêmicos, a "zona branca", e invadir as cidades, difundir a poesia. Ou ficaremos nos cantos, chorando como viúvas, lamentando eternamente a falta de leitores. WB - Nota-se nos poemas de Zona branca uma grande variedade de construção, indo da forma mais compacta e fragmentada (como nas seções "Cosmorama" e "O lótus nasce na lama") ao texto mais discursivo (como em "Jazz kamaiurá" e "Descida aos inferninhos"), de extração beat. Esse percurso é parte de uma experimentação programada ou nasce de uma inquietação pessoal? A. A. - Posso estar redondamente enganado, mas não concordo que os poemas das sessões "Jazz Kamaiurá" e "Descida aos Inferninhos" sejam discursivos e de extração "beat". Prefiro acreditar que são poemas construídos de olho (e ouvido) na oralidade. Na construção desses poemas me preocupei bastante com a musicalidade das palavras, com o ritmo dos versos, de forma que pudessem ser lidos, com certa fluência, em voz alta. Utilizei muitas aliterações, assonâncias, paronomásias, espelhismos, rimas internas e outros recursos. São poemas que me deram um trabalho danado. Não surgiram num jorro. Sem dúvida, são diferentes, por exemplo, dos da sessão "Cosmorama", na qual estava buscando aproximações possíveis com a linguagem cinematográfica. Penso que todo o percurso da minha poesia surge tanto da inquietação pessoal quanto da experimentação programada. Digamos que já tenho um certo software instalado na minha sensibilidade poética, que determina certos critérios no momento da criação. Mas a composição de cada poema não se trata de algo inteiramente programado. Senão deixaria de ser criação. O processo criativo, ao menos no meu caso, tem muito de imprevisto, de improviso, de indeterminação. Como a própria vida. Programamos muitas metas para nossas vidas. Algumas alcançamos, outras abandonamos. E, de repente, surgem fatos que alteram totalmente os rumos que havíamos traçado. Uma vida programada em detalhes, do começo ao fim, seria algo impossível. E se fosse possível, seria um tédio terrível. WB - Como você situa seu novo livro, não em termos evolutivos, mas numa perspectiva de conjunto, no contexto de sua obra? Qual a relação de Zona branca com A máquina peluda, de 1997, por exemplo? A. A. - É muito difícil, para mim, ter uma visão total da minha própria criação. Sei das intenções, dos critérios, dos impulsos, das pesquisas que norteiam cada livro. Talvez "A Máquina Peluda" seja um livro mais irônico e "Zona Branca" mais brutal. Por outro lado, há uma certa delicadeza em alguns poemas do "Zona" e altas doses de "brutalismo" em muitos textos da "Máquina". Se compararmos com um ritual antropófago, eu diria que "A Máquina Peluda" é o momento do escárnio ao inimigo capturado e "Zona Branca" é o momento da ritualização da carne devorada. WB - Levando em consideração as críticas a seu livro, na revista Cult e no Suplemento Literário de Minas Gerais, você concorda que existe um hiato entre criação e reflexão na literatura brasileira contemporânea, como muitos poetas apontam, ou a tensão existente é reflexo do próprio cenário desarticulado e mesquinho? A. A. - Concordo que há um hiato entre criação e reflexão. As novas gerações de poetas ainda estão sendo analisadas com critérios desatualizados. Até certo ponto, isso é natural. Um crítico parnasiano não poderia compreender um poema modernista. Cada geração de artistas forma sua própria geração de críticos e de leitores. Mas pior que isso é que grande parte da produção poética atual sequer está sendo analisada. Ao contrário: parece que há um esforço deliberado para escondê-la, para tirá-la de cena a todo o custo. Sabemos que há muita mesquinharia no meio artístico. É natural que idéias e visões artísticas se confrontem, entrem em atrito. Isso evita a estagnação, gera movimento. Mas tentar esconder o trabalho dos outros para ressaltar o seu, como alguns fazem, isso é uma lástima. É um esforço em vão. No fim das contas, aquilo que é forte, denso, perturbador, acaba vindo à tona. WB - O crítico Alfredo Bosi afirmou que a literatura brasileira mais recente estaria dividida em dois extremos: de um lado o mimetismo rasteiro e brutal da realidade pós-moderna e de outro a pesquisa erudita, com os cacoetes de um hermetismo acadêmico. É claro que a observação do crítico tem uma dimensão panorâmica, generalizante. Ainda assim, você acha que os escritores brasileiros de agora patinam entre o imediatismo e a erudição? Que resposta a poesia pode dar à realidade virtual do ciberespaço, à brutalidade do mercado hipermidiático, da economia globalizada, da cruzada internacional contra o terrorismo? A. A. - Atualmente, como em qualquer outra época, há poetas instigantes, criativos, informados, inventivos, sintonizados com as mudanças do mundo, e há poetas que correm em um terreno já pavimentado, dentro de uma presumível faixa de segurança. Os poetas que mais admiro não estão patinando entre o imediatismo e a erudição. Estão fazendo poesia vigorosa. Essa é a melhor resposta que os poetas podem dar à realidade contemporânea: criar uma poesia tão vigorosa que seja capaz de se contrapor ao barbarismo da ignorância. WB - Ainda que haja muita queixa de poetas sobre os espaços para criação e de crítica da poesia, muitas revistas literárias têm surgido, como Babel, Sebastião, Sibila, Rodapé. A revista Inimigo Rumor chegou à 11ª edição, firmando uma importante parceria com Portugal. A revista Medusa, à qual você está ligado, também mantém uma atuação relevante a partir de Curitiba. Na Argentina, a revista Tsé-Tsé vem realizando um belo trabalho de convergência de poéticas latino-americanas. Que funções desempenham essas revistas, em sua opinião, no intercâmbio entre poetas, críticos e leitores? A. A. - Há também uma revista de Teresina, muito interessante, a Pulsar. Essas revistas todas estão compondo um painel da poesia contemporânea e mostrando que, ao contrário do que alguns críticos afirmam, há muita riqueza poética nos dias de hoje. A própria Cult, com uma tiragem de 30 mil exemplares, tem prestado um serviço importante na difusão e na reflexão sobre a poesia contemporânea. Seria importantíssimo também um trabalho com as escolas de primeiro e segundo grau. O Ministério da Cultura ou mesmo os professores, por iniciativa própria, poderiam levar mais poetas vivos para dentro das escolas. É preciso perder o medo da insurreição da poesia. WB - Há elementos xamânicos e budistas em seus poemas. Você se considera um poeta místico? A poesia fala mais ao espírito ou ao pensamento? A. A. - Não sou nem um poeta nem uma pessoa mística. Apenas tenho convicção de que há muitas maneiras de perceber a realidade. Ou melhor: que existem muitas camadas de realidade. Descobri isso por experiência própria, experimentando cogumelos alucinógenos e praticando técnicas de meditação zen. Há muitos povos no planeta, muitas culturas, muitas linguagens. Os xamãs dominam uma linguagem que os "civilizados" perderam. Através dos meus estudos estou tentando despertar esta memória ancestral em minha própria mente. Um livro como "Technicians of the Sacred", de Jerome Rothenberg, é um oráculo que deveria ser consultado por todos aqueles que se empenham em descobrir outras possibilidades perceptivas. Neste livro, Rothenberg expande a idéia de poesia ao buscar as tradições poéticas de povos ancestrais, como os aborígines australianos, os pigmeus, os esquimós, os indígenas americanos. Para esses povos, a poesia é uma linguagem tão poderosa que se torna capaz até de curar um enfermo. |
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